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Entenda como a província do Ceará se tornou a primeira a abolir a escravidão no Brasil

Foram os interesses econômicos que se uniram aos desejos dos abolicionistas

Diego Antonelli Publicado em 09/05/2021, às 09h00

Imagem meramente ilustrativa
Imagem meramente ilustrativa - Imagem de Rosalia Ricotta por Pixabay

A província do Ceará foi a primeira a abolir a escravidão no Brasil, episódio que se deu quatro anos antes da assinatura da Lei Áurea, em 25 de março de 1884. Interesses econômicos se uniram aos desejos dos abolicionistas e culminaram com o protagonismo e pioneirismo cearense.

Professor de História da Universidade Federal do Ceará, Sebastião de Barros da Ponte explica que uma grande seca atingiu o estado entre 1877 e 1879. “Essa seca afetou profundamente a economia cearense, especialmente a produção de algodão. Uma das formas encontradas pelos proprietários da época, para obter renda, era vender escravos para outras províncias”, conta ele.

Diante da Lei Eusébio de Queiroz, que proibia o tráfico de escravos da África, passou-se a vigorar um tráfico interprovincial, com a venda de escravos do Norte e do Nordeste do país para o Sudeste, onde a cultura cafeeira desenvolvia-se trazendo grandes lucros para senhores, comerciantes e traficantes.

“Manter os escravos nas propriedades passou a ser oneroso para a economia cearense”, ressalta Ponte. O professor ainda explica que houve uma greve dos jangadeiros, em 1881, encabeçada por Francisco José do Nascimento, conhecido como Dragão do Mar, um grande abolicionista que convenceu os demais jangadeiros a não transportar os escravos para os navios negreiros – lembrando que, naquela época, não havia porto e era por meio das jangadas que os escravos eram levados até os navios ancorados em alto-mar e, posteriormente, para as outras províncias.

Sem a jangada, então, não havia como realizar os deslocamentos.

“Isso quebrou o ciclo de venda dos escravos e fortaleceu os movimentos abolicionistas que, inclusive, tiveram apoio dos interesses econômicos, já que os senhores não queriam mais gastar recursos mantendo escravos em seus territórios. E, assim, a abolição no Ceará foi realizada”, explica o professor, sem deixar de ressaltar o triste viés: “mas sem nenhuma política de inclusão para essa população”.