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De 'quebrar o galho' até 'enfiar o pé na jaca': Confira a origem de 10 expressões populares

Criadas há décadas e reproduzidas incessantemente por gerações, tais frases nasceram das mais inusitadas maneiras

Redação Publicado em 19/09/2021, às 08h00

Imagem meramente ilustrativa de caneta de pena
Imagem meramente ilustrativa de caneta de pena - Divulgação/ Pixabay/ Pexels

Desde antes do século 16, a humanidade conta com registros de frases cujos significados vão muito além do literal. Criados das mais distintas maneiras, muitos destes ditados resistiram ao passar das décadas e, hoje, têm significados bastante singulares.

De um conceito da Idade Média, até um rumor da corte portuguesa, algumas das expressões que conhecemos atualmente têm curiosas origens. Confira de onde vieram dez frases populares que mudaram, ou não, de significado com os anos. 

1. "Maria vai com as outras"

De acordo com o pesquisador Brasil Gerson, autor de História das Ruas do Rio, a expressão tem origem no início do século 19, com a vinda da família real portuguesa para o Rio de Janeiro. A mãe do rei João VI, a rainha Maria I, costumava passear às margens do rio Carioca, no antigo bairro de Águas Férreas.

Acontece que Maria I era conhecida por sua insanidade mental (manifestada após a morte do filho e da Revolução Francesa), tanto que era tratada como “A Louca”. Como ela ia passear levada pelas mãos de suas damas de companhia, o povo dizia: “Maria vai com as outras”.


2. "A cobra vai fumar"

Surgiu como slogan da Força Expedicionária Brasileira, constituída em 1943 para lutar na Europa, durante a Segunda Guerra. Era uma resposta à descrente opinião pública da época, que dizia que era mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra.

A partida para a Itália só ocorreu em junho de 1944. Mas o ceticismo pairava no ar desde 1942, quando o presidente Getúlio Vargas anunciou que o Brasil não se limitaria ao fornecimento de materiais nem à expedição de contingentes simbólicos. Além de adotar o irônico slogan, a FEB editou um periódico que se chamava '...E a Cobra Fumou!'.


3. "Quebrar o galho"

Quando alguém nos ajuda a resolver um problema, dizemos que essa pessoa nos "quebrou um galho". Existem duas versões diferentes para explicar a origem desse regionalismo tão usado no Brasil.

Um dos significados da palavra galho é “conjunto de riachos que se reúnem para formar um rio”. Assim, para os viajantes, “quebrar um galho” significa abrir um caminho em um afluente de rio para desembocar de forma mais rápida no rio principal.


4. "Dor de cotovelo"

A expressão, incorporada pelos dicionários de língua portuguesa, se difundiu graças ao sambista Lupicínio Rodrigues. Lupe, como era conhecido, foi um mulherengo incorrigível. Usou suas diversas desilusões amorosas como inspiração para compor.

Ele costumava classificar sua dor de cotovelo em três categorias, conforme a intensidade: a federal, que acabava em um porre; a estadual, suportável; e a municipal, que não rendia sequer um samba. Praticamente todos os sambas de Lupe mencionavam a 'dor'.


5. "Enfiar o pé na jaca"

Não é nenhum segredo, enfiar o pé na jaca quer dizer tomar uma carraspana, ficar de pileque, ser um borrachão. Ainda que em algum lugar alguém deva ter enfiado o pé na grudenta e descomunal fruta, a origem da expressão não tem nada a ver com algo que você possa comprar na feira livre.

Originalmente era ‘‘enfiar o pé no jacá”, com acento. "Jacá" vem do tupi "aya’ka" e era um cesto feito de bambu ou cipó. Ele era usado preso no lombo de animais de transporte de carga no Brasil colonial, entre os séculos 17 e 18.

Em suas viagens, quando os tropeiros paravam em bodegas de beira de estrada e exageravam na bebida. Na hora de subir de volta no burrico, quem saía trançando as pernas podia enfiar o pé no jacá, passando o maior vejame, ultraje, opróbrio, carão.


6. "Com os burros n’água"

Designada quando alguém faz esforço para conseguir algo e se dá mal, a frase vem dos tempos do Brasil colonial, que, entre os séculos 17 e 18, viu a necessidade de escoar ouro, cacau e café entre o Sul e o Sudeste e adotou a ideia dos colonizadores espanhóis, que transportavam entre a Bolívia e o Panamá cargas sobre burros ou mulas.

Era comum os condutores das tropas enfrentarem caminhos torturantes. Muitas vezes davam, literalmente, com os burros n’água — em travessias alagadas onde os animais morriam afogados. Como o dono da mercadoria arcava com o dano, a locução passou a ser empregada sempre que alguém leva a pior.


7. "As paredes têm ouvido"

Tanto ocidentais quanto orientais concordam com a expressão que alerta para os perigos de sermos escutados sem saber. O dito existe, nessa mesma forma, em línguas como alemão, francês e chinês. Sua origem remonta a um antigo provérbio persa que dizia: “As paredes têm ratos, e ratos têm ouvidos”.

Um dos primeiros registros de provérbio semelhante em inglês aparece no clássico medieval 'The Canterbury Tales', escrito por Geoffrey Saucer entre 1387 e 1400. Saucer descreve algo como “aquele campo tinha olhos, e a madeira tinha ouvidos”.

A expressão ganhou um sentido quase literal, que pode ser testemunhado até hoje em castelos medievais e, principalmente, palácios renascentistas. Muitos deles — como o Palácio dos Doges, em Veneza, Itália — escondem dutos e aberturas pelas paredes, construídas na época para possibilitar a audição, em outras salas, de encontros políticos a portas fechadas.


8. "Fazer uma vaquinha"

O ato de juntar algumas pessoas para coletar um dinheirinho passou a ser conhecido como “fazer uma vaquinha” no século 20 por causa do futebol. Nas décadas de 20 e 30, quase nenhum jogador de futebol ganhava salário — luxo só garantido aos atletas do Vasco da Gama.

Nesses tempos bicudos, muitas vezes a própria torcida reunia-se a fim de arrecadar, entre si, um “prêmio” para agraciar os craques. A grana era paga de acordo com o resultado obtido em campo. Os valores dessas “bolsas” associavam-se aos números do jogo do bicho, loteria criada nos fins do Império.

Se arrecadassem 5 mil réis, por exemplo, chamavam o prêmio de “um cachorro”, já que 5 é o número do cachorro no jogo. Dez-mil réis eram “um coelho”. Quinze mil réis, “um jacaré”. Vinte mil, “um peru”. Vinte e cinco mil, o prêmio máximo, era chamado de “uma vaca”. Nascia a expressão “fazer uma vaquinha”.


9. "Arranca-rabo"

Sinônimo de briga, confusão, escândalo, a expressão tem origem em Portugal. Mas os fatos que a inspiraram remontam às guerras da Antiguidade. Segundo Deonísio da Silva, professor de Letras da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, os guerreiros egípcios adotaram a prática de decepar a cauda dos cavalos das montarias inimigas para provar aos súditos a vitória em uma batalha.

“Um oficial do faraó Tutmés III (1504-1450 a.C.) chegou a registrar em suas escrituras a glória de ter arrancado o rabo do cavalo do rei adversário”, escreve ele no livro De Onde Vêm as Palavras.

O apreço pelo troféu inusitado durou milênios, chegando às terras lusitanas e, depois, ao Brasil. Aqui, os cangaceiros cortavam o rabo do gado de fazendas, para humilhar seus proprietários durante as invasões.


10. "Segurar vela"

Quando não existiam as lâmpadas — que podiam ser alimentadas por óleo de baleia ou gás —, as velas eram a principal fonte de luz. Por isso, na Idade Média, os iniciantes em todo tipo de trabalho braçal seguravam velas para que os mais experientes enxergassem o que faziam. Em teatros e outros lugares que funcionavam à noite, por exemplo, havia garotos acendedores de vela.

Em francês, uma das explicações da expressão (“tenir la chandelle”) se refere a criados que eram obrigados a segurar os candeeiros durante as relações sexuais de seus patrões e se manter virados de costas para não ver o que acontecia.

Entre 1500 e 1600, “segurar vela” passou a significar “ajudar em uma posição subordinada, desconfortável”. Com o tempo, serviu para designar a amante de um triângulo amoroso, e, mais recentemente, o amigo solteiro que acompanha um casal.


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