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Revolta do Nylon: Quando o racionamento de meias-calças durante a Segunda Guerra causou tumultos

No mercado negro da década de 1940, um par da peça feminina era vendido por até R$ 1.346. O episódio representou um verdadeiro caos para os Estados Unidos

Thiago Lincolins Publicado em 16/08/2019, às 08h00

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- Mulheres formavam filas enormes para adquirir os últimos pares de meias-calças / Crédito: Reprodução

Em outubro de 1939, a empresa americana DuPont introduziu as meias-calças femininas feitas de nylon. Sucesso instantâneo: 4 milhões de pares foram comprados em um único dia. Mas a festa foi curta: após a entrada dos EUA na Segunda Guerra, o material ganhou novas utilidades, entrando em conflito com o desejo dos consumidores. 

Estoques

Até a invenção do Nylon, os EUA dependiam do Japão para a importação de 90% de sua seda. Obviamente, com a guerra, isso se tornou impossível. Diante disso, o executivo Eleuthère Irénée du Pont conseguiu convencer o exército americano de que o nylon era muito mais eficaz.

Acabara a alegria para as mulheres. A War Production Board – agência do governo que supervisionava a produção de objetos de guerra – anunciou que a DuPont só teria permissão para vender a fibra sintética para a produção de objetos do universo militar, como paraquedas, tanques de combustível de aeronaves e redes de descanso. De imediato, mulheres passaram a fazer estoques do produto.

As meias continuaram a ser achadas no mercado negro, onde um par era vendido por até 20 dólares (cerca de R$ 1.346 em valores corrigidos). As mulheres que não conseguiam adquirir o produto de maneira ilegal, buscavam outros meios de substituí-lo. Loções, cremes e até linhas de costura pintadas eram usados para tentar dar o mesmo efeito que a meia-calça.

Fim da guerra

Em agosto de 1945, 8 dias após a rendição do Japão na guerra, a DuPont devolveu a alegria das americanas com a seguinte frase: "A Paz está aqui! Nylons à venda". A empresa previu que 360 milhões de pares seriam fabricados por ano. Mas não havia condições de fazer tanta meia. A produção passou por um grande atraso que consequentemente causou a falta do produto nas prateleiras.

Tumultos e surtos tomaram contas das ruas – e cresceriam mais e mais. A primeira revolta ocorreu em setembro de 1945, quando uma quantidade limitada dos produtos foi colocada à venda. Um mar de mulheres – entre tapas e unhadas – tomava conta das lojas.

Em novembro, 30 mil mulheres estavam paradas diante das lojas em Nova York. Em Pittsburgh, 40 mil mulheres formaram filas enormes para adquirir os últimos 13 mil pares que ainda restavam nos estoques.

A DuPont foi acusada de atrasar propositalmente a fabricação das meias. Na época, repórteres sugeriram que a empresa estava sendo gananciosa ao manter direitos exclusivos de patente em cima de uma fibra que possuía alta demanda.

Filas para comprar meias-calças / Reprodução

Ao mesmo tempo, revistas e jornais noticiavam os tumultos a todo o momento. Uma manchete intitulada Mulheres Arriscam a Vida em Batalhas por Meias de Nylon, publicada por um veículo da Geórgia, detalhou com as multidões invadiam as lojas e derrubavam tudo que estivesse pela frente para adquirir o tesouro.

A falta de meias persistiu até março de 1946, quando a DuPont finalmente conseguiu aumentar e estabilizar a fabricação das meias. Como 30 milhões de pares eram produzidos por mês, o turbulento período foi encerrado e as mulheres não precisaram mais sair no tapa para obter uma meia-calça.