Curiosidades » Afeganistão

Fuga, caos em aeroporto, ligação ao vivo e ataques: 11 momentos que marcaram a volta do Talibã ao Afeganistão

O país foi tomado por episódios fervorosos após a volta do grupo radical depois de 20 anos

Redação Publicado em 21/08/2021, às 00h00 - Atualizado às 11h08

Foto de 2010 mostram
Foto de 2010 mostram - Divulgação/Vídeo

Após 20 anos longe, o grupo extremista Talibã voltou a controlar o poder diante da retirada das tropas norte-americanas do país. Através de um ‘acordo de paz’ iniciado durante a gestão de Donald Trump, Joe Biden, o atual presidente dos EUA, seguiu com o que era almejado.

“As tecnologias em armas sempre foram provenientes dos EUA, desde meados dos anos 1980 durante o combate à URSS, então eles já tinham sistemas suficientes, RPGs para derrubada de helicópteros, equipando o grupo. O Talibã nunca deixou de existir, investindo nas táticas, usando técnicas de guerrilha — que envolvem movimentações rápidas, recuos e desaparecimentos estratégicos e até convencimento e aproximação de culturas locais para ganhar apoio de civis. E eles têm dinheiro, grana proveniente do tráfico de ópio e mineração, tanto de metais preciosos quanto de utilidade eletrônica”, explica Alcides Eduardo dos Reis Peron, professor do curso de Relações Internacionais da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP) e pesquisador de pós Doutorado no Departamento de Sociologia da USP.

Assim, a preocupação mundial foi voltada para o país, que pode enfrentar novamente uma onda de repressão não só ideológica, mas também física. Afinal, o grupo é conhecido por usar a violência ao impor regras arcaicas.

"O Talibã é reflexivo; pensou ao longo do tempo e está tentando ganhar legitimidade internacional a partir do momento em que instaurar um governo em Cabul, ainda que não obedeça regras de instituições internacionais. O ponto é que, nesse processo de escalada, é natural que eles assumam um conjunto de narrativas mais abertas e sofisticadas em relação ao Talibã dos anos 1980 e 1990 e, portanto, eles irão afirmar que não vão cometer violências”, diz o professor.

Embora tenha afirmado que não quer ‘confusão’ e que mulheres serão ‘respeitadas’, especialistas não acreditam muito na mudança do grupo radical que deixou o Afeganistão há 20 anos.

“Eles colocaram uma nota de rodapé, que poucos deram atenção, afirmando que irão respeitar as mulheres e tudo, mas irão exigir o reconhecimento internacional dos dogmas internos do grupo. Pode ser que exista certas liberdades em termos de vestimentas ou fatores que não fere seu conjunto doutrinário, mas não acredito que a mulher se tornará um elemento de protagonismo”.

Diante do cenário de caos que tomou o país na última semana, o site Aventuras na História separou os principais episódios que marcaram a nação neste momento de incerteza.

1. Fuga do presidente e comemoração

Com a fuga de Ashraf Ghani, presidente do Afeganistão, no dia 15 de agosto, o grupo assumiu oficialmente o palácio presidencial, localizado em Cabul.

"O Talibã venceu... E agora é responsável pela honra, propriedade e autopreservação de seus compatriotas", disse o presidente em comunicado divulgado no Facebook."Agora eles enfrentam um novo teste histórico. Ou preservam o nome e a honra do Afeganistão ou dão prioridade a outros lugares e redes".

Após o episódio, um vídeo mostrou o grupo celebrando a conquista. Na gravação, que fora divulgada pelo portal de notícias Al Jazeera, membros do Talibã armados passeiam pelos corredores, tiram fotos uns dos outros e também aparecem sentados na cadeira do presidente.

2. Caos no aeroporto de Cabul

Após a tomada do palácio presidencial em Cabul, os afegãos foram tomados pelo desespero, com muitos tentando fugir do país. Um dos locais que registram essa fuga foi aeroporto local.

Na manhã do dia 16 de agosto, gravações revelaram pessoas tentando fugir desesperadamente enquanto se amontoavam no aeroporto. O tumulto resultou não só no cancelamento de voos, mas também em mortes.

"Temos medo de viver nesta cidade e estamos tentando fugir de Cabul (...) Como servi no exército, perdi meu trabalho e é perigoso viver aqui porque os talibãs vão me atacar, isso é certo", explicou Ahmad Sekib (pseudônimo), de 25 anos, à AFP.

Uma foto divulgada pelo Defense One mostrou 640 pessoas que tentavam fugir a bordo do avião C-17 Globemaster, um dos números mais alto já registrado para o modelo.

3. Biden não se arrepende

Após inúmeras críticas pela decisão de retirar as tropas, o presidente dos EUA, Joe Biden, não demonstrou arrependimento pela decisão. Em um comunicado divulgado através da Casa Branca no dia 16 de agosto, o político falou sobre o cenário do Afeganistão.

"Eu mantenho com firmeza minha posição", disse o presidente. Em seguida, ele também enfatizou a decisão. "Os EUA não podem participar e morrer em uma guerra em que nem o próprio Afeganistão está disposto a lutar”.

4. O avião como fuga

Ainda sobre o caos do aeroporto, um vídeo que viralizou nas redes sociais mostravam pessoas tentando pegar carona na área externa de uma aeronave.

A gravação, não muito clara, mostra que pelo menos uma pessoa despenca do avião após a decolagem. Na última quinta-feira, 19, o Ariana News divulgou que uma das vítimas é Zaki Anwari,  rapaz de 19 anos que fazia parte da seleção nacional afegã.

A morte do jovem foi confirmada pela Diretoria Geral de Educação Física e Esportes do Afeganistão.

Fotografia de Zaki /Crédito: Divulgação

 

5. O comunicado

Em meio às incertezas e medo do retrocesso que a volta do grupo representa aos direitos conquistados por mulheres nos últimos anos, um porta-voz do Talibã se manifestou no dia 17 de agosto.

"Vamos permitir que as mulheres trabalhem e estudem dentro de nossas estruturas. As mulheres serão muito ativas em nossa sociedade, dentro de nossa estrutura”, afirmou Zabihullah Mujahid, o representante do Talibã.

Membros do talibã no palácio presidencial de Cabul /Crédito: Divulgação/Vídeo

 

"Não queremos ver o caos em Cabul (...) Mas infelizmente, o governo anterior era tão incompetente que suas forças de segurança não podiam fazer nada para garantir a segurança. Tivemos que entrar em Cabul para garantir a segurança dos moradores", completou Mujahid. 

6. A ligação ao vivo

Durante a exibição de um telejornal, Yalda Hakim chamou atenção ao redor do mundo. Isso porque a jornalista da BBC, nascida no Afeganistão e residente da Austrália, recebeu uma ligação de um porta-voz do grupo. O episódio, ocorrido no domingo, 15, viralizou nas redes sociais dias depois.

"Não queremos confusão. Garantimos ao povo do Afeganistão na cidade de Cabul que suas propriedades e suas vidas estão seguras", disse o porta-voz à apresentadora. "Nossa liderança instruiu nossas forças a permanecer no portão de Cabul, não a entrar na cidade. Estamos aguardando uma transferência pacífica de poder".

7. UNESCO faz apelo

Diante dos episódios, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) lançou uma nota para a comunidade internacional, clamando pela preservação do patrimônio histórico do país.

A Diretora-Geral da UNESCO, Audrey Azoulay “clama pela preservação do patrimônio cultural do Afeganistão em sua diversidade, em total respeito ao direito internacional, e por tomar todas as precauções necessárias para poupar e proteger o patrimônio cultural de danos e saques”.

8. Talibã reprime protesto

Na quarta-feira, 18, combatentes do grupo dispararam tiros contra a multidão e bateram nos manifestantes.

A confusão ganhou vida quando o Talibã retirou a bandeira do Afeganistão de um monumento no centro da cidade e colocou a sua própria. Como consequência, duas pessoas faleceram e pelo menos 12 ficaram feridas, conforme noticiado pelo portal de notícias Al Jazeera.

Divulgação/Youtube

 

O ataque também gerou indignação por contradizer o discurso anterior do Talibã, que afirmava não querer confusão.

9. Sem democracia

Após reprimir os protestos, o grupo jogou um balde de água fria nos afegãos na última quinta-feira, 19.

“Não haverá nada como um sistema democrático porque isso não tem nenhuma base no nosso país, nós não vamos discutir qual será o tipo de sistema político que vamos aplicar no Afeganistão porque isso é claro: a lei é sharia, e é isso”, Waheedullah Hashimi, um dos principais comandantes do Talibã.

Ele declarou que afegãos terão a liderança de um conselho que deverá comandar o território com base na lei islâmica.

10. Emirado Islâmico do Afeganistão

Diante da tomada de poder, o grupo radical alterou o nome do país na noite da última quinta-feira, 19. Como consequência, o grupo adotou o nome de Emirado Islâmico do Afeganistão.

"Declaração do Emirado Islâmico do Afeganistão por ocasião do 102º aniversário da independência do país do domínio britânico", escreveu Zabihullah Mujahid, porta-voz do grupo, em rede social.

11. Talibã ataca 

Na última sexta-feira, 19, o Deutsche Welle (DW), que é o canal público de televisão da Alemanha, declarou que o grupo extremista executou a tiros o familiar de um jornalista que trabalhava para a emissora no Afeganistão.

"O assassinato de um parente de um de nossos editores pelos talibãs ontem [quinta-feira] é incrivelmente trágico e ilustra o grave perigo em que se encontram todos os nossos funcionários e suas famílias no Afeganistão", explicou o diretor geral da DW, Peter Limbourg, através de comunicado.

É revelado que o grupo perseguia não só o profissional em questão, mas também outros jornalistas do veículo.