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Do exército a guerrilha urbana: 5 fatos sobre Carlos Lamarca, o Capitão Vermelho

Visto como herói por uns e traidor por outros, o oficial deixou a carreira nas Forças Armadas para trás e lutou conta a ditadura militar até a sua morte

Alana Sousa Publicado em 11/11/2020, às 13h00

Carlos Lamarca, o Capitão Vermelho
Carlos Lamarca, o Capitão Vermelho - Wikimedia Commons

Um dos maiores nomes da luta contra a ditadura militar, Carlos Lamarca, conhecido como Capitão Vermelho foi um guerrilheiro resistente, destemido e, acima de tudo, feroz. Foi caçado intensamente pelo regime, que culminou em sua morte. Porém, seu legado ainda vive e seu nome na História é perpetuado.

Confira abaixo 5 fatos sobre a vida do revolucionário brasileiro.

1. Início da vida

Natural do Rio de Janeiro, ingressou aos 18 anos na Escola Preparatória de Cadetes, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Após dois anos, foi transferido para a Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, no Rio de Janeiro. Como oficial do exército, era reconhecido por suas habilidades de atirador, considerado o melhor de seu regimento.

Casado com Maria Pavan, teve seu primeiro filho ainda naquele ano. Filho de um sapateiro e uma dona de casa, Lamarca tinha como livro de cabeceira o clássico Guerra e Paz de Leon Tolstoi. Desde cedo era ativo em problemas sociais, ainda jovem participou de um protesto nacionalista, parte da campanha "O petróleo é nosso".


2. Exército

Atuando no 4º Regimento de Infantaria, em Osasco, São Paulo, o início da década de 1960 parecia promissor e sua carreira no exército aparentava ser o caminho certo. Integrou o Batalhão Suez, nas Forças de Paz da ONU, e se impressionou com a situação dos palestinos.

De volta ao Brasil, estava servindo na 6ª Companhia de Polícia do Exército de Porto alegre quando o Golpe de 64 abalou o Brasil. Tenente do Rio Grande do Sul, Lamarca apoiou o então governador Leonel Brizola em um ato reacionário contra a tomada de poder pelos militares. Mais tarde, deixou um capitão, também apoiador de Brizola, fugir.

Carlos Lamarca em cartaz / Crédito: Wikimedia Commons

 

Apesar de não apoiar o regime militar, Carlos permaneceu nas Forças Armadas e foi promovido a capitão, em 1967. Neste momento, graças a um colega, Lamarca teve seu primeiro contato com obras dos revolucionários comunistas Vladimir Lenin e Mao Zedong, a partir daí passou a organizar e manter contato com líderes de resistência da luta armada — sua vida tomaria um rumo inesperado na guerrilha.


3. Vanguarda Popular Revolucionária

Um ano depois, em 1968, o Capitão Lamarca estava mais certo do que nunca que a ditadura deveria ser derrubada e que um governo socialista precisava ser implantado no país. “Disposto a desertar para se juntar à guerrilha, Lamarca costurava o pulo havia meses”, explica Elio Gaspari, autor de A Ditadura Escancarada (2014).

Lamarca trainando uma guerrilheira / Crédito: Wikimedia Commons

 

Por meses, Carlos pegava armamento do exército para repassar à luta armada. O estopim foi a instauração do AI-5, que permitia por lei a violação de direitos humanos, porém, para conseguir desertar do exército, o Capitão primeiro precisava assegurar um esconderijo para sua família.

Para isso, encontrou-se com outro líder guerrilheiro: Carlos Marighella. O revolucionário conseguiu enviar a esposa e os filhos de Lamarca para Cuba. Com isso feito, o oficial mudou do exército para a VPR, Vanguarda Popular Revolucionária, antes do esperado, em 24 de janeiro de 1969; na clandestinidade, o lendário Capitão Vermelho viveria até a sua morte.


4. Clandestinidade e cartas raras

Vivendo em bases temporárias em São Paulo, sua rotina era “acordar, comer, fumar, beber café, estudar, ler livros sobre Marxismo para aumentar seu conhecimento teórico e dormir”. Ainda no início de sua vida na guerrilha urbana, conheceu Iara Iavelberg, do MR-8, Movimento Revolucionário 8 de Outubro — a militante foi sua amante e parceira pelo resto da vida.

Em 1969, descreveu o movimento de resistência como “os primeiros passos do que será uma longa e dolorosa guerra”. E estava certo. No fim daquele ano, sofreu com a morte de Marighella e foi atingido pelo perigo que o cercava, por isso, passou a fugir e habitar diferentes lugares do Brasil.

Cartaz de procurados durante a ditadura / Crédito: Wikimedia Commons

 

Em uma carta para a esposa, enquanto vivia na clandestinidade, confessou: “Invejo vocês que aí estão mas meu lugar é aqui. Falam no meu nome com extraordinária esperança. O nosso povo já foi traído por seus falsos líderes e, embora eu não tenha esta pretensão, sou uma esperança para o povo. A nossa Organização transformará esta esperança em realidade e não eu. O Che dizia ‘Não há libertadores, os povos libertam-se por si mesmos’. A organização, como vanguarda desse povo, vai fazer com que o povo se liberte, custe o que custar”.


5. Morte

Após cerca de 3 anos da fuga do quartel de Quitaúna e uma sequência de assaltos a bancos, lutas armadas e treinamento de jovens guerrilheiros, em 1970, o governo ditatorial travou uma caçada ao Capitão, o objetivo era um só: seu assassinato a qualquer custo.

Intitulada Operação Pajuçara, o exército buscava incansavelmente Lamarca que, por vezes sorte, outras, inteligência, conseguiu se manter vivo — por um tempo. Integrando o MR-8, em 1971, Carlos foi enviado para o sertão da Bahia em uma nova unidade de guerrilha.

Carlos Lamarca morto / Crédito: Arquivo Nacional

 

Visto como traidor, a sua morte era fortemente desejada pelos militares que, por 40 dias, procuraram o militar amotinado. A caça gerou episódios brutais, como a prisão e morte de outros guerrilheiros apoiadores do Capitão e a ocupação da cidade de Buritis, com tortura e assassinatos públicos para atrair a atenção do fugitivo.

No entanto, a perseguição foi intensificada após a morte de José Campos Barreto; Carlos Lamarca, junto de Zequinha adentraram a caatinga em uma fuga atroz por mais 20 dias. Até que, em 17 de setembro de 1971, o líder da guerrilha já doente, com 1,73 m de altura, pesava apenas 60 kg, parou para descansar, pois, acreditava que tinha certa vantagem.

Pouco tempo depois, a dupla, que dormia em uma área remota, foi acordada por barulhos estranhos; eram os oficiais. Enquanto Zequinha tentou correr e foi fuzilado, o Capitão Vermelho nem ao menos se levantou, foi morto com 7 tiros enquanto descansava à sombra de uma árvore.


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