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Diário do Hospício: a obra que revelou as angústias vividas por Lima Barreto

Os textos foram escritos após o escritor ficar internado durante dois meses no Hospício Nacional dos Alienados

Victória Gearini Publicado em 23/12/2020, às 18h00 - Atualizado às 18h25

Lima Barreto, em 1917
Lima Barreto, em 1917 - Wikimedia Commons

Publicada em 1953, a obra Diário do Hospício, do escritor carioca Lima Barreto, revela sua conturbada internação no Hospício Nacional dos Alienados, entre 25 de dezembro de 1919 e 2 de fevereiro de 1920. Organizado por Francisco de Assis Barbosa, o livro retrata a experiência durante a sua estadia no manicômio

A internação no manicômio

Em 1912, Lima Barreto começou a apresentar os primeiros indícios de depressão e alucinação. Pouco tempo depois, o abuso do uso de álcool passou a se tornar cada vez mais frequente na vida do escritor, agravando o seu estado de saúde. 

Dois anos depois, o autor foi internado em um sanatório. Em seu prontuário hospitalar de 18 de agosto de 1914, continha a seguinte frase: “Branco, 33 anos, solteiro, brasileiro, empregado público. Diagnóstico: alcoolismo”. Filho de um escravizado e de uma filha de escrava agregada, o autor foi classificado como branco quando passou pela triagem.

Hospício Pedro II, em 1861 / Crédito:Arquivo Nacional

 

Lima Barreto, por sua vez, enfrentava sérios problemas de alcoolismo, o que o levou a ser internado novamente entre 25 de dezembro de 1919 e 2 de fevereiro de 1920. Em sua última passagem por um sanatório, o escritor permaneceu dois meses no Hospital Nacional dos Alienados.

Conhecido inicialmente como Hospício Pedro II, após a instauração da República, o local foi renomeado de Hospital Nacional dos Alienados. Considerado o primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e o segundo da América Latina, o manicômio foi fundado pelo último imperador do país, em 1852.

Durante décadas, os internos foram tratados com métodos pouco convencionais e nada amistosos. Os pacientes mais agitados e agressivos eram acorrentados em cadeiras, trancados em seus quartos ou amarrados em camisas de força. Mais tarde, a instituição passou a abrigar loucos, alcoólatras e histéricos — segundo rótulos registrados pela própria instituição.

O aclamado livro 

Em sua primeira edição, o Diário do Hospício aparecia junto às obras Diário Íntimo e Cemitério dos Vivos. A partir de relatos pessoais, estes escritos de Lima Barreto passaram a representar uma profunda reflexão teórica sobre a literatura nacional. Já em 1956, a obra foi reorganizada por Francisco Barbosa, com a ajuda de Antonio Houaiss e M. Cavalcanti Proença. 

Busto de Lima Barreto no Rio de Janeiro / Crédito: Wikimedia Commons

 

Em Diário do Hospício, Lima Barreto faz uma autoanálise sobre a “loucura” que deseja compreender, mas não consegue. Além disso, o autor revela as agruras daqueles que eram classificados como alienados e aborda, ainda, a violência da sociedade da época. Já no romance inacabado O cemitério dos vivos, o escritor transpôs uma narrativa ficcional sobre a mesma vivência no manicômio.

Infelizmente, o autor veio a falecer sozinho dentro de sua casa, em decorrência de um ataque cardíaco, em 1922. Suas obras foram publicadas após o falecimento, e o autor nunca chegou a presenciar a dimensão da sua fama.

Confira abaixo um trecho do primeiro capítulo do livro, Diário do Hospício e Cemitério dos Vivos :

"Ao pegar agora no lápis para explicar bem estas notas que vou escrevendo no Hospício, cercado de delirantes cujos delírios mal compreendo, nessa incoerência verbal de manicômio, em que um diz isto, outro diz aquilo, e que, parecendo conversarem, as ideias e o sentido das frases de cada um dos interlocutores vão cada qual para o seu lado, eu me lembro muito bem que um amigo de minha família, médico ele mesmo de loucos, me deu, logo ao adoecer meu pai, o livro de Maudsley, O crime e a loucura. A obra me impressionou muito e de há muito premedito repetir-lhe a leitura. Saído dela, escrevi um decálogo para o governo da minha vida; entre os seus artigos havia o mandamento de não beber alcoólicos, coisa aconselhada por Maudsley, para evitar a loucura. Nunca o cumpri e fiz mal. Muitas causas influíram para que viesse a beber; mas, de todas elas, foi um sentimento ou pressentimento, um medo, sem razão nem explicação, de uma catástrofe doméstica sempre presente. Adivinhava a morte de meu pai e eu sem dinheiro para enterrá-lo; previa moléstias com tratamento caro e eu sem recursos; amedrontava-me com uma demissão e eu sem fortes conhecimentos que me arranjassem colocação condigna com a minha instrução; e eu me aborrecia e procurava distrair-me, ficar na cidade, avançar pela noite adentro; e assim conheci o chopp, o whisky, as noitadas, amanhecendo na casa deste ou daquele."


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