Curiosidades » Bizarro

Dividas e apostas: Como tulipas causaram uma histeria na Holanda do século 16

O episódio compreende uma das mais estranhas epidemias psíquicas que a história da medicina registrou

Texto Moacyr Scliar Publicado em 02/11/2020, às 08h00

Imagem de uma tulipa
Imagem de uma tulipa - Imagem de Rudy and Peter Skitterians por Pixabay

Será que podemos falar de contágio psíquico? Para a medicina, a expressão parece pouco adequada, já que as doenças mentais ou emocionais não são, em geral, causadas por micróbios, e portanto, não deveriam passar de uma pessoa para outra.

No entanto, a expressão existe. Foi cunhada pelo psicanalista Carl Jung, ainda que não de forma pioneira, pois antes dele Freud já havia falado em “contágio de grupo”. É um fenômeno pelo qual grande número de pessoas adota um comportamento comum, muitas vezes bizarro, como se fosse uma epidemia de natureza psicológica.

E, para a história, esse fato não é tão raro, que acontece sobretudo em épocas de transição, aquelas em que, na frase do filósofo italiano Gramsci, “o novo ainda não nasceu e o velho não morreu”; épocas que põem em questão os valores tradicionais.

Como observou o grande médico do século 19, Rudolph Virchow: se a doença de uma pessoa é expressão da sua vida em condições desfavoráveis, as epidemias – de doença física ou mental – são resultado de distúrbios na vida das populações. Um exemplo disso aconteceu na transição da Idade Média para a Era Moderna.

Antigos valores foram subvertidos; a sociedade medieval, estável na sua hierarquia (e na sua pobreza) dava lugar a uma nova estrutura social, em que a ascendente burguesia ditava as regras.

É um mundo competitivo, de uma busca, não raro maníaca, de riqueza, de luxo, de luxúria. Estranhas manifestações ocorriam então – o caso da “dança de São Vito”: de repente, pessoas entregavam-se, na rua ou em qualquer outro lugar, a um bailado frenético, que se prolongava até a exaustão. Arrancavam todas as roupas, gritavam, blasfemavam, faziam gestos obscenos, riam ou choravam, rolavam no chão.

Na Itália, fenômeno similar deu origem à tarantela; os tarantati atribuíam a compulsão por cantar e dançar em público à picada da aranha tarântula.

Todavia, uma das mais estranhas epidemias psíquicas que a história da medicina registrou foi a tulipomania, que teve início quando, em 1562, atracou no porto de Antuérpia um navio que trazia de Constantinopla um carregamento de bulbos de tulipa.

Muito bonita e exótica, em forma de turbante (em turco, tülbent) e originária do misterioso Oriente, a flor tinha todos os ingredientes para despertar curiosidade e desejo. Tulipa entrou na moda.

Mais que isso, transformou-se em obsessão. Novas variedades eram supervalorizadas e davam a quem as possuía um prestígio inimaginável. Um conhecido médico de Amsterdã, Claes Pietersz, mudou o próprio nome para Nicolaes Tulp, adotando a tulipa como símbolo pessoal.

E sob seu novo nome foi retratado por Rembrandt no famoso A lição de anatomia do Dr.Tulp. O resultado desse frenesi foi um surto especulativo sem precendentes na história do nascente capitalismo holandês.

O preço das tulipas disparou. Pessoas vendiam propriedades ou se endividavam para comprá-las. A literatura médica da época relata estranhos acontecimentos: um comerciante deu a um marinheiro que lhe tinha trazido mercadorias um arenque como pagamento.

O homem viu, no escritório do comerciante, algo que lhe pareceu uma cebola e resolveu comê-la junto com o prato principal. Quando o dono deu pela falta da suposta cebola, entrou em pânico: correu atrás do marinheiro e encontrou-o mastigando o que, na verdade, era um bulbo da tulipa Semper augustus.

A partir de 1635, as tulipas passaram a ser vendidas ainda durante o cultivo. Para isso, eram emitidas notas promissórias conhecidas como windhandel, ou “comércio no vento”. Os papéis só fizeram crescer a bolha de especulação, na qual até pessoas humildes apostavam suas economias.

Dois anos depois, quando o preço das tulipas despencou, muita gente acabou arruinada.
Mas, afinal, por que tulipas? Por que não uma coisa mais durável, como joias, porcelanas chinesas ou tapetes orientais?

Porque, além de sua beleza, a tulipa se prestava para a especulação. É sazonal; e, como todo produto natural, está sujeita aos caprichos meteorológicos. Quer dizer: ora a tulipa existe, ora não, o que é ótimo para as manobras especulativas.

Existe aí uma certa lógica, sobre a qual a mania acaba predominando, com resultados
não raro catastróficos. A tulipomania lembra-nos a frase de Shakespeare: entre o céu e a terra há muitas coisas que a nossa filosofia não alcança.

Entre essas coisas, estão as irisadas bolhas especulativas que ascendem no ar até estourarem sem deixar vestígio.