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Bruxo ou santo: São Cipriano, existiu de verdade?

A figura do santo recebe certo crédito dos cristãos, deixando o status de lendária, para ilustrar um tema caro à igreja: o feiticeiro que vende a sua alma ao diabo, mas se converte a Cristo

M. R. Terci Publicado em 28/03/2020, às 13h00

Ilustração fantasiosa de São Cipriano
Ilustração fantasiosa de São Cipriano - Divulgação

Um dos nomes mais enigmáticos e polêmicos na lista dos santos da longa tradição cristã é o de São Cipriano. Se para uns tantos o nome remete ao misterioso Livro de São Cipriano – um grimório repleto de rituais e encantamentos mágicos escrito pelo mago antes da sua conversão ao cristianismo –, para outros mais o Mago Cipriano nunca existiu e suas histórias nasceram da confusão com um homônimo cristão. 

Venham comigo, pelos caminhos mais escuros da história, vasculhar os antigos compêndios da biblioteca de Cartago e cruzar referências com o Martirológio Romano, à caça de um nome, uma lenda ou uma bruxaria qualquer que traga luz à insondável treva do passado. 

Capa Preta, Capa de Aço, Capa de Couro ou Tesouro do Feiticeiro, qualquer que seja a nomenclatura, você já deve ter visto o Livro de São Cipriano à venda no catálogo de alguma editora do gênero. Profano e insondável, tido por alguns como um livro de encantamentos perigosos e sedutores, repleto de feitiços práticos ou complexos rituais de magia negra.  

Uma obra tão séria e efetiva que se tornou objeto de desejo de colecionadores, de iniciados das ciências proibidas e de disputa entre vários segmentos das religiões de matiz africana. 

Não é bem assim. Na verdade, não é nada assim e de modo algum tão nefasto ou sinistro quanto algumas editoras prezam sugerir para influenciar suas vendas. 

Em muitas dessas edições o leitor é supostamente conduzido a uma viagem ancestral que, dependendo de seu empenho, lhe possibilitará conjurar espíritos, anjos, demônios e outros seres mitológicos. Na ausência dos escrúpulos do organizador editorial, as versões do tal livro podem contar, ainda, com feitiços para amor, simpatias para enriquecer, cultivar um golem no esterco de um cavalo, causar contratempos ou mesmo matar seus inimigos, além de possibilitar a ao neófito proscrito acesso ao tal pacto demoníaco. 

Um amontoado de bobagens e desperdício de papel.  

Capa da edição mais antiga do livro de São Cipriano / Crédito: Biblioteca Nacional de Lisboa

 

Na melhor das possibilidades, só mais uma versão impressa de manuscritos e de histórias da tradição oral que foram sendo registradas aos poucos, seguindo a fórmula europeia dos fantasiosos grimórios e supostos livros de magia que começam a aparecer no século 12 e que continuaram a ser copilados em manuscritos – cada qual mais exagerado e garranchento que o outro – até o 17, mesmo depois da invenção da prensa.  

Nada mais que folclore.  

Segundo uma das muitas lendas a respeito de Cipriano, algumas das quais avolumam parágrafos e mais parágrafos nas publicações nacionais, ele teria sido um dos bruxos mais célebres de todos os tempos. 

Um temido e respeitado adepto do ocultismo na Antioquia, conhecido por não depender de interlocutores quando o assunto era um tête-à-tête com o próprio Satanás.  

Em uma de suas muitas aventuras e andanças pelos salões dos infernos, certa vez, o Mago Cipriano foi dramaticamente procurado por um tal Agládio. O sujeito havia se apaixonado por Justina, cristã, que recusava seu pedido de casamento por ter consagrado seu amor a Deus, com voto de castidade. Agládio pediu a Cipriano um feitiço que fizesse com que Justina se apaixonasse por ele. A partir de então, o grande mago realizou muitas bruxarias, mas nenhuma que efetivamente dobrasse a vontade da casta Justina.  

Frustrado, Cipriano admoestou o próprio diabo sobre o que fazer com uma pessoa imune a feitiços. Satanás assim lhe respondeu: 

“Quem a protege é Cristo. Contra Ele não posso nada.” 

Surpreso, Cipriano teria replicado ao Cão: 

“Se Deus é mais poderoso que tu, prefiro então servir a Ele.” 

Assim, procurou o bispo Antímio e, conforme consta do relato popular, pediu que lhe instruísse na fé cristã. Cipriano então dedicou-se ao estudo das Santas Escrituras, renegando todo conhecimento perverso de magia negra que tinha adquirido anteriormente. Nada mais rocambolesco. 

Na Idade Média, essa lenda, muito estimada pelos religiosos, foi corroborada pela introdução de São Cipriano e Santa Justina no calendário litúrgico. O Livro poderoso de São Cipriano tem seu núcleo já no século IV, quando se difundiam as preces de Cipriano, utilizadas quase como fórmulas mágicas. 

A figura de São Cipriano, assim, recebe certo crédito dos cristãos, deixando o status de lendária, para ilustrar um tema caro à igreja: o feiticeiro que vende a sua alma ao diabo, mas se converte a Cristo. 

Após sua morte, o dito Cipriano gozou de grande fama e estima, pois foi um mártir heroico, que marcou pontos para a Igreja do seu tempo. A data de 26 de setembro é citada pelo Martirológio Romano – Catálogo de Mártires da Igreja – como a festa dos mártires São Cipriano e Santa Justina. A história dessas figuras é narrada em grego, latim, sírio, árabe, etíope, copta e pálio-slavo – o que bem demonstra o quanto a lenda era valorizada. Essas várias versões não coincidem sempre entre si; ao contrário, divergem imensamente, cada qual com seus exageros. 

São Cipriano / Crédito: Wikimedia Commons

 

A dita Conversão de São Cipriano tem ainda na literatura cristã dois complementos grotescos. O primeiro, intitulado A Confissão de Cipriano é uma aplicação infeliz do termo Conversão em uma narrativa insólita onde seu autor acumula algumas histórias das artes mágicas – à quais Cipriano renegou.  

Em muitas dessas passagens, caí no ridículo, quando menciona, por exemplo, que Agládio tomou a forma de pássaro e pousou em um telhado a fim de espreitar Justina; todavia, logo que conseguiu ver a moça, perdeu a qualidade de pássaro – adquirira por feitiçaria – e retomou a sua condição de homem. Daí, o pobre experimentou enormes dificuldades para descer do telhado. 

No segundo complemento, chamado A Paixão de Cipriano, o autor recorre a outra linha de narrativa. Menciona que Cipriano e Justina, cristãos, foram presos por ordem do Conde Eutólmio e levados para Damasco. Durante o interrogatório, Cipriano foi torturado com garras de ferro, enquanto Justina era chicoteada ferozmente. Ambos foram mergulhados em óleo fervente e depois decapitados. Seus corpos foram mantidos expostos para que as feras e abutres os devorassem. Seis dias depois, seus cadáveres ainda estavam intactos e, por ocasião de terem sido encontrados por peregrinos cristãos, foram levados para Roma, onde lhes foi concedida honrosa sepultura. 

Contudo, tudo não passa de invencionice. Nas listas onde figuram os nomes do Bispos de Antioquia nunca houve nenhum Antímio, muito menos qualquer referência ao nome Cipriano.  E mais, o culto dos mártires sempre esteve ligado aos túmulos respectivos. A arqueologia moderna não reconhece a existência de um sepulcro sequer ligado ao nome Cipriano e em Roma não se conhece tal túmulo. Na Idade Média, por outro lado, houve relatos de cristãos que julgavam ter encontrado relíquias, supostamente, ligadas à Justina e Cipriano, daí a introdução dos dois mártires na Liturgia de Roma.   

No caso específico de Cipriano, a confusão é ainda maior. Os livros editados no Brasil sobre o bruxo se contradizem ao mencionarem passagens de dois Ciprianos, em épocas diferentes: um na Antioquia outro em Cartago. Conforme aduzido, não há muitas evidências que Cipriano de Antioquia realmente tenha existido.  

Por outro lado, os registros históricos conhecem um Cipriano que foi bispo em Cartago, no Norte da África, entre os anos 249 e 258. Considerado um dos doutores da Igreja, um grande orador e um dos pais do cristianismo que deixou numerosos escritos teológicos, editados até os dias de hoje, que nada tem a ver com magia ou ocultismo.  

Por mais improvável que tenha sido a existência de um feiticeiro chamado Cipriano, persiste um fato, não mágico, mas inexplicável: seu livro reluta em desaparecer das listas associadas a obras ao gênero e segue a mesma linha de outros grimórios, como a Clavícula de Salomão, o Grand Grimoire e o Grimorium Verum.  

Um compilado de soluções mágicas para tudo o que preocupava a mente dos homens que viveram durante a transição do feudalismo para o capitalismo: como ficar rico encontrando tesouros, como fazer qualquer mulher se apaixonar, como se curar de doenças. 

A edição mais antiga em português de que se tem notícia está na Biblioteca Nacional de Lisboa, publicada por volta de 1800, pela Editora Economica.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.


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