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A impossível saga dos doutores da Peste Negra

Sem qualquer conhecimento científico, os médicos da Idade Média tiveram de se virar para enfrentar a pior epidemia da História

Carlo Cauti Publicado em 31/01/2020, às 10h00

Esta era a face da bondade
Esta era a face da bondade - Divulgação/Steno Museum

Lázaro não tem nada a ver com esse lugar. Mesmo se o nome evoca o homem que segundo a Bíblia foi ressuscitado milagrosamente por Jesus Cristo. A palavra "lazareto" – a estrutura pública que abrigava os contagiados pela peste bubônica – tem outra origem.

Ela derivaria de Nazarethum, nome pelo qual era vulgarmente conhecida a Ilha de Santa Maria de Nazaré. Lá, em 1423, a República de Veneza fundou o primeiro lazareto da História. O objetivo: afastar os doentes do convívio da população sadia e combater a peste.

Morte Negra

A peste chegou à Europa vinda da Ásia em 1347. A “Morte Negra” consumiu um terço da população europeia, levando governos a pensar em como proteger suas populações. Algumas cidades criaram estruturas para isolar os contagiados. Veneza, muito exposta às epidemias por causa de seu intenso tráfego comercial e atividades navais, foi a primeira a idealizar um lugar onde colocar os infectados que vinham de países onde a doença estava presente em 40 dias de isolamento total do mundo externo, a chamada “quarentena”.

Na época, era o tempo considerado necessário para purificar o corpo da enfermidade. “Precisamos imaginar os lazaretos mais como prisões do que como hospitais modernos. Quem entrava no lazareto não o fazia quase nunca por vontade própria, mas por ordem judicial, e só sairia se estivesse curado da doença ou morto por ela. E o segundo caso era muito mais frequente do que o primeiro”, afirma Sergio Zamperetti, historiador da Universidade Ca’ Foscari, de Veneza.

Antes das primeiras epidemias de peste, a República de Veneza já tinha criado estruturas para evitar que a população fosse atingida por doenças contagiosas. A primeira foi construída na Ilha dos Armênios, que desde o século 12 contava com um leprosário, para doentes de hanseníase.

As vítimas da doença / Crédito: Divulgação

 

Mas foi somente em 1423, após uma devastadora epidemia de peste, que o Senado veneziano criou o abrigo público para os contagiados, com médicos e enfermeiros pagos pela República. Além disso, capitães dos navios e marinheiros foram envolvidos nas políticas de prevenção, com a ordem de recolher qualquer notícia que pudesse levantar a suspeita de casos de peste a bordo.

Em caso positivo, as embarcações teriam que se manter em isolamento antes de desembarcar tripulação, passageiros e mercadorias. “No século 15, foi criado um rígido sistema de patrulha para se assegurar que ninguém fugisse ao controle dos ‘Três Sábios da Saúde’, a magistratura encarregada de salvaguardar a saúde pública”, diz Donatella Calabi, da Universidade Ca’ Foscari.

Tudo isso trazia custos elevados para os cofres públicos, mas os políticos preferiam gastar com prevenção e tornar o tráfego comercial mais lento a enfrentar a hecatombe econômica e demográfica provocada pela epidemia. 

Logo o modelo do lazareto foi replicado em outras ilhas da lagoa veneta. A morfologia favorável permitiu aos governantes venezianos ordenar a construção de uma rede de abrigos divididos entre casos suspeitos da doença, outro para doentes efetivos e um terceiro para as mercadorias, estocadas em um galpão separado para não juntá-las com produtos “sadios”.

De Veneza, o modelo hospitalar público dos lazaretos e as operações extensivas de prevenção difundiram-se rapidamente, sendo replicados em muitas cidades no Mediterrâneo e na Europa continental.

Fora dos muros

Durante os surtos, os lazaretos se enchiam rapidamente de doentes – que se tornavam cadáveres em poucos dias. Em muitos casos, as precárias condições higiênicas dos lazaretos favoreciam, e não evitavam, o contágio. Até os médicos acabavam afetados pela doença, contaminando a população sadia.

Foi justamente a necessidade de prevenir os contágios que fez com que os lazaretos fossem construídos fora das cidades. De preferência em lugares isolados e de difícil acesso. As ilhas perto dos portos foram as preferidas.

Os doutores da peste / Crédito: Wikimedia Commons

 

Os lazaretos oficiais de Veneza estavam localizados em duas ilhas. O Lazareto Velho, utilizado para pacientes com suspeita de peste, e o Lazareto Novo, onde ficavam as pessoas com evidentes sintomas da doença. Durante os momentos de pico das diversas epidemias que varreram a Europa, o governo de Veneza instalava na lagoa, longe das ilhas habitadas, navios-lazaretos, hospitais-guetos onde maior número de doentes podia ser internado. “E, além disso, o controle nos navios que chegavam na cidade se tornava muito mais rígido”, afirma Zamperetti. A presença de um pequeno edifício religioso, muitas vezes colocado no centro do terreno, é uma das constantes arquitetônicas dos lazaretos europeus. 

Esses templos eram construídos com uma planta central e abertos em todos os lados, permitindo dessa forma que mesmo os enfermos mais graves pudessem assistir as celebrações religiosas das janelas de seus quartos. 

Máquina sanitária 

Os lazaretos eram uma complexa máquina sanitária. Uma verdadeira indústria da prevenção e da cura das epidemias. Os doentes eram divididos entre casos suspeitos e confirmados. Esse era o primeiro e fundamental passo para reduzir a difusão das doenças. Como os hospitais de hoje, os lazaretos eram organizados em repartições e unidades, que de acordo com o lugar ou a época se chamavam “contumácias” ou “navios”.

Sua função era separar mercadorias e pessoas, mas também as mercadorias em diferentes estados de “expurgo”, ou seja, de desinfestação. O mesmo valia para as pessoas infectadas em diferentes estágios pela enfermidade.

“Mesmo não tendo uma completa compreensão das características da doença, em ocasião dos alarmes de contágio, as casas de possíveis doentes eram evacuadas. Eles eram deixados nus, lavados com vinagre, vestidos com roupas novas e enviados para a quarentena na ilha do Lazareto Novo. Se alguém realmente apresentava os sintomas da doença, passava para a ilha do Lazareto Velho”, diz a professora Calabi. 

Nos hospitais trabalhavam funcionários especializados, que operavam, na maior parte do tempo, em condições muito piores que a dos próprios pacientes. Os operários, que em Veneza se chamavam “bastazzi”, transportavam e manuseavam as mercadorias infectadas, tendo que dividir com elas a quarentena.

Os guardiões tinham a responsabilidade sobre unidades e repartições das diferentes mercadorias. Na liderança dessas pequenas cidades estavam os priores, que tinham que garantir que não houvesse contato entre os funcionários e as pessoas mantidas em quarentena, para garantir a operação. Todos os funcionários, e em particular os operários, trabalhavam em turnos.

O objetivo era evitar que pudessem se juntar a marinheiros ou comerciantes sem escrúpulos interessados em vender as mercadorias sem passar pela quarentena. As mercadorias tinham que ser tratadas mais ou menos como os pacientes antes de ser colocadas novamente à venda.

Entre outras coisas, eram fumigadas com ervas e colocadas ao ar livre. Mas, mesmo com toda essa precaução, muitas vezes o excesso de pessoas nos lazaretos e a escassa higiene tinham o efeito contrário e favoreciam a difusão do contágio. 

Por exemplo, o cadáver de uma vítima da peste tinha que ser imediatamente cremado, junto com todos os seus pertences, mas nem sempre isso ocorria. A madeira raramente chegava até lá. Nos lazaretos faltava tudo, até palha para as camas. Os objetos que pertenciam ao morto eram furtados pelos funcionários, que os vendiam na cidade, ajudando a aumentar o contágio. 

Mantendo as aparências

Em 1619, o médico pessoal do rei francês Luís XIII criou o vestuário para os médicos chamados para enfrentar as epidemias mais graves: uma túnica longa de tela preta, espessa como uma armadura, luvas até os cotovelos, sapatos fechados e um chapéu muito largo.

Como instrumento de trabalho, um cano longo para auscultar os pacientes. E, finalmente, o elemento mais característico, em uso havia algumas décadas: uma máscara branca com furos para os olhos cobertos por vidro e um longo bico curvo e vazio de 40 centímetros. 

Dentro do bico eram colocadas flores secas e ervas aromáticas (cânfora, alho e canela) para se defender dos miasmas, julgados portadores do contágio. Além disso, eram usadas esponjas com vinagre, considerado – erroneamente – capaz de desinfetar o ar respirado.

“Essas figuras sombrias eram de fato médicos naquela época. Mas a medicina medieval tinha pouco ou nada a ver com o método científico, sendo mais uma mistura entre magia e esoterismo. Os médicos realmente tentavam curar os doentes de peste, mas obviamente não tinham antibióticos ou outros instrumentos eficazes contra a doença”, diz Zamperetti.

Entre os “remédios” prescritos aos  enfermos dos lazaretos estava a tríaca (ou teríaca). A poção era a mistura de várias ervas do Oriente, consideradas ótimas para curar a peste. Eram adicionadas à carne de cobra, obrigatoriamente “fêmea, não grávida, capturada algumas semanas após o letargo invernal, decapitada, sem cauda e tripas, fervida em água de fonte salgada e aromatizada com endro, triturada, empastada com pão seco, amassada em pequenas boli-nhas da dimensão de uma noz e colocada para secar na sombra”, como descreve um tratado do período.

Óbvio que mesmo que se encontrasse uma cobra com essas condições, o remédio não funcionaria. Entre os outros ingredientes havia ópio, asfalto, mirra, canela, sulfato de ferro e goma arábica. Quem sobrevivia podia se considerar uma pessoa de sorte. 

Ou não. O destino era se tornar recolhedor dos corpos dos mortos pela doença. Quem tinha sobrevivido à enfermidade estava entre os poucos que podiam transportar os cadáveres sem ser contaminado. Uma profissão que se tornou muito bem remunerada nos tempos da Morte Negra.