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Quando a transmissão radiofônica de Guerra dos Mundos causou pânico nos Estados Unidos

A obra de H.G Wells fez com que muitos americanos acreditassem que o mundo estava de fato sendo invadido por alienígenas

Vinícius Buono Publicado em 12/09/2019, às 14h00

Ilustração da Guerra dos Mundos
Ilustração da Guerra dos Mundos - Reprodução

Guerra dos Mundos, livro escrito pelo britânico H.G Wells no final do século 19, é uma das primeiras obras a relatar o conflito entre humanos e extraterrestres, sendo considerada um marco para a ficção científica, um gênero que ela mesma ajudou a definir.

Segundo o próprio Wells, a ideia para o livro veio a partir do imperialismo britânico e seu impacto sobre as populações nativas. Os marcianos que invadem a Terra seriam o equivalente aos próprios ingleses em suas predatórias empreitadas imperialistas pelo mundo, principalmente na Tanzânia, usada de exemplo por ele.

O autor é tido como um visionário, prevendo, com espantosa precisão, tanques, aviões, a televisão, a bomba atômica, viagens espaciais e até mesmo a Internet.

A obra de Wells influenciou uma infinidade de autores e obras, tanto de ficção científica quanto de outros campos e até na própria ciência. Robert H. Goddard, pai dos foguetes, se interessou pelo espaço depois de lê-la. Foi adaptada, também, para outras mídias como o cinema (por mais de uma vez).

Uma dessas adaptações ficou famosa após um episódio inusitado: em 1938, nos Estados Unidos, o livro foi transmitido como drama radiofônico, produzido pelo então ator e futuro diretor Orson Welles, o mesmo de Cidadão Kane.

A primeira metade do programa foi feita de forma que contava os acontecimentos do livro como se fossem reais e estivessem acontecendo naquele momento, interrompendo a programação rotineira do rádio para dar pequenos informativos sobre explosões em Marte, objetos misteriosos caindo do céu e, finalmente, marcianos que atacam os humanos, para desespero do repórter.

Embora a segunda metade tenha seguido de maneira tradicional, com um narrador que seria um sobrevivente da invasão, o estrago estava feito. O aviso de que aquilo era apenas um programa de rádio ficcional foi dado apenas no começo, então muitas pessoas que sintonizaram depois acharam que tudo estava acontecendo de fato.

Há alguns relatos conflituosos sobre a magnitude do caos gerado, mas o que se sabe com certeza é que ele existiu. Como o intervalo veio apenas na metade do programa, as pessoas começaram a ligar para a CBS, emissora responsável pela transmissão. Em pouco tempo, a polícia apareceu e daí pra frente foi só ladeira abaixo.

Falavam de confusão, mortes por pisoteamento, suicídios… O prédio do New York Times, na Times Square, teria colocado em seu letreiro luminoso: Orson Welles causa pânico.

O contexto histórico também colaborou. Naquela época, o Acordo de Munique tinha acabado de ser assinado, tornando a Alemanha Nazista cada vez maior, mais poderosa e com a parecendo guerra cada vez mais iminente, muitos acharam que ela tinha de fato eclodido. Relatos contam, também, de prefeitos de cidades pequenas ligando enfurecidos para a rádio em busca de explicações.

No entanto, pesquisas posteriores acusam a história de ter sido exagerada por Welles. O programa não era o mais popular em seu horário de transmissão e poucas pessoas de fato agiram com base no pânico.

O alto volume de telefonemas, no entanto, provavelmente tem origem verdadeira, mas isso porque a maioria preferiu ligar tanto para a rádio quanto para as autoridades em busca de explicações antes de agir instintivamente.

Inicialmente, o diretor tinha uma postura de arrependimento acerca do caso. Posteriormente, abraçou a história como parte de sua mística pessoal. De qualquer forma, o episódio o consagrou como roteirista e a apoteose viria apenas três anos depois com o lançamento de sua obra magna, o filme Cidadão Kane.