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Em 1901, duas mulheres enganaram um padre. E se casaram na Igreja Católica!

O episódio, ocorrido na Espanha, tomou graves proporções e se tornou o único casamento lésbico realizado na Igreja

Thiago Lincolins Publicado em 08/06/2019, às 08h00

Marcela Gracia Ibeas e Elisa Sánchez Loriga
Marcela Gracia Ibeas e Elisa Sánchez Loriga - Wikimedia Commons

Era 8 de junho de 1901 quando Mario Sanchez e Marcela Gracia, grávida de dois meses, subiram ao altar da Igreja Paroquial de São Jorge, em Corunha, na Espanha. Havia poucos parentes no local, e Víctor Cortiella, o padre da paróquia, realizou uma cerimônia curta. Os votos foram validados. Todavia, o padre não imaginava que, naquele momento, tinha realizado um dos primeiros casamentos entre pessoas do mesmo sexo na história da Igreja Católica da Espanha.

Mario Sanchez era, na verdade, Elisa Sanchez. A mulher assumiu a identidade do primo, morto num naufrágio. O motivo? Uma paixão desenfreada por Marcela Garcia, que começou muito antes do episódio insólito. As duas se conheceram quando estudavam na Escola de Formação de Professores em Coruna – era uma escola para formar futuros educadores de ensino fundamental.

Contudo, perceberam que o sentimento era maior que uma simples amizade. Quando os pais de Garcia perceberam a relação entre as duas, e temeram uma possível polêmica, a enviaram para Madri. A tentativa foi em vão.

Marcela e Elisa/ Crédito: Wikimedia Commons

Elisa e Marcela terminaram os estudos e se reencontraram. Tiveram que lidar com a fúria dos pais de Garcia e decidiram morar juntas em Calo, onde Sanchez trabalhava como professora. Cansadas de ter que esconder o relacionamento de todos, tiveram a ideia do casamento. Esta envolveria um plano bem arquitetado.

Elisa montou um personagem: cortou o cabelo, comprou roupas masculinas, engrossou a voz e assumiu a identidade do primo. Com a aparência masculina, inventou todo um passado. Em 26 de maio de 1901, a primeira parte do plano foi colocada em prática. Elisa, já vestida como Mario, foi até o local onde seria realizada a união matrimonial e conversou com Cortiella.

Plano quase infalível 

Para conseguirem se casar, Sanchez precisaria ser reconhecida de fato como um homem. Assim, o padre, sem suspeitar de nada, acreditou que "Mario" passou a infância em Londres e que o seu pai fora um ateu. O batismo foi realizado. Não se sabe quem era o pai do filho de Marcela, mas esse foi um fator que contribuiu para que o pároco acreditasse na mentira.

Duas semanas depois, o casamento seria realizado e o escândalo apareceria. Os vizinhos, indignados com o episódio, revelaram a farsa do casal à imprensa. Jornais como o Galego e o Madrileno, espalharam a história de Sanchez e Garcia para o mundo. O caso ficou conhecido como "o casamento sem homem."

Depois do casamento/ Crédito: Wikimedia Commons 

 

Como consequência, as duas perderam os respectivos empregos e receberam um mandado de prisão. Para piorar ainda mais a situação, Cortiella exigiu que Elisa e Marcela fossem excomungadas. Aterrorizadas e perseguidas, fugiram para Portugal. Lá, Marcela deu a luz a uma menina e Elisa mudou de nome novamente. No entanto, não puderam escapar das autoridades.

Em agosto de 1901, foram presas. O casal seria extraditado para a Espanha, porém um julgamento absolveu as duas. Livres, fugiram para a Argentina. Em Buenos Aires, mudaram de nome, encontraram empregos e construíram uma nova vida.

Em 1904, Elisa casou-se com Christian Jensen, um milionário dinamarquês. Marcela foi apresentada a Jensen como sua irmã. A mentira foi descoberta. De acordo com os últimos registros sobre a história de Sanchez e Garcia, a certidão de casamento nunca foi anulada.


Saiba mais

Children of the Days: A Calendar of Human History, Eduardo Galeano, 2013.