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Pátria amada, salve, salve! Como Getúlio Vargas enquadrou o samba

No dia do samba, saiba por que os desfiles de carnaval do Rio de Janeiro são tão nacionalistas

Antonio Neto Publicado em 25/02/2020, às 09h00

Getúlio Vargas
Getúlio Vargas - Wikimedia Commons

Hoje cada escola de samba escolhe o tema que bem quiser para desfilar na avenida – ou, verdade seja dita, o tema que melhor ajude a pagar seus custos. Mas, durante 60 anos, os enredos só podiam abordar assuntos nacionais.

A ideia partiu do presidente Getúlio Vargas. Ele queria construir uma identidade nacional para o Brasil, um país vindo do federalismo da República Velha, sem muito o que realmente unisse em tantas disparidades regionais. E uma das formas escolhidas para fazer isso foi o samba. O estilo musical da Bahia havia se implantado com sucesso no Rio de Janeiro e começava a ficar conhecido no restante do país por meio do rádio, que chegou aqui em 1922.

Em 1935, Vargas fez um acordo com as recém-criadas escolas de samba (que já desfilavam pelo centro do Rio de Janeiro, então capital federal, desde 1929). Em troca de verba pública, as agremiações retratariam temas nacionais (e construtivos). Três anos depois, isso virou regulamento oficial da União das Escolas de Samba, responsável pelo julgamento dos desfiles na época.

"No começo do século 20, os blocos e algumas escolas criavam seus sambinhas para satirizar os adversários", afirma o historiador Nelson Crecibeni Filho, presidente da Federação das Escolas de Samba e Entidades Carnavalescas do Estado de São Paulo. "Getúlio tomou essa medida em nome do nacionalismo, para aproveitar a presença crescente da classe média no Carnaval."

Desfile da Acadêmicos do Salgueiro, na Avenida Presidente Vargas, no Rio de Janeiro, em 1964 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Por quase três décadas, os enredos se dividiram entre a exaltação da República e de seus presidentes e passagens da história do Brasil Império - embora, nessa época, ninguém quisesse se fantasiar de escravo ou índio. Pouco antes da ditadura militar, algumas escolas chegaram a ensaiar novos passos.

Em 1957, no Rio, o Salgueiro fugiu da patriotada e desfilou Navio Negreiro, primeiro samba sobre um aspecto definitivamente negativo de nossa história - agora, mais profissionais, os foliões não ligaram de sambar vestidos a caráter. O título foi para a Portela, com um samba sobre a corte: Legados de D. João VI.

O reconhecimento desse outro lado da história do Brasil só viria em 1963, com a vitória do enredo "Chica da Silva", novamente com o Salgueiro. "Os compositores passaram a se preocupar mais com a veracidade da história para escrever a letra dos sambas", diz Crecibeni.

Durante a ditadura, até as agremiações endureceram e adotaram o tom oficialesco em seus sambas-enredo. "Para lembrar a criação dos Correios em 1969, a Mangueira saiu em 1971 com o enredo Modernos Bandeirantes", afirma Haroldo Costa, compositor, produtor musical e autor de 100 Anos de Carnaval no Rio de Janeiro. "Dois anos depois, a Beija-Flor tentou mostrar a preocupação dos militares com o ensino em ‘Educação para o Desenvolvimento’."

No começo dos anos 80, no clima de luta pelo fim da ditadura, as escolas passaram a variar mais seus temas, homenageando figuras culturais e falando sobre movimentos populares. A guinada culminaria em 1989, com a Imperatriz Leopoldinense, que exaltou os 100 anos de República com o enredo "Liberdade, Liberdade, Abre as Asas sobre Nós". A escola, que falou de história simplesmente porque quis, e não pela obrigatoriedade do regulamento, foi campeã do Carnaval carioca.


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