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Sequestro e rituais de exorcismo: O cadáver de Evita Perón

Evita se despediu do mundo em 1952. No entanto, para seu corpo, a história só estava começando

Xavier Bartaburu Publicado em 05/06/2020, às 11h00

Evita Péron, já morta
Evita Péron, já morta - Wikimedia Commons

Em 1955, o corpo de Eva Perón – embalsamado já havia três anos – jazia na sede da Confederação Geral do Trabalho (CGT), a maior central sindical da Argentina, à espera do mausoléu que seria erguido em sua honra: um monumento de 137 metros de altura (três vezes maior que o Cristo Redentor), em que o sarcófago de Evita descansaria sob os pés da estátua colossal de um descamisado.

O sepulcro nunca saiu do papel: neste ano, os militares tomaram o poder e acharam por bem sumir com o cadáver para evitar que se tornasse objeto de culto peronista. Morta, Eva Perón era mais perigosa do que viva. Cogitou-se cremá-la, lançá-la no Rio da Prata e até dissolvê-la em ácido, mas Pedro Aramburu, líder do golpe e católico devotado, insistiu em lhe dar “sepultura cristã”.

Em segredo, claro. Dois meses após a tomada do poder, um comando militar já invadia a sede da CGT para sequestrar o corpo. Pedro Ara, o embalsamador, passara os últimos três anos retocando o cadáver, a ponto de fazer de Evita quase uma obra-prima da mumificação: quem a viu, dizia que parecia dormir.

O sequestro ficou a cargo do coronel Carlos Koenig, chefe do Serviço de Inteligência do Exército, que terminou por desenvolver uma espécie de obsessão necrófila pelo corpo de Evita: durante anos, conta-se que rodou com ela por toda Buenos Aires, escondendo-a em lugares como a caçamba de um furgão, os fundos de um cinema, o sótão de uma casa e até mesmo seu escritório, onde convidava pessoas a visitar o corpo.

Acredita-se que os peronistas seguiam o cadáver à distância, pois era comum que, nas redondezas dos esconderijos, aparecessem flores e velas acendidas misteriosamente como forma de demarcar o lugar onde a qualquer momento poderia dar-se início a uma peregrinação.

Em outubro de 1950, na sacada do Palácio do Governo, em Buenos Aires / Crédito: Getty Images

 

Corre a lenda de que os militares chegaram a fazer três cópias de cera do corpo de Eva Perón para despistar os peronistas, tão perfeitas que a própria mãe da defunta teria se confundido. Em 1957, temendo que os peronistas roubassem o corpo, Pedro Aramburu ordenou que Evita fosse enviada para fora da Argentina, em uma complexa operação que teria envolvido até o Vaticano.

Os detalhes seguem obscuros, mas sabe-se que Eva Perón deixou Buenos Aires sob um nome falso com destino a Gênova, onde foi recebida por uma freira que se encarregaria de sepultá-la em um cemitério de Milão.

 

Era uma operação tão bem ajambrada que ninguém conhecia todos os pormenores: nem a freira sabia que estava enterrando Evita, nem o general Aramburu sabia onde a haviam sepultado. Tanto que, em 1970, quando os montoneros, guerrilheiros peronistas de esquerda, sequestraram o ex-ditador com o intuito de reaver o corpo, Aramburu pagou com a vida o fato de desconhecer seu paradeiro.

A execução do general pelos montoneros deflagrou uma crise política que o então ditador argentino, Alejandro Lanusse, achou por bem mitigar. Em 1971, decidiu devolver o corpo de Evita a Perón, que vivia exilado em Madri com sua nova esposa, Isabelita.

Durante o velório em 1952, na Argentina / Crédito: Getty Images

 

Mesmo de volta à companhia do ex-marido, porém, seus despojos não tiveram descanso: na casa de Perón, um assistente chamado José López Rega, entusiasta do ocultismo, realizava macabros rituais de exorcismo com o objetivo de transferir a alma de Evita para o corpo de Isabelita.

Dois anos depois, Perón voltou do exílio e foi eleito presidente, com Isabelita como vice. Evita ficou na Espanha, o que rendeu um último e insólito lance dessa funesta odisseia: os montoneros decidiram sequestrar o cadáver do general Aramburu, executado três anos antes, para exigir em troca o retorno do corpo de sua heroína.

A “Mãe dos Pobres” só voltou em 1974, após a morte de Perón em pleno exercício da presidência, por iniciativa de Isabelita, que havia assumido o cargo. Por dois anos, Eva e Perón descansaram lado a lado, na Quinta de Olivos, a residência presidencial.

Uma saga, porém, que só terminou com mais um golpe de Estado: em 1976, os militares decidiram encerrar essa obsessão pelo corpo embalsamado e entregaram a múmia de Evita aos parentes, que finalmente a colocaram na sepultura da família no Cemitério da Recoleta.

Não é um mausoléu de 137 metros de altura, mas vive cheio de turistas. E nunca faltam flores cravadas no portão de ferro.


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