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Da paranoia ao derrame: os dias finais de Lenin

Um dos mais importantes revolucionários do mundo e líder da Revolução Russa teve uma vida intensa e conturbados últimos anos

Redação Publicado em 05/07/2020, às 08h00

Lenin, revolucionário russo
Lenin, revolucionário russo - Divulgação/Klimbim

Lenin vivera sua vida inteira sob escrutínio policial. Fora também traído por um amigo que defendera insistentemente de acusações dos colegas de ser um espião da Okhrana, Roman Malinovsky – que era, e foi fuzilado logo no começo da revolução. Seu regime nascia paranoico. “Lenin sabia que o poder podia escapar-lhe das mãos a qualquer instante, o que explica bastante dos 74 anos de história do regime soviético”, afirma Victor Sebestyen na obra Lenin – Uma História Íntima.

Sua primeira ação prática foi tentar reverter uma decisão de Lev Kamenev, que havia o substituído provisoriamente, enquanto Lenin dormia, se recuperando da noite. Kamenev havia abolido a pena de morte entre os militares, um jeito de conquistar seu apoio. Lenin ficou furioso. Interpelou Kamenev pessoalmente: “Bobagem! Quanta Estupidez! Isso seria grave erro, imperdoável fraqueza. Como se pode fazer uma revolução sem pelotões de fuzilamento?”.

No dia seguinte, censurava a imprensa – que reagira com sarcasmo à ascensão dos bolcheviques ao poder. Em novembro, permitiu, muito a contragosto, a eleição da Assembleia Constituinte. Os bolcheviques levaram apenas 24% das cadeiras. Quando a assembleia se reuniu, em 18 de janeiro, durou 12 horas.

Recusando-se a votar por uma medida que os obrigava a ratificar qualquer decisão do governo bolchevique, foi dissolvida. Entre as eleições e a assembleia, em 7 de dezembro, Lenin criou a Chrezvychaynaya Komissiya – mais conhecida por Cheka, suas iniciais.

A polícia secreta bolchevique seria responsável por no mínimo 884 execuções em seus primeiros seis meses. A estrutura foi copiada da Okhrana, a polícia secreta do Czar. “Marx e Engels não deixaram plantas baixas de seu projeto. A Okhrana, sim”, comenta Sebestyen. Lenin em pessoa sugeriu uma das mais infames características do modus operandi da agência: as prisões deveriam ocorrer à noite. Esse seria o padrão da repressão, de esquerda ou direita, no século 20.

Crédito: Getty Images

 

Lenin continuaria com seu estilo de ordenar brutalidade a distância, sem nunca tomar parte. “Lenin viu três cadáveres na vida: seu pai, sua irmã e Inessa Armand [que morreu em setembro de 1920 e foi enterrada como heroína da pátria]”, afirma o autor. Em um dos seus muitos decretos, nos quais pedia “mais brutalidade”, ordenou números precisos de mortos nas incursões a aldeias camponesas resistentes: “Enforquem (repito, enforquem para que as pessoas possam ver) não menos que 100 kukaks conhecidos, homens ricos, sanguessugas”.

Kulak – “punho” em russo, expressão usada para mãos fechadas, pães-duros – foi um termo criado por Lenin para se referir a proprietários rurais remediados – muitos deles menos ricos que sua própria família fora. “Grande parte da Rússia passava fome – e Lenin precisava de alguém para levar a culpa”, afirma Sebestyen.

Entre a Guerra Civil com brancos, remanescentes do exército czarista, fome, doenças e o Terror Vermelho – nome oficial para as ações de intimidação –, até 10,5 milhões padeceram. Dos quais, algo entre 100 mil e 1,3 milhão pelo Terror Vermelho (como todas as estatísticas de mortes na história soviética, essas variam insanamente).

O último gesto do governo de Lenin foi um recuo. Diante da fome e crise econômica, em março de 1921, foi lançada a Nova Política Econômica (NEP), permitindo propriedades privadas limitadas. “De início, Lenin enfrentou grande oposição dentro do Partido Comunista: milhares rasgaram suas carteiras de filiação”, afirma Sebestyen.

Em maio de 1922, um derrame tombou o cada dia menos humano líder. Os quase dois anos que se seguiram foram numa esperança fútil de recuperação. Como seu pai, ele morreria cedo, de arteriosclerose cerebral, em 21 de janeiro de 1924.

Lenin, em uma de suas últmas fotos / Crédito: Wikimedia Commons

 

Teve tempo de deixar mais um legado de valor duvidoso: sua carta-testamento, na qual famosamente afirmou: “O camarada Stalin (...) tem autoridade ilimitada concentrada em suas mãos, e não tenho certeza se será sempre capaz de usar essa autoridade com suficiente cautela”.

Dizia que Trotsky, mesmo se “talvez a pessoa mais competente no Partido”, tinha “excessiva autoconfiança e excessiva preocupação com o lado puramente administrativo do trabalho”. Ausente no testamento: um sucessor.

Stalin e Trotsky se digladiariam por um tempo. Stalin tinha os melhores contatos. Trotsky – responsável mais que Stalin por ações do Terror Vermelho – passou a vida no exílio, acusando o rival de traição. Mas Stalin, segundo Sebestyen, só seguiu um plano deixado pelo criador.

“Ao longo de toda a sua existência, a União Soviética se identificou com seu fundador, vivo ou morto”, afirma Sebestyen. “O regime por ele criado foi em grande parte moldado por sua personalidade: sigiloso, suspeito, ascético, imoderado. Poucos dos mais decentes aspectos de seu caráter encontraram espaço na vida pública soviética.”

Em conclusão: “Muitos historiadores têm argumentado que a razão de o comunismo soviético ter se desenvolvido como ocorreu foi que Lenin tentou importar um credo e uma filosofia ocidental para um país atrasado. Entretanto, a verdade está no oposto. Lenin transformou um conjunto de noções europeias em uma criação muito russa. Sua versão do marxismo – com intolerância, violência e crueldade – foi forjada pela experiência de Lenin na condição de russo do século 19. O bolchevismo de Lenin tinha profundas raízes russas”.


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