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Qual foi o império mais poderoso da Antiguidade?

Mongóis, persas, romanos, egípcios e chineses: todos eles comandaram vastos territórios e sangrentos exércitos. Entenda o que é necessário para determinar qual desses foi o mais poderoso

André Nogueira Publicado em 01/02/2020, às 10h00

Rei Xerxes da Pérsia, no filme 300
Rei Xerxes da Pérsia, no filme 300 - Warner Bros. Pictures

Do khanato ao shahnato, muitas foram as formas de chamar os grandes estados dominadores, que em geral recordamos pelo termo romano, “império”.  Na Antiguidade, foram muitos os que dominaram vastas regiões pelo mundo: destacam-se Suméria, Acádia, Babilônia, Assíria (Mesopotâmia), Fenícia, Hititas (Oriente Médio), Elam, Aquemênida, Partas, Média (Pérsia), Egito, Kerma, Mali (África), Indus, Shunga (Índia), China (Ásia), Macedônia, Roma, Selêucidas (Europa), Mongólia, Xiongnu (Estepes centrais), entre outros.

A título de precisão, partiremos do conceito de império estabelecido pela antropóloga Carla M. Sinopoli em seu artigo, "A Arqueologia dos Impérios", de 1994. De acordo com a estudiosa, trata-se de um "tipo de estado territorial e expansivo e incorporador, envolvendo relações nas quais um estado exerce controle sobre outras entidades sociopolíticas... As diversas políticas e comunidades que constituem um império geralmente mantêm algum grau de autonomia”. Diante de tamanha gama de diferentes impérios, pensar em um mais poderoso exige um ponderado balanceamento.

“Ao comparar diferentes impérios, os historiadores enxergam que o processo de crescimento teve algumas semelhanças e algumas diferenças entre os impérios. O Império Persa Aquemênida sob Ciro, o Grande, cresceu substancialmente em menos de 30 anos e atingiu sua maior extensão em 75 anos. A República Romana foi fundada no século 6 a.C., mas o Império Romano não alcançou sua maior extensão até 117 d.C.”, afirma Steven Schroeder em "Comparando a Ascensão e Queda dos Impérios", artigo para a Khan Academy. 

Em relevo do sarcófago de Marco Aurélio, representação da guerra dos romanos com os marcomanos / Crédito: Getty Images

 

Portanto, esse balanceamento exige uma compreensão de fatores relevantes na comparação entre os impérios. Ao mesmo tempo em que se revela a necessidade de compreender os estados antigos ao longo do tempo, situando posições de auge e queda desses impérios e entendendo que grandes unidades políticas podem estar em um quadro menos poderoso dependendo da época em que o observamos.

Extensão

Um fator relevante para mensurar o poder de um império é sua distribuição geográfica. Sem dúvidas, o império mais vasto que o mundo antigo conheceu foi o Mongol, de Gengis Khan e sucessores. Outros impérios, como o Inca, também se estenderam por vastos lugares ao comparar com o famoso Império Romano.

O khanato mongol foi “o maior império histórico em termos de território contíguo. O núcleo do Império Mongol era a estepe da Eurásia que se estende por muitos milhares de quilômetros das montanhas Khingan, no leste, para os Cárpatos no oeste (McNeill 1964). Os mongóis eram guerreiros das estepes e podiam estender rapidamente sua influência sobre toda a região (Barfiard, 1994)”, afirmam Peter Turchin, Jonathan M. Adams e Thomas D. Hall em "East-West Orientation of Historical Empires and Modern States". Segundo os autores, em termos de tamanho, a Mongólia vence, seguida de Rússia, da China Mancchu e dos Xiongnu.

Porém, a extensão de um império, por si só, não demonstra completamente o poder de um estado. A Rússia foi um gigantesco império, mas muito disso se deu pela facilidade de ocupar regiões gélidas e pouco habitadas. Entre os fatores de poder relevantes nessa análise, podemos citar as redes mais complexas e estruturadas de administração interprovincial.

Tamanho do Império Mongol / Crédito: Getty Images

 

Nesse quesito, poucos se aproximam dos inventores dessa forma de política: a Acádia sargônica e a Babilônia de Hammurabi. Nesse quesito, a dinastia de Ur III, ainda suméria, é importante, mas está longe de ter sido um poderoso império.

Outro tema relevante, hoje em dia, é pensar impérios que mantiveram não só a fama, mas também um legado político-cultural proeminente. Como os reinos do Egito Faraônico, conhecido mundialmente, e o Império Romano, um dos fatores formativos mais importantes do Mediterrâneo.

O mais famoso

Sem dúvidas, o Império Romano é o mais famoso da História. Sua estrutura militar e administrativa possibilitou não apenas que ele fosse um dos impérios mais expansivos do mundo, mas também o fez o mais vindouro, sobrevivendo incríveis 10 séculos.

“À medida que Roma expandia sua influência sobre cada vez mais áreas, suas instituições políticas se mostraram resilientes e adaptáveis, permitindo incorporar populações diversas. [...] Embora o sistema de votação possa parecer uma estratégia deliberada para capacitar os ricos, na verdade era um reflexo da estrutura militar romana”, explica Steven Schroeder no artigo "The Roman Republic", para a plataforma Khan Academy.

O Império Romano / Crédito: Getty images

 

“Roma se tornou o estado mais poderoso do mundo no primeiro século a.C. por meio de uma combinação de poder militar, flexibilidade política, expansão econômica e mais do que um pouco de boa sorte. Essa expansão mudou o mundo mediterrâneo e também a própria Roma”.

Muito mais que Roma

Roma, indubitavelmente, foi muito poderosa. No entanto, ela não foi a capital com maior poder na Antiguidade, podendo ser considerada apenas a cidade-estado que mais influenciou o Ocidente. Porém, em termos de poderio militar, dois impérios se destacam: em armas, a China da Dinastia Han derruba os romanos; já em termos de capacidade de conquista e dominação (não necessariamente expansão, mas poderio bélico), a Macedônia de Alexandre é quase incomparável.

Todavia, nenhum desses dois foi o mais poderoso império da Antiguidade, seja por quanto tempo existiu ou pela articulação política na dominação de vastos territórios. É necessário mencionar outros fatores importantes para chegar a resposta.

Em termos de abrangência e influência, algo que extrapola a dominação territorial, o império mais vultoso aglomerado político era o gigantesco Califado Omíada, que não só comandou grandes territórios, mas também manteve relações duradouras e benéficas com diversos cantos do mundo. Já em termos de riqueza, o Mali foi um dos mais importantes impérios.

Alexandre, o Grande, esculpido no Monte Athos / Crédito: Getty Images

 

O poder dos xás

Tópicos de suma relevância na categorização do poderio dos impérios antigos são os vetores de centralização do poder, rapidez de expansão, projeto de dominação e contingente populacional dominado. Por mais que muitos disputem, porém, nenhum império atingiu as dimensões que os persas, principalmente os Arquemênidas de Dário e Ciro, tinham.

Parte do segredo dos persas era sua rede administrativa que integrava as elites de cada província a uma hierarquia que, sem precisar apelar às armas, trazia benefícios mútuos que facilitavam a dominação. De acordo com a Sociedade do National Geographic, “Dario reconheceu que uma área tão grande precisava ser adequadamente estruturada e organizada para funcionar com eficiência. Ele estabeleceu um sistema de províncias e governadores, e um serviço postal que atravessou o império para estabelecer uma comunicação ampla.”

Um importante helenista estudioso da Pérsia, David Asheri, afirmou que uma questão relevante para a formação de um império tão poderoso como foi o Aquemênida era a ideologia da Monarquia Universal.

De acordo com essa vertente, o território de direito de Ciro era, virtualmente, o mundo inteiro e, consequentemente, as diferenças diversas ente os muitos povos do mundo conhecido eram irrelevantes, pois a dominação persa não se pautaria numa identidade, mas numa visão paternalista do xá. Tanto que a lígnua geral do império sequer era o persa, mas o aramaico, enquanto em outros temas, cada povo deveria praticar suas próprias culturas.

A monarquia universal Aquemênida, como consequência, dominou a maior população em um único império da História. Segundo o Guinness Records Book, a Pérsia de Ciro comandou 49,4 das 112,4 milhões de pessoas do então mundo conhecido da época.

Gravuras de soldados persas na capital aquemênida / Crédito: Getty Images

 

Ou seja, a Pérsia dominou surpreendentes 44% dos indivíduos do mundo. Essa atitude, na visão de gregos como Heródoto, era absurda: os xás se achavam superiores a Zeus e pretendiam dominar territórios para além da suposta necessidade de cada povo; isso é hybris, a manutenção de um caos que foge da realidade natural.

Afirmar, categoricamente, que a Pérsia foi o mais poderoso império do mundo, sem a ponderação anteriormente feita - e a compreensão de que em outros aspectos existem poderes mais consolidados do que o aquemênida -, parece precipitado. Afinal, muitos outros impérios antigos foram estratofericamente poderosos.

Porém, tudo indica que o Império dos xás também foi um dos mais poderosos da História: “Rein Taagepera, que compilou estatísticas úteis para estudantes sobre a duração e o tamanho dos impérios antigos[...] escreve que, no mundo antigo, o Império Aquemênida era o maior império.” reafirma N.S. Gill, especialista em História Antiga da Universidade de Minnesota em entrevista ao ToughCo.


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2. Los caminos reales del Imperio Persa Aqueménida, de Joaquim V. Muñoz - https://amzn.to/31gRmma

3. História Antiga, de Norberto Guarinello - https://amzn.to/2RKBeWY

4. Declínio e queda do Império Romano, de Edward Gibbon - https://amzn.to/2S5jQer

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6. Breve História de Gengis Khan, de  Borja Pelegero Alcaide - https://amzn.to/37MujSm

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