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Do abandono da ciência ao aumento da natalidade: Entenda como a Gripe Espanhola transformou a sociedade

Em um mundo pós-pandemia que se recuperava da Primeira Guerra Mundial, mulheres sofreram abortos espontâneos e políticas de saúde mais transparentes foram implementadas

Pamela Malva Publicado em 27/05/2020, às 17h00

Hospital nos Estados Unidos lotado de vítimas da gripe espanhola, em 1918
Hospital nos Estados Unidos lotado de vítimas da gripe espanhola, em 1918 - Wikimedia Commons

Durante os últimos meses da Primeira Guerra Mundial, o mundo foi atingido por uma enfermidade muito mais letal do que o próprio conflito. Em três ondas mortais, a Gripe Espanhola fez mais de 50 milhões de vítimas no mundo todo.

Entre 1918 e 1919, a pandemia viral infectou cerca de 500 milhões de indivíduos espalhados pelos Estados Unidos, Austrália, Espanha e diversos outros países. Sem conhecimento ou um diagnóstico eficaz, o número de mortos crescia diariamente.

Diversos fatores, além da letalidade do vírus, cooperaram para tal taxa de mortalidade. A população mundial era muito menor, as pessoas tinham uma saúde frágil — centenas sofriam de tuberculose —, não havia um meio transporte rápido para infectados e as informações eram de difícil acesso, já que muitos eram analfabetos.

Ainda que a origem da Gripe Espanhola continue desconhecida — ela apenas foi registrada primeiro na Espanha, mas não teve início no país —, muito se sabe sobre a enfermidade. Principalmente quando o assunto é sua influência na história mundial.

Enfermaria carioca de 1918 com infectados pela Gripe Espanhola / Crédito: Biblioteca Nacional

 

Uma população traumatizada

Inicialmente, enquanto a doença se espalhava de país em país, as pessoas perceberam que o distanciamento ajudaria. Assim, implementou-se a ideia de uma quarentena. Com a Primeira Guerra em seu fim, no entanto, tais diretrizes pareciam bastante ambiciosas.

Com um índice de mortes assustador, muitos indivíduos deixaram de acreditar na medicina. Assim, diversos países se afastaram da ciência e, assim, tratamentos alternativos ganharam espaço no começo de 1920, o período pós-pandemia.

Em um caminho contrário, a China aumentou a vigilância sanitária e investiu ainda mais na saúde pública. O país passou a priorizar a coleta organizada de dados e decidiu voltar-se para a ciência, a fim de evitar pandemias futuras.

A Rússia, por sua vez, foi a primeira nação a implementar os sistemas de saúde socializados. No mundo, a epidemiologia foi desenvolvida e as saúdes básicas das populações tornaram-se mais transparentes e efetivas.

Enfermeiras cuidando dos soldados doentes da guerra / Crédito: Getty Images

 

O mundo pós-pandemia

Logo que as pessoas começaram a se recuperar e a última onda da Gripe Espanhola reduziu tanto em tamanho, quanto em letalidade, os primeiros efeitos da pandemia foram observados ao redor do mundo. Um deles foi a mudança na expectativa de vida.

Com tantos mortos, a população mundial viu-se livre de doenças incapacitadoras e de múltiplas enfermidades letais. Muitos já não se preocupavam mais com a tuberculose, por exemplo. Assim, a expectativa de vida mundial aumentou consideravelmente.

Ao mesmo tempo em que pessoas previamente doentes foram acometidas pela Gripe Espanhola, os mais saudáveis sobreviveram à pandemia. Dessa forma, diversos países apresentaram um boom de bebês na década de 1920.

Ainda que muitos acreditem que tal boom na natalidade tenha ocorrido apenas graças ao fim da guerra, a gripe também foi um fator determinante. A Noruega, por exemplo, registrou um grande índice de nascimento, mas manteve-se neutra durante o conflito.

Soldados doentes da guerra / Crédito: Getty Images

 

A pobreza inevitável

Logo após o fim da pandemia, o mundo não contava com muitas instituições de assistência social, mesmo em países ricos. Com isso, os dependentes daqueles que foram vítimas da doença não receberam qualquer apoio monetário.

De 1918 em diante, muitos dos dependentes desapareceram dos registros. Pouco se sabe sobre o que aconteceu com eles, mas estudos da Suécia indicam que idosos mudaram de endereço e trabalho, enquanto crianças passaram a morar nas ruas.

Bem como a taxa de natalidade, o número de abortos espontâneos no período pós-pandemia também aumentou. Ainda que as mulheres fossem menos vulneráveis à doença do que os homens, as grávidas sofreram bastante com vírus — seus corpos revertiam toda a força do desenvolvimento do feto para o combate à doença.

Entre os inúmeros bebês que nasceram na época, todavia, muitos desenvolveram uma condição física e cognitiva conhecida como programação fetal. Com ela, tais gerações demonstraram-se mais propensas a sofrer ataques cardíacos e a descumprir a lei.

Como se não fosse o suficiente, o mundo mal havia se recuperado da pandemia quando a Segunda Guerra Mundial tomou todas as manchetes. Filhos nascidos após a Gripe Espanhola foram mandados para as frentes de batalha e o mundo teve de se preparar para mais centenas de milhares de mortes.


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