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E se os mongóis tivessem vencido os muçulmanos em Ain Jalut?

Embora pouco conhecido no Ocidente, o episódio é um dos mais decisivos combates militares da história

Texto Isabelle Somma Publicado em 02/11/2020, às 10h00

Imagem meramente ilustrativa de uma espada
Imagem meramente ilustrativa de uma espada - Imagem de Free-Photos por Pixabay

O embate foi travado nos arredores de Nazaré, na Palestina, em 3 de setembro de 1260: a batalha de Ain Jalut. De um lado, o exército de Qutuz, sultão muçulmano da dinastia dos mamelucos, ex-escravos de origem turca que tomaram o poder no Egito em 1250. De outro, os temidos guerreiros mongóis de Hulegu, neto de Gêngis Khan.

Naquele 25º dia do mês santo do ramadã do ano 658 do calendário islâmico, os guerreiros muçulmanos não só garantiram a sobrevivência da dinastia mameluca por mais 240 anos como, segundo Helmi Nasr, professor, asseguraram a manutenção do predomínio de sua fé no Norte da África e no Oriente Médio.

Foi o ponto de partida para a expansão das palavras de Maomé para a Ásia Central.
No século 13, as hostilidades contra os muçulmanos vinham de dois lados. A oeste desembarcavam os cristãos europeus, que já haviam empreendido sete cruzadas para conquistar Jerusalém.

A leste avançavam os mongóis, que haviam conquistado e, principalmente, pilhado boa parte da Ásia Central. Em 1258, os descendentes de Gêngis Khan empreenderam o ataque mais duro: Bagdá, a capital da dinastia árabe abássida (750-1258), foi conquistada.

Hulegu, líder mongol instalado na Pérsia, ordenou o assassinato de 80 mil moradores da cidade. A carnificina acirrou a tensão entre cristãos e muçulmanos. Apesar de budista, Hulegu defendia o cristianismo, pois era filho de uma nestoriana, uma dissidência do catolicismo que seguia os ensinamentos de Nestório, patriarca de Constantinopla.

Vários dos generais mongóis foram recrutados entre os cristãos turcos, que haviam sido aliados ou simpatizantes dos franj, como os cruzados eram conhecidos pelos muçulmanos. Depois de Bagdá, as tropas mongóis avançaram sobre Damasco, liderados por Kitbuga. O general, um turco nestoriano, entrou triunfante na cidade, onde poupou apenas os cristãos.

Ele ainda conquistou outra cidade muçulmana, Alepo, e voltou suas catapultas em direção ao Egito, então o último reduto seguro para os muçulmanos. Os mongóis ofereceram a chance da rendição, mas os mamelucos escolheram a guerra, mesmo sob o risco de terem o mesmo fim que a população de Bagdá.

Com o apelo extra de estarem lutando contra a extinção de sua religião, os mamelucos reuniram um impressionante exército de 120 mil guerreiros que surpreendeu e esmagou os 10 mil homens de Kitbuga, em Ain Jalut.

“Mas, se a reação tivesse atrasado ou não fosse dessa monta e o inverso tivesse ocorrido, provavelmente os mongóis chegariam às cidades santas de Meca e Jerusalém, onde destruiriam, respectivamente, a Caaba e o Domo da Rocha, símbolos sagrados do islamismo. Talvez colocassem abaixo até as pirâmides egípcias”, afirma Helmi. “O islamismo jamais teria chegado à Ásia Central, que hoje seria predominantemente budista ou cristã. Além disso, a Europa poderia sofrer uma nova e arrasadora incursão mongol".