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As controversas cartas de José de Alencar contra a abolição no Brasil

Em meio à discussões políticas sobre o futuro da instituição no país, o escritor, membro do Partido Conservador, defendia que "ainda se prendem a ela graves interesses de um povo"

Isabela Barreiros Publicado em 09/05/2020, às 07h30

O escritor e político brasileiro José de Alencar
O escritor e político brasileiro José de Alencar - Domínio Público

Em 48 anos de vida, José de Alencar intercalou a produção literária e a atuação política. Foi deputado e ministro da Justiça — mas não durou no cargo, em parte por causa do gosto pelas polêmicas. Membro do Partido Conservador, compactuava com os princípios atribuídos ao grupo em questão, sendo um conservador “de carteirinha”.

Com esse posicionamento, o escritor ficou descontente quando D. Pedro II propôs que o Brasil seguisse o mesmo rumo de outras regiões, como Inglaterra, Estados Unidos e nas colônias francesas: abolir a escravidão. Assim como seu partido político, pôs-se em defesa da instituição, escrevendo até mesmo cartas para o imperador sobre o assunto.

As correspondências de 1867 ficaram em esquecimento por um longo período. Até que, nos anos 90, a historiadora Silvia Cristina Martins de Souza resolveu organizá-las — hoje, elas estão no livro Cartas a favor da escravidão. As críticas redigidas por Alencar estavam praticamente escondidas na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, antes da pesquisadora sistematiza-las.

"A escravidão caduca, mas ainda não morreu; ainda se prendem a ela graves interesses de um povo. É quanto basta para merecer o respeito", defendeu o autor de Iracema em uma de suas cartas.

Crédito: Getty Images

 

Segundo Alencar, mesmo que a escravidão fosse “repugnante”, ela teria que ser mantida por conta da sua importância social, política e econômica. Social, pois poderia inserir a pessoa escravizada na sociedade brasileira. Política, porque garantia a existência do próprio Estado nacional. E ainda econômica devido à produtividade possível por meio da escravidão. Ela seria, assim, uma “necessidade civilizatória”, que possibilitaria o crescimento do país.

Como conservador, acreditava que isso não deveria acabar por meio de uma lei que estabelecesse o fim da escravidão, mas sim em um processo “natural” que levaria séculos. "Ainda mesmo extintas e derrogadas, as instituições dos povos são coisa santa, digna de toda veneração", alegou.

Outro pensamento ainda muito presente nas cartas do escritor era a “importância” da miscigenação que poderia ser promovida a partir desse contexto histórico. A “cultura origina” gerada por essa interação entre brancos e negros seria relevante à formação do Brasil como nação.

A pesquisadora Dayana Façanha, em seu livro Política e escravidão em José de Alencar, examinou a atuação política do cearense. Entre os anos de 1870 e 1871, a pauta da permanência ou não da escravidão permeava ainda mais as discussões políticas do país.

De acordo com a autora, as propostas de Alencar para a emancipação das pessoas escravizadas na época era puro paternalismo. Senhores e escravos deveriam “debater” entre si para tentar gerir e — ainda que em um pensamento distante — acabar com a escravidão.

Crédito: Wikimedia Commons

 

“Encontrei uma crença generalizada em que as relações escravistas no Brasil iam bem, que tendiam a ser humanizadas. Encontra-se nesse pensamento uma noção de processo dentro do qual o cativo passa por tutela e aprendizagem, resultando, a depender de bom comportamento, no acesso a direitos como pecúlio, roças próprias, manutenção de elementos de matriz africana e, lá na frente, inserção social. É um pensamento senhorial intransigente, limitado na capacidade de imaginar o ponto de vista cativo”, explica Façanha sobre suas descobertas durante a pesquisa ao Jornal da Unicamp.


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