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Em meio à Gripe Espanhola, Monteiro Lobato teve que assumir às pressas a redação de um jornal

Com o aumento de casos e mortes em decorrência da gripe, no ano de 1918, o famoso escritor comandou o Estadão por algumas semanas

Penélope Coelho Publicado em 02/06/2021, às 07h00

Fotografia de Monteiro Lobato, na década de 1920
Fotografia de Monteiro Lobato, na década de 1920 - Domínio Público/Editora Abril

Em março de 2020, o mundo parou com a notícia da pandemia do novo coronavírus, entre quarentenas e flexibilizações, a Covid-19 fez com que os trabalhadores de diversos ramos se adaptassem às condições de distanciamento social, a fim de tentar evitar a proliferação do vírus, que tristemente já fez 463 mil vítimas fatais no país (até o fechamento da reportagem).

As adaptações também vieram para as redações de jornalismo, que em sua maioria, aderiram ao trabalho remoto, ou home office. Contudo, essa não é a primeira vez que as redações ficam ‘paralisadas’ em decorrência de uma enfermidade.

Algo muito parecido aconteceu em 1918, com a vasta, mortal e também global Gripe Espanhola, que causou 50 milhões de mortes ao redor do mundo. Na época, o renomado jornal O Estado de São Paulo, já era referência de jornalismo e noticiava os primeiros casos no país, quando também teve sua equipe acometida pela doença.

Foi assim que um conhecido escritor brasileiro assumiu as rédeas do jornal e conduziu a publicação, em meio ao caos. Como revelou uma reportagem publicada pelo próprio Estadão.

Pessoas mortas nas ruas, em decorrência da Gripe Espanhola, em 1918, sendo observadas por policiais / Crédito: Divulgação/Biblioteca Nacional

 

Início de carreira

No início da década de 1910, José Bento Renato Monteiro Lobato, ou simplesmente, Monteiro Lobato, ainda não havia vivenciado o sucesso de sua obra ‘Sítio do Picapau Amarelo’, que só foi publicada inicialmente em 1921.

Na época, o escritor de Taubaté, que ficou conhecido por dar vida à boneca Emília e que hoje tem o nome envolvido em polêmicas em relação a seus livros, trabalhava como freelancer na redação do Estadão.

Com o aumento no número de casos, diversos integrantes da redação do jornal ficaram doentes.

"As notícias na sala de redação passaram a ser de um só tipo. 'Chegou telefonada de Louveira. Julio Mesquita caiu.' E logo depois: 'Sabem quem caiu? Julinho. E Chiquinho também'. Já ninguém dizia 'cair com gripe', ou 'adoecer', e sim, e só, 'cair'", escreveu Lobato sobre o ocorrido, em um artigo publicado décadas depois, em 1945.

No mesmo artigo, o escritor relembrou o sentimento de medo em relação ao vírus de 1918:

"Irrompera a gripe, que breve se tornou calamidade pública. A preocupação de todos era uma só - a gripe. O trabalho de todas as conversas era um só - a gripe. O trabalho de todos, um só - socorrer gripados. E toda gente ia caindo de cama. O número dos conhecidos mortos começava a assustar".

Enfermaria carioca de 1918 com infectados pela gripe / Crédito: Divulgação/Biblioteca Nacional

 

Assumindo o comando 

Com a situação alarmante e a possibilidade eminente de que o jornal não fosse publicado pela falta dos principais nomes da redação — já que a maioria havia contraído o vírus —, o então jovem escritor não viu outra solução a não ser assumir a redação.

De acordo com a reportagem, na época, Lobato se juntou ao jornalista Filinto Lopes para conseguir tocar a produção do periódico, a fim de que as informações sobre a gripe espanhola fossem difundidas para a população.

"Lembro-me da noite em que só encontrei Filinto Lopes. O jornal estava acéfalo e ameaçado de não sair no dia seguinte. Falta de quem o dirigisse. Lá na 'Vala Comum', isto é, na sala geral dos redatores, cozinheiros e repórteres, a brecha aberta pela gripe fora de 50% ou mais, e ali na sala do secretário o desfalque era integral", escreveu Monteiro no artigo de 1945.

Segundo revelado pelo Estadão, os dois assumiram a redação do jornal por duas semanas, mesmo com a maioria dos funcionários de cama, o periódico continuou sendo publicado como de costume, até que a situação dos outros jornalistas estivesse mais estabilizada.

Sabe-se que em decorrência da Gripe Espanhola, a vida da população brasileira demorou a ser normalizada novamente. Em outubro de 1918, o Serviço Sanitário Estadual de São Paulo decretou estado epidêmico.

O que levou ao fechamento de escolas e estabelecimentos com o objetivo de evitar mortes e o alastramento do vírus. O surto mudou a rotina da população da época, em uma situação semelhante a que o mundo vive atualmente como o novo coronavírus.