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De São Sebastião a Santa Luzia: Mártires que viraram santos

Alguns dos cristãos que morreram como mártires no cristianismo primitivo passaram a ser venerados pela Igreja Católica

Alexandre Carvalho Publicado em 09/09/2019, às 15h30

Santa Luzia
Santa Luzia - Reprodução

O que os romanos não previram foi que a perseguição aos cristãos se transformou em um tiro no pé. Os religiosos que perseveraram na sua crença em vez de aceitar a chantagem do governo – ou simplesmente fugir – acabaram se tornando os primeiros heróis da nova religião depois de Jesus.

As execuções por intolerância religiosa fizeram com que os cristãos passassem a registrar as circunstâncias daquelas mortes heroicas e divulgar para outros grupos espalhados pelo império. Criou-se assim uma epidemia de narrativas inspiradoras, que conquistavam mais adeptos para o cristianismo.

Listamos seis religiosos que se recusaram a renegar a fé e viraram os primeiros santos da Igreja Católica.

Inácio de Antioquia

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A comunidade cristã de Antioquia data dos tempos dos apóstolos e é reconhecida como um dos grandes centros do cristianismo primitivo – foi lá que, pela primeira vez, os então chamados nazarenos, vistos como uma seita derivada do judaísmo, foram enfim denominados cristãos. Religioso erudito, Inácio escreveu sete epístolas famosas, sendo pioneiro em tratar de conceitos que regem a Igreja até hoje, como a ideia da Santíssima Trindade e a virgindade de Maria.

Também foi o primeiro a usar a expressão Igreja Católica. Com tanto destaque assim, chamou atenção das autoridades romanas. Foi condenado à morte, devorado por leões no Coliseu. Comentando sua iminente execução, disse que seria “trigo de Cristo, moído nos dentes das feras”.

São Policarpo de Esmirna

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O martírio de Policarpo é reconhecido como o primeiro documento a registrar uma execução de um cristão por se manter fiel à sua religião no Império Romano – foi a primeira vez que o termo mártir foi usado para se referir aos seguidores de Jesus que davam testemunho contra si nas audiências de Roma, tendo a morte como consequência.

Considerado um dos registros mais importantes do segundo século d.C., a obra é evidência-chave para compreender como teve início uma mentalidade cristã sobre a importância dos relatos de martírio para o fortalecimento da cristandade.

Bispo de Esmirna, cidade do sudoeste da Turquia, Policarpo (69 – 155) é considerado um dos três principais Padres Apostólicos do cristianismo primitivo, ao lado de Inácio de Antioquia e do papa Clemente de Roma. Ao se recusar a prestar homenagem aos deuses pagãos, foi condenado à morte, queimado vivo numa estaca.

São Sebastião

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O santo padroeiro dos gays tem uma história que é emblemática do quanto os cristãos foram moldando os detalhes dos martírios para fabricar heróis inspiradores. Sebastião (256 – 286) teria sido um dos casos de romano convertido ao cristianismo, com um “agravante”: era guarda pessoal do imperador Diocleciano – justamente o mais terrível perseguidor de cristãos. Quando sua fé em Cristo foi descoberta, seu chefe condenou-o à morte: seria executado a flechadas.

Na época, Sebastião era um militar trintão, e as primeiras representações artísticas do santo, entre os séculos 6 e 11, mostram um homem maduro, barbudo e apropriadamente vestido. A partir do século 13, as pinturas foram rejuvenescendo a figura do mártir, criando a imagem que predomina até hoje: um jovem imberbe, musculoso, com o corpo cravado de flechas. O santo mais fotogênico da história da Igreja.

São Lourenço

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Nascido na Espanha, este religioso – morto na terceira onda de perseguição aos cristãos, quando Valeriano era imperador – ganhou fama de brincalhão, ironizando o próprio martírio em pleno ato da execução. Lourenço de Huesca (225 – 258) foi um diácono, clérigo que tinha a responsabilidade de cuidar dos bens da igreja e de distribuir esmola aos pobres. Após a execução do papa Sisto II, que foi decapitado pelas autoridades romanas, o imperador ordenou que a Igreja entregasse as suas riquezas num prazo de três dias.

 Desafiando a ordem, Lourenço levou ao imperador um grupo de miseráveis cujas vidas dependiam do amparo dos religiosos. “Estas são as riquezas da Igreja.” A frase rendeu-lhe a condenação à morte, um dos poucos episódios em que o humor se mistura à tragédia. Segundo a tradição cristã, Lourenço foi executado numa grelha gigante. E, em dado momento, virou-se aos carrascos, fanfarrão: “Este lado do corpo já está bem assado, podem me virar agora”.

São Dênis de Paris

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Nascido na Itália, Dênis (? – 250) foi outra vítima da perseguição de Valeriano, mas sua história é repleta da fantasia que a tradição cristã foi, aos poucos, adicionando à história dos mártires dos primeiros séculos – principalmente durante a Idade Média, quando as narrativas foram compiladas em registros cheios de uma criatividade dada ao sobrenatural. Missionário, enviado para falar de Jesus na antiga Gália (hoje França), Dênis se indispôs com os gauleses, que tinham suas próprias lendas e tradições.

Entregue às autoridades romanas, foi executado no alto de um monte que, por ser um dos locais preferidos dos romanos para massacrar cristãos na região, ficou conhecido como Colina do Mártir – ou Montmartre, o bairro boêmio parisiense dos dias de hoje. E é aí que a fantasia entra na hagiografia (história da vida de um santo) de São Dênis: ao ser decapitado, o clérigo não teria morrido na hora. Seu corpo recolheu sua cabeça do chão e saiu caminhando com ela nas mãos.

Santa Luzia

Crédito: Reprodução

 

Esta é mais uma narrativa que se baseia em supostos acontecimentos milagrosos para reforçar a ideia de que os mártires do cristianismo primitivo seriam super-heróis da Igreja – uma inspiração para atrair mais convertidos.

Nascida na Sicília, Luzia (283 – 304) vinha de uma família abastada, que mantinha em segredo a religião cristã para não ter problemas com as autoridades. Mas o segredo caiu por terra quando a jovem decidiu distribuir todos os seus bens aos pobres. Entregue ao imperador Diocleciano, a moça se recusou a renegar a fé cristã, e por isso teria passado por uma série de provações, entre ser forçada a trabalhar numa casa de prostituição (ela tinha feito voto de castidade) e ser queimada viva (segundo a lenda, as chamas não a atingiam).

Como nada tinha resultado, Diocleciano mandou que arrancassem os olhos da jovem. E aí teria acontecido mais um milagre: outros olhos surgiram nas cavidades orbitais da santa. O martírio só teve um fim quando Luzia foi decapitada.