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Gueules Cassées: As faces desfiguradas da Primeira Guerra

Tratados como leprosos, os mutilados franceses da Primeira Guerra ficaram desfigurados para o resto da vida e sofreram morte social

Santiago Farrel Publicado em 21/07/2019, às 05h00

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Crédito: Reprodução

Nunca na história da humanidade um conflito bélico havia causado tanto dano físico e psicológico como aconteceu na Primeira Guerra Mundial, que alcançou níveis de brutalidade inéditos, com combates corpo a corpo agressivos, emprego de armas químicas e artilharia devastadora. Ninguém, nem mesmo os estrategistas militares, previu isso.

Os manuais com os quais se formavam os oficiais falavam da guerra civilizada, que devia se limitar ao desmonte das forças armadas do inimigo, e não prolongados combates até que um dos grupos fosse exterminado. “Com bom sentido, essa prática se tornou um costume nos países da Europa”, dizia a Enciclopédia Britânica, em 1911.

No entanto, um pouco antes de começar o conflito, com a guerra de trincheiras e seus ataques suicidas sobre as posições inimigas, e a terrível capacidade de novos canhões causarem uma chuva de projéteis durante horas sobre o outro lado, a magnitude do número de feridos e a gravidade de suas lesões superaram todas as previsões dos médicos militares.

Gueules Cassées / Crédito: Reprodução/Domínio Público

 

A guerra estática do sistema de trincheiras fazia com que os soldados convivessem, noite e dia, com a fustigação contínua da artilharia, e que as partes mais vulneráveis do corpo fossem o tronco e a cabeça. Por mais proteção que houvesse na trincheira, qualquer fragmento ou tiro podia feri-los gravemente no rosto ou na cabeça. No caso francês, 14% dos feridos tiveram o rosto atingido e destes, entre 10 e 15% foram considerados rostos partidos.

Em seu livro “Os caras quebradas: os feridos na face da Grande Guerra”, a pesquisadora Sophie Delaporte estima que o número aproximado desse tipo de ferido na França depois da Primeira Guerra foi de cerca de 15 mil. No começo do conflito, diante da enxurrada de homens com ferimentos graves no rosto, os médicos não sabiam o que fazer.

A maioria dos feridos demorava dias para ser evacuada, e por isso os especialistas acreditavam que não sobreviveriam. Mas sobreviveram, e o serviço médico militar, então, criou um centro especial para eles, na cidade de Amiens. Ali aconteceram os maiores avanços de uma especialidade médica que começava a se desenvolver, a cirurgia reparadora, que trabalhava com enxertos de tecido e de material ósseo.

Tratava-se, naquela época, de uma prática terrivelmente dolorosa para os feridos, por isso muitos preferiam abandoná-la e permanecer desfigurados. A vida da maioria desses homens foi um inferno. Estavam terrivelmente desfigurados (em temos populares, também eram chamados de Babões, porque, por terem perdido os lábios, não conseguiam manter a saliva na boca) e provocavam uma impressão horrível em quem os via.

A maioria escolhia a morte civil e se recolhia em hospitais ou casas de tratamento, e até poucos anos atrás, alguns viviam em pequenos povoados franceses, como provas vivas do horror da guerra. Além disso, o Estado francês não os reconhecia como inválidos, e durante muito tempo não receberam nenhum tipo de auxílio.

Isso fez com que, em 1921, 43 desses Caras Quebradas fundassem a Union des Blésses de Face, ou Sindicato dos Feridos no Rosto, que ainda existe, para defender seus direitos e pedir o apoio do Estado e a solidariedade da sociedade. Seu lema não poderia ser mais eloquente: Ao menos sorrir.


Essa reportagem foi extraída do livro Tudo O Que Você Precisa Saber Sobre a Primeira Guerra Mundial, do autor Santiago Farrell, Editora Planeta.