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Um dia em Versalhes era suficiente para entender as razões da Revolução

Com custos absurdos, os nobres viviam uma rotina fútil financiada pelos impostos cobrados da população

Barbara Soalheiro Publicado em 07/12/2019, às 10h00

Cena do filme Maria Antonieta (2006)
Cena do filme Maria Antonieta (2006) - Divulgação

Um mundo à parte: assim era a Versalhes no final do século 18. Além do enorme palácio real, o local foi composto de prédios anexos que abrigavam a corte e servem de sede do governo.

A 23 quilômetros de Paris e alheios à vida miserável da maioria dos franceses, os nobres viviam uma rotina glamurosa financiada pela população explorada. As 10 mil pessoas instaladas (3 mil nobres e 7 mil empregados) gastavam 6% de toda a arrecadação dos franceses. O restante era consumido por dívidas militares, sobrando muito pouco para os outros 19 milhões de franceses espalhados pelo país.

Desinteressado de seu papel de governante, Luís XVI estava distante da política. A rainha, Maria Antonieta, distraia a corte com boa música, jogos e festas que arrastam o país ao extremo da irresponsabilidade administrativa. Assim fica fácil entender os motivos da revolução de 1789, que levaria os reis à guilhotina e poria fim à monarquia absolutista.

Um dia comum em Versalhes

Os empregados da corte vinham de famílias pobres e tinham, entre outras obrigações, que recolher penicos e escarradeiras e despejar o conteúdo nas fossas do lado de fora. Mas trabalhar no palácio significava vantagens: a comida é farta e é possível subir posições dependendo do talento ou de favores. Em dias de festas, sem lacaios, os nobres urinavam atrás das cortinas dos salões.

O interior do Palácio de Versalhes / Crédito: Wikimedia Commons

 

Grandes festas ocorriam pelo menos três vezes por semana. Algumas duravam dias com óperas e jogos nos jardins. Havia também as mais íntimas, no Petit Trianon, a residência particular da rainha (só ali, os gastos somavam 1 milhão de libras por ano). O rei raramente participava dos embalos, levando uma vida quase reclusa em seus aposentos, com amigos, amantes e gatos.

Apesar da numerosa guarda real, era comum haver larápios e batedores de carteira infiltrados nas festas. Relógios, moedas e objetos valiosos sumiam com frequência até nos aposentos do rei. Também ficavam cada vez mais constantes as visitas de indigentes ao palácio. 

Comida abundante

Comer também era uma festa. Um simples jantar envolvia dezenas de empregados. Eram pelo menos sete opções de pratos para cada um dos serviços: entradas, sopas, carnes, assados, vegetais e legumes, sobremesas, cafés, licores. Os pratos impressionavam olhos e paladar. Num único dia, eram consumidos 60 gansos, dezenas de peixes e outras aves em quantidade ainda maior.

Os aposentos de Maria Antonieta / Crédito: Wikimedia Commons

 

O desinteresse e a pouca afinidade do rei Luís XVI com o governo abriu espaço a facções políticas afeitas a todo tipo de corrupção e intriga, as chamadas coteries. A convivência tão próxima de grupos divergentes criou um clima cínico nos salões.

Manter-se em Versalhes era caríssimo: os nobres precisavam se vestir de maneira luxuosa e ter dinheiro para carteados, carruagens e cabeleireiro. Enquanto uma família burguesa de vida mediana gastava 15 mil libras por ano, uma duquesa gastava a mesma quantia em um único vestido, feito de ouro. Os burgueses – que negociavam os tais tecidos – enriqueceram à custa dos caros hábitos da nobreza.

Passear pelos canteiros dispostos em formas geométricas era uma das atividades mais comuns e prazerosas. O próprio rei Luís XVI costumava caminhar de 4 a 8 quilômetros entre os 132 das ruelas ladeadas por árvores frutíferas. Para manter esse verde todo, além dos canais, lagos e fontes instalados no jardim, eram necessários 3.600 metros cúbicos de água por hora. Enquanto isso, apenas algumas dezenas de casas tinham água em Paris.

Além disso, os artistas recebiam grandes incentivos da corte. Mozart e Salieri se apresentaram em concertos semanais. Peças de teatro foram  financiadas pela rainha (cerca de 1200 peças foram encenadas nos 19 anos de reinado) e mais de 20 mil obras, entre pinturas, desenhos e esculturas, estão expostas no palácio. Pensadores e intelectuais como Diderot, Rousseau e Robespierre também eram respeitados e se tornam assuntos nas rodinhas.


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