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Da Peste Bubônica a Gripe Espanhola: conheça algumas das piores quarentenas da história

Desde o século 14, inúmeras doenças já obrigaram o mundo a entrar em reclusão para evitar contágio

Vanessa Centamori Publicado em 13/03/2020, às 11h50

Especialistas usam roupas de proteção contra o coronavírus
Especialistas usam roupas de proteção contra o coronavírus - Divulgação/ Air Forces dos EUA/ Cody R.Miller

A quarentena é uma prática que não vem dos tempos atuais, com o mundo alerta frente à pandemia de coronavírus. Na verdade, surgiu na Idade Média, durante o século 14, para proteger principalmente cidades costeiras de epidemias. Naquela época, durante um total de quarenta dias, navios que vinham de outros portos com suspeita de doenças contagiosas eram segurados no porto de Veneza, por exemplo. 

A palavra quarentena em si nasceu da expressão italiana quaranta giorni, que significa o período de quarenta dias. Mas vale lembrar que hoje em dia a medicina não restringe a quarentena à esse exato número de dias, podendo o tempo que um indivíduo permanece recluso ser maior, dependendo do seu quadro de saúde.

Modelo do coronavírus / Crédito: Wikimedia Commons

 

Há alguns registros da quarentena em textos bem mais antigos, como o Levítico, o terceiro livro da Bíblia hebraica e do Antigo Testamento cristão. Nos escritos bíblicos, já havia trechos que falavam como praticar a quarentena em casos de lepra. Casos à parte, foi na Idade Média o primeiro período no qual temos de fato registros de que uma primeira reclusão por motivos de saúde realmente ocorreu. 

Máscara que era usada contra a Pestre Bubônica / Crédito: Wikimedia Commons 

 

1. Peste Bubônica  (1370) 

Pessoas tiveram que ficar isoladas por conta de uma doença, pela primeira vez na história, na Europa, entre os anos de 1347 e 1352. A culpada disso foi a Peste Bubônica ( também chamada de Peste Negra), que matou mais de 20 milhões de pessoas - seja nobres ou plebeus. 

A peste começou a se espalhar por Veneza, na Itália. As autoridades tiveram que desviar caminhos de navios que vinham de áreas infectadas e muitos portos foram fechados para que navios fossem retidos. Os passageiros eram isolados durante quarenta dias. 

Feridas causadas pela peste bubônica / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Vale lembrar que algo muito similar aconteceu  este mês de março com um navio na costa da Califórnia, nos Estados Unidos, por conta de suspeita de casos de coronavírus. No Brasil, na última quinta, dia 12, um passageiro passou mal a bordo de um cruzeiro, durante o desembarque no Porto do Recife, e, por causa de suspeita de transmissão do Sars-cov-2, o novo coronavírus, o navio foi isolado.


2. Febre Amarela (1793)

Até então, os Estados Unidos tinham como capital a Filadélfia e a febre amarela estava tão avassaladora que morreram quase 5 mil pessoas na cidade, durante apenas dois anos. Quando a coisa ficou cada vez pior, com quase 100 pessoas morrendo por dia, milhares de pessoas tentaram escapar da doença no interior do país. 

Muitos marinheiros que vinham de portos mais distantes eram obrigados a ficarem em quarentena em um Hospital fora da cidade, o Lazaretto. Outra prática recorrente era tentar fazer sangrar os pacientes, pois eles estariam com “sangue infectado”. Ou ainda, o doente era medicado com vinho, em uma alternativa menos dolorosa. 

Serviço de profilaxia contra a febre amarela, no Rio de Janeiro / Crédito: Wikimedia Commons 

 

No entanto, tudo isso foi em vão. Como a febre amarela é transmitida por um vírus que passa pela picada de mosquitos, bastava haver um inseto voador para que alguém adoecesse. Por sorte, hoje já temos a vacina para essa doença e apenas uma dose já garante imunidade por toda a vida. 


3. Tifo (1892) 

Imigrantes judeus da Rússia, empesteados de piolhos, andaram por pensões e casas na parte leste da cidade de Nova York, em 1892. Como resultado, o tifo, que é transmitido por esses piolhos, se espalhou antes mesmo que fosse identificado como um problema. 

Segundo o historiador Howard Markel, da Universidade de Michigan, os imigrantes estavam chegaram pela primeira vez na cidade em um navio, que parou na Ilha Ellis. Eles tinham tantos piolhos, que um inspetor teria dito que nunca tinha visto um grupo tão “bagunçado”. 

Carrapatos podem transmitir bactéria causadora da Tifo / Crédito: Divulgação 

 

Pelo menos 70 pessoas tiveram então que ficar de quarentena em tendas em North Brother Island. Para piorar, um surto de cólera também surgiu em Nova York, logo depois. Ele também teria sido trazido por imigrantes russos. 


4. Febre Tifóide ( 1907) 

A cozinheira Mary Mallon, que ficou conhecida como “Maria Tifóide”, contraiu a bactéria causadora da Febre Tifóide. A doença é uma forma de salmonela que pode dar febre, diarréia e causar até a morte. Mas nenhum desses sintomas apareceram em Mallon, que era imune à doença. 

Jornal antigo mostra a história de Maria Tifóide / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Mesmo assim, como ela cozinheira, acabou que os quitutes servidos por ela contribuíram para espalhar a Febre Tifóide. Então Mallon teve que passar por uma quarentena de três anos, na North Brother Island, em Nova York. Desobedecendo as autoridades, ela acabou voltando a cozinhar. Em 1915 então ela teve que voltar à ilha e permanecer por lá por 23 anos, até a sua morte. 


5. Gripe Espanhola (1917-1919)

Passar apenas alguns minutos com um paciente que tosse e espirra já podia transmitir essa terrível pandemia que matou quase 50 milhões de pessoas. Como resposta, houve quarentena e muitas aulas canceladas na Europa. Shows e encontros no quais houvesse aglomerações também foram suspensos. 

Hospital nos Estados Unidos, em 1918, lotado de vítimas da gripe espanhola / Crédito: Wikimedia Commons 

 

As mortes foram um resultado da falta de ferramentas médicas básicas em 1918. Além disso, as terríveis condições de vida naquele momento trágico da história da humanidade contribuíram para a mortalidade da pandemia. As trincheiras, por exemplo, se tornaram o ambiente ideal para infecções entre soldados da Primeira Guerra Mundial.


6. SARS (2003)

A pandemia da Síndrome respiratória aguda grave (SARS) também causou quarentenas em inúmeros países. No Canadá, a situação foi a pior, com mais pessoas reclusas devido ao vírus, que é transmitido por gotículas que penetram no ar quando alguém com a doença tosse, espirra ou fala. 

Segundo a agência norte-americana, National Institutes of Health (NIH), quase cem canadenses tiveram que ficar de quarentena por cada caso da doença no país. A cidade de Toronto tinha apenas 250 casos de SARS, mas mesmo assim 30 mil pessoas foram mantidas dentro de suas casas ou ficaram internadas em hospitais. Na China ( país de onde surgiu a pandemia), só em Beijing 2,5 mil pessoas ficaram também de quarentena.


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