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Da fábrica ao jogo do bicho: Os altos e baixos do Bangu Atlético Clube

Em 1907, a atuação de “pessoas de cor” foi proibida durante a Liga Metropolitana de Football, fazendo com que a equipe do time carioca, composta por homens negros, abandonasse o campeonato

José Renato Santiago Publicado em 27/06/2021, às 10h00

Fotografia de um dos times do Bangu Atlético Clube
Fotografia de um dos times do Bangu Atlético Clube - Divulgação/ Arquivo Pessoal/ Noel de Carvalho

Tendo como objetivo principal ser um local que propiciasse a prática de atividades esportivas e de recreação aos funcionários da fábrica de tecidos Bangu, o Bangu Athletic Club foi fundado em 17 de abril de 1904 no bairro homônimo no Rio de Janeiro.

As cores vermelha e branca foram escolhidas por seus fundadores, trabalhadores britânicos, em homenagem a São Jorge, padroeiro da Inglaterra, e ao Southampton, sua equipe do coração. Não demorou até que o clube começasse a organizar encontros esportivos, que reuniam seus associados para praticarem competições de atletismo, rugby e futebol, este em franco crescimento.

O interesse era tamanho que, em 8 de junho de 1905, os clubes da cidade resolveram fundar a Liga Metropolitana de Football, que seria a responsável pela organização das competições oficiais de futebol, que naquele tempo eram disputadas apenas em São Paulo e na Bahia. A campanha na primeira edição do Campeonato Carioca, em 1906, com uma equipe formada quase que totalmente por ingleses, resultou em uma modesta quinta colocação dentre os seis participantes.

Ainda assim, o gosto pelo futebol pareceu contaminar os demais funcionários da fábrica, e não demorou muito para que o interesse em atuar pelo clube chegasse a todos eles. E foi exatamente a presença de brasileiros negros, Manoel Maia e Francisco Carregal, que motivou a equipe a abandonar a Liga em 1907, uma vez que a esta proibira a atuação de “pessoas de cor” em sua competição. O retorno à principal competição disputada no estado aconteceu apenas em 1912, após conquistar a Segunda Divisão no ano anterior.

Fotografia do primeiro estádio do clube, ainda na frente da fábrica / Crédito: Divulgação/ Arquivo do Bangu Atlético Clube

 

A campanha foi fraca, com apenas duas vitórias em 14 partidas disputadas, mas marcou a estreia de um integrante da família “Da Guia”, Luiz Antonio, irmão mais velho de Domingos, que viria a vestir a camisa do Bangu a partir de 1929 e se tornaria, posteriormente, um dos maiores zagueiros da história do futebol mundial.

A primeira conquista de Campeonato Carioca foi em 1933 — já sem Domigos da Guia, contratado pelo Vasco da Gama. O clube, no entanto, logo entrou em novas dificuldades financeiras e apenas a partir de 1937, com a posse de Guilherme da Silveira Filho no cargo de presidente do clube, voltou aos trilhos.

Em 1950, o Bangu contratou o maior jogador brasileiro da Copa do Mundo de 1950, Zizinho, e com ele ganhou o vice-campeonato carioca. Esse tempo de fartura ajudou a revelar outro grande nome, Zózimo, que viria a ser bicampeão mundial das Copas do Mundo de 1958 e 1962. Em 1959, mais um vice-campeonato carioca, e o surgimento de outro “Da Guia”, Ademir, filho de Domingos, que levou o título carioca juvenil.

No final de 1962, Eusébio de Andrade chega à presidência. Era o fim da ligação com a fábrica Bangu, que até então garantia a sobrevivência do clube. Juntamente com seu filho, Castor, passou a contratar e oferecer fartos prêmios aos jogadores.

O dinheiro que tornava isso possível tinha origem no jogo do bicho — vale lembrar, uma contravenção pela legislação brasileira. Com Castor de Andrade no comando do futebol, o clube chegou ao vice-campeonato estadual em 1964, 1965 e 1967 e ao título em 1966, após vitória espetacular por 3 a 0 diante do Flamengo em 18 de dezembro daquele ano.

Fotografia do Estádio Proletário Guilherme da Silveira Filho / Crédito: Divulgação/ Arquivo do Bangu Atlético Clube

 

Já ao final de 1968, envolvidos com problemas judiciais, Eusébio e Castor de Andrade decidiram sair do clube. Já sem a ajuda da fábrica, e agora sem o dinheiro da família Andrade, o Bangu voltou a fazer figuração no Campeonato Carioca. Foram anos difíceis que acabaram no começo de 1980, quando Castor de Andrade voltou ao clube, não como presidente, mas como seu patrono. Costumava afirmar que era um homem “ligado às coisas mais populares do Brasil: futebol, samba e jogo do bicho”, lembrando que também “bancava” a Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel.

Logo o Bangu passou a fazer frente junto aos quatro maiores clubes do estado. O auge seria em 1985, no dia 31 de julho, ao chegar à final do Campeonato Brasileiro frente ao Coritiba. Em um Maracanã lotado, após empate por um gol, acabou sendo derrotado na disputa por pênaltis, e teve que se contentar com o vice-campeonato.

Em 1988, nuvens negras voltaram a pairar sobre o clube, por conta, novamente, de problemas judiciais envolvendo Castor de Andrade. O rebaixamento no Campeonato Brasileiro daquele ano foi só o início de mais um capítulo, agora de declínio do clube.

Com a prisão de Castor em 1992, a principal fonte de recursos que mantinha o clube secou definitivamente. Em 2004, justamente no ano de seu centenário, o Bangu foi rebaixado para a Segunda Divisão do Campeonato Carioca. Ficou por quatro temporadas nessa divisão, até conquistar o título em 2008 e retornar à Primeira. Em 2017 o Bangu irá disputar a Série D do Brasileiro, equivalente à Quarta Divisão.


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