Pode um gato ser um telefone? Cientistas responderam a essa pergunta

Em 1929, pesquisadores dos EUA tentaram descobrir se era possível passar mensagens telefônicas pelos nervos de um animal. Tiveram sua resposta, ao custo de muita crueldade

sexta 13 abril, 2018
Esta não é uma história meiga
Esta não é uma história meiga Foto:Shutterstock

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O que um gato tem a ver com um cabo de par trançado? Ambos podem transmitir ligações telefônicas.

Sabemos porque alguém testou para descobrir. E não qualquer alguém: o autor da ideia foi o professor da Universidade de Princeton, Ernest Glen Wever, que ainda viria a ser o chefe do departamento de psicologia da prestigiada instituição.

Apesar de oficialmente psicólogo, Wever era o que hoje chamaríamos de neurocientista, termo que ainda não existia. Foi um dos pioneiros nesse campo. Em 1929, ele e seu assistente Charles William Bray conseguiram transmitir uma chamada telefônica através do nervo auditivo de um gato.

Reprodução

E quem tem pouca tolerância para ouvir sobre crueldade com animais pode parar por aqui. O caso é que o gato estava vivo.

O experimento

Para dar acesso a seu nervo, foi sedado, teve seu crânio aberto e parte do cérebro removida. Wever então ligou um cabo telefônico ao fim do nervo, que ia até uma sala isolada, onde estava Bray. E falou na orelha do pobre animal.

O assistente recebeu uma mensagem clara, como se fosse um cabo normal. O gatofone era um sucesso – provando que qualquer mamífero, até você, também pode ser um cabo telefônico.

Mas esse não era o ponto deles. Era um experimento neurológico, e o que queriam testar era uma teoria de que os nervos transmitem seus impulsos em frequência maior quando o estímulo é maior. Estímulo, no caso, a amplitude, o volume do som. Wever então falou baixinho e gritou, depois falou fino e falou grosso. Provou que não era como se imaginava. A frequência e a amplitude eram proporcionais.

Também experimentou mudar a posição do cabo para outra parte do cérebro, para verificar se não estava simplesmente conduzindo eletricidade pelos tecidos vivos. Não funcionou. Cortou o suprimento de sangue para o nervo temporariamente. Também nada.

Quando tanto abuso levou ao inevitável e o gato terminou por perecer, nunca mais deu resultado.

Para além de qualquer dúvida, o tímpano pode funcionar como um bocal telefônico; e o nervo, como cabo. Bray e seu assistente foram premiados com a medalha da Sociedade de Psicólogos Experimentais em 1936. Wever passaria o resto de sua vida estudando a audição, cessando suas atrocidades contra felinos. Bray trabalharia com a Marinha dos EUA na Segunda Guerra, desenvolvendo o sonar.

Ambos nunca viram qualquer utilidade prática em seu experimento. Mas tem. E, nisso, chegamos a um final, na medida do possível, feliz: o gatofone daria origem aos mais modernos aparelhos auditivos, que são ligados direto ao nervo, intracranialmente.

Fabio Marton

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