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Duas versões e lenda medieval: 6 fatos sobre a obra 'A Virgem das Rochas'

Em meados do século 17, Leonardo Da Vinci criou uma segunda versão da tela, mas com algumas diferenças; hoje, ambas estão expostas na Galeria Nacional de Londres e no Museu do Louvre

Redação Publicado em 25/07/2021, às 08h00

Imagens das duas versões da obra 'A Virgem das Rochas'
Imagens das duas versões da obra 'A Virgem das Rochas' - Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

O maior gênio da Renascença podia ter muitas qualidades, mas produtividade não era uma delas. Leonardo Da Vincifrequentemente deixava trabalhos pela metade ou simplesmente desistia. Apenas 15 obras são atribuídas certamente a ele, e ainda assim algumas contam com a assinatura de colaboradores.

'A Virgem das Rochas' foi encomendada em 1483 pela Capela da Imaculada Concepção, em Milão. Além de Leonardo, foram também chamados os artistas locaisAmbroglio e Evangelista de Predis. Entre disputas e renegociações de pagamento e até a morte de um dos parceiros milaneses, o quadro só seria instalado na igreja 20 anos depois, em 1508.

A versão que foi para a capela é a que está em Londres, vendida pela igreja ao pintor escocês Gavin Hamiliton em 1785, e passando quase um século pulando de dono em dono até chegar à National Gallery em 1880.

A versão de Paris tem um passado misterioso. Acredita-se que Leonardo a tenha guardado, em meio às disputas, e vendido-a a um comprador desconhecido, que a revendeu até chegar à coleção real francesa em 1625.

Muito foi escrito sobre as diferenças entre os dois quadros — a própria autoria da versão de Londres foi posta em dúvida. O best-seller 'O Código Da Vinci', de Dan Brown, dizia que a primeira versão era considerada herética, trocando as figuras de Jesus por João Batista. Mas a heresia foi sua interpretação, pois não há dúvida entre os especialistas de quem é quem. Veja a seguir os dois quadros, suas diferenças e controvérsias históricas.

A versão da Galeria Nacional de Londres (à esq.) e do Louvre (à dir.) / Crédito: Domínio Público

 

1. Evolução técnica

O quadro no Louvre mostra a marca registrada de Da Vinci: o sfumato, o desenho sem bordas — como a fumaça, daí o nome. As cores e os contornos são mais intensos na versão de Londres. Mas talvez os quadros fossem mais parecidos no passado: o quadro na França foi transferido do painel de madeira para a tela no século 19.


2. O guardião

Uriel é o nome do anjo que teria escoltado João Batista em sua jornada, ainda que seja creditado como Gabriel no quadro do Louvre. Na versão que está na França, ele olha diretamente para o espectador. Esse é um dos truques renascentistas para fazer o quadro parecer real, uma janela para outro lugar, que acabaria saindo de moda.


3. Controvérsia

Em 2012, a geóloga Ann Pizzorusso publicou em estudo que Leonardo não teria feito o segundo quadro, mas sim seus assistentes. Ela apontou inconsistências na paisagem, como os dois lagos e as pedras. A visão era respaldada pelos curadores do Louvre. Após uma limpeza no quadro britânico, detalhes revelaram as pinceladas típicas do pintor.


4. Teologia

Detalhe da versão da obra exposta no Museu do Louvre / Crédito: Domínio Público

 

Na época em que os quadros foram feitos, um novo dogma havia sido introduzido: a Imaculada Concepção da Virgem Maria. Isto é, que ela também, e não só Jesus, teria sido concebida sem pecado. Em 1483, o papa Sisto IV ameaçou com excomunhão quem não aceitasse o dogma. Isso aparece na forma como a Virgem é literalmente central na tela: ela acolhe João Batista e abençoa Jesus, passando a ele o dom de não ter pecado.


5. Lenda medieval

A história não vem da Bíblia, mas de lendas medievais. Durante a fuga para o Egito, quando a família de Jesus teria se mudado para escapar da perseguição do rei Herodes, o jovem João Batista, primo e, quando adulto, anunciador de Jesus, também teria fugido, escoltado por um anjo. Na obra de Londres, ele ganhou um cajado e uma auréola.


6. Aro controverso

Jesus responde às preces de João Batista com um gesto de bênção papal. A falta de auréola dele no primeiro quadro revela uma história interessante. Na Idade Média, os quadros eram planos e as auréolas eram discos dourados atrás dos personagens, o que não funcionava em quadros realistas e com profundidade, e vários pintores as aboliram. O anel flutuante, visto na versão de Londres, foi a solução que Leonardo encontrou.


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