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Da educação livre ao milagre econômico: 10 mitos sobre a ditadura brasileira

O golpe instaurado há 56 anos resultou em diversas falácias ao longo dos anos

Nicoli Raveli Publicado em 31/03/2020, às 11h00

Manifestação contra a ditadura militar
Manifestação contra a ditadura militar - Wikimedia Commons

No ano de 1964 ocorreu um golpe de estado que durou até 1985. Ao tirar o presidente João Goulart do poder, o regime militar impôs diversas regras a população, como a censura e repressão policial que, posteriormente, resultou em mortes e desaparecimentos com o decreto do AI-5.

Mesmo com o caos dos Anos de Cumbo, existem pessoas que ainda acreditam na falácia de que o Brasil era "um país melhor". Confira dez dos mitos sobre esse período que diversos brasileiros ainda defendem.

1. A ditadura não foi tão violenta

Há quem defenda que a ditadura não apresentou tanta violência como outros regimes da América Latina, e que países como a Argentina sentiram muito mais as repressões do exército.

O momento foi realmente mais sangrento em alguns países, mas isso não faz com que a ditadura do Brasil seja vista como branda, já que os mesmo direitos fundamentais também foram violados aqui, com torturas e assassinatos nos porões dos órgãos subordinados ao exército. 

Manifestação contra a ditadura militar em São Paulo / Crédito: Getty Images

 

Não obstante, de acordo com uma pesquisa do governo federal, há relatórios que indicam que a lista de mortos pela ditadura é três vezes maior do que os números oficiais divulgados. Dessa maneira, o número poderia chegar a cerca de mil mortos e desaparecidos pelo governo antidemocrata.


2. A educação era livre

Algumas pessoas afirmam que a educação e o pensamento eram livres e não sofriam censura. Entretanto, o regime nunca priorizou o livre pensamento da população. Dessa maneira, aulas como história, filosofia e sociologia foram substitiídas por Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política Brasileira.

Consequentemente, o regime impôs um grande censura as questões de ideologia e muitos estudantes não tiveram contato com as matérias da grade oficial das escolas.


3. A saúde era melhor naquela época

O cenário não era melhor do que o atual. Ademais, era restrito aos trabalhadores formais, ou seja, que tinham carteira assinada. Dessa maneira, o Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social fez com que as prestações de serviço pago crescessem e atingissem 98% de sua capacitação.

Na época, os planos de saúde ainda não existiam e o saneamento básico era um problema constante, pois chegava a poucos locais do país, o que causava um aumento no número de doenças. Para piorar a situação, o Sistema Único de Saúde (SUS) só foi existir em 1988, quando a ditadura já havia acabado.


4. Naquela época, não havia corrupção

Diferente da democracia, a sociedade não tinha voz para denunciar a corrupção que existia. Sem pessoas especializadas e com o fim do Congresso Nacional, as contas públicas não eram analisadas e nem discutidas.

Tanque militar estacionado em Brasília / Crédito: Wikimedia Commons

 

Neste período, como não havia controle de gastos, os militarem investiam milhões em obras e, por consequência, desviam parte desse montante. Com a censura do período, algumas palavras que conspiravam contra a reputação dos militares também eram pouco utilizadas: como a palavra corrupção. Além do mais, existem outros inúmeros casos de propinas e desvio de verbas


5. O estabelecimento da ditadura militar evitou o comunismo

Embora o ex-presidente João Goulart defendesse as reformas de base, ele não compartilhava a ideia do comunismo. Mesmo assim, a imprensa fez com que grande parte da população acreditasse na necessidade de uma intervenção militar. Foi então que a suposição de um golpe comunista e um nivelamento à URSS surgiram como um motivo para a ação dos militares.

Foto de João Goulart / Crédito: Wikimedia Commons

 

Entretanto, Goulart, que era chamado de marxista, mantinha fortes laços com o populismo. Além disso, uma pesquisa realizada um dia antes do golpe mostrava que o presidente tinha cerca de 70% de apoio popular na cidade de São Paulo.


6. O crescimento econônico do país

Na verdade, o movimento fez com que a dívida externa se tornasse impagável nos primeiros anos da redemocratização. Um ano antes do fim da ditadura, o Brasil devia 53,8% de seu PIB a bancos e governos estrangeiros.

Dessa maneira, o milagre econômico é mais um mito da época. O Brasil realmente cresceu mais de 10% ao ano, mas poucos desfrutavam dessa conquista. A distribuição da renda foi desigual e favoreceu 10% dos mais ricos com 38% da renda, enquanto os pobres dispunham de 17% da renda nacional. Mais tarde, em 1980, o abismo se tornou maior: a renda dos mais ricos chegou a 51%, enquanto a dos mais pobres foi diminuída a 12%, ou seja, as pessoas que eram ricas dispunham ainda mais de riquezas, enquanto os pobres se encontravam em uma situação cada vez mais miserável.


7. As igrejas protegeram o golpe militar

Por favorecimento e troca de interesses, diversas instituições religiosas apoiaram o golpe militar. No entanto, a prática não era adotada por muito deles: que se opunham ao autoritarismo do governo e denunciavam práticas de tortura e morte de inocentes. 

Esses religiosos também ajudavam muitas pessoas que eram perseguidas pelo extremismo do governo. Como consequência, muitos deles não escaparam das sessões de tortura e foram mortos pelas mãos de militares.

Todavia, um dos maiores movimentos a favor dos diretos humanos foi resultado da ação do dom Paulo Evaristo Arns, do rabino Henry Sobel e de Jaime Wright, pastor presbiteriano. O documento, que foi feito de maneira clandestina entre 1979 e 1985, revela a repressão que o Brasil sofreu naquela época.


8. Somente quem pegava em armas era morto pela ditadura

Muitas pessoas creem que a ditadura não fez muitas vítimas, apenas matavam pessoas que pegavam em armas. Todavia, muitos dados mostram o contrário, como é o caso do genocídio indígena que ocorreu durante a ditadura militar, quando mais de oito mil índios foram mortos.

Índio sendo torturado na ditadura militar / Crédito: Arara

 

De maneira análoga, jornalistas e governantes que se mostravam contra o regime também eram mortos, como Rubens Paixa, ex-deputado que foi torturado pelos militares no intuito de chamar a atenção do líder opositor Carlos Lamarca, para que ele também fosse capturado. Seguindo o mesmo pensamento, outros profissionais foram torturados e mortos nos porões do Centro de Operações de Defesa Interna, como Vladimir Herzog e Stuart Edgar Angel Jones, filho da estilista Zuzu Angel.


9. Nenhum militar foi contra o governo extremista

Da mesma maneira que nem todas as igrejas apoiaram o regime, o mesmo ocorreu com os militares. Alguns, até mesmo, apoiavam João Goulart e concordavam com as reformas de base. Mesmo que o contragolpe nunca tenha acontecido, alguns militares eram abertamente contra o governo, como aconteceu em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Devido ao movimento de oposição, mais de 7.5 mil militares foram torturados e mortos. No ápice das repressões, os serviços da ditadura também procuravam influências comunistas dentro do próprio exército.


10. Greves e passeatas não eram presentes na ditadura militar

Ao assumir o poder, os militares propuseram muitas repressões, inclusive as manifestações. Isso fez com que muitas pessoas perdessem a voz nos primeiros anos do regime. Com esse tipo de censura e com os sindicatos ocupados por homens que apoiavam a ditadura, os direitos trabalhistas foram cada vez mais reduzidos. Dessa maneira, as passeatas não eram aceitas, mesmo que em pequenas proporções.

Passeata dos Cem Mil em 1968 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Entretanto, as manifestações tiveram início em 1968, com o assassinato do estudante Edson Luísa de Lima Souto durante um tiroteio no restaurante Calabouço, centro do Rio de Janeiro. Devido ao ocorrido, o movimento estudantil organizou uma manifestação e foi à rua, a qual ficou conhecia pela Passeata dos Cem Mil.

Com essa iniciativa, esses movimentos começaram a aumentar, até que foram repreendidos pelo AI-5 no governo de Artur da Costa e Silva, o período mais sombrio do regime militar.


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