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Horror estampado no rosto: O mistério por trás da múmia que grita

Envolvendo uma história de conspiração e assassinato, a figura de expressões espantadas pode estar também relacionada a um grande nome do Egito Antigo

Isabela Barreiros Publicado em 19/03/2020, às 07h00

A impressionante múmia que grita
A impressionante múmia que grita - Divulgação/Ministério das Antiguidades do Egito

Por mais que a técnica na mumificação tenha sido amplamente utilizada em muitas civilizações, em especial no Egito Antigo, não é esse o caso da famosa “múmia que grita”. Ela foi deixada para mumificar naturalmente, sem qualquer tipo de fluido utilizado para a realização de tal processo. Demonstrando uma expressão facial de total horror, o corpo de mais de três mil anos atrás foi encontrado em 1881, mas o mistério acerca de seu espanto permaneceu intrigando pesquisadores por muitos anos.

Foi apenas em 2018 que um grupo de cientistas liderados pelo arqueólogo e egiptólogo Zahi Hawass descobriu uma possível solução para essa história. Segundo a pesquisa realizada por eles, o cadáver anteriormente conhecido como “homem desconhecido” seria, na verdade, um herdeiro de um dos mais importantes faraós da antiguidade egípcia.

Um dos argumentos que levou os pesquisadores a pensarem tal hipótese foi o fato da múmia ter sido encontrada em um local exclusivo para membros da realeza. Mas o fato de ela estar envolta com pele de carneiro, material considerado impuro pela tradição egípcia, fez com que muitos outros questionamentos surgissem.

"Os membros da realeza eram sepultados depois de um requintado processo de mumificação, e ficavam enrolados em uma delicada manta de linho. Mas a 'múmia que grita' foi enterrada sem esse processo e envolta em pele de ovelha", explicou Hawass em entrevista à BBC News.

A múmia que grita / Crédito: Divulgação/Ministério das Antiguidades do Egito

 

Acredita-se que o homem tenha sido o príncipe Pentaur, filho do faraó Ramsés III. "Extraímos o DNA da múmia de Ramsés III, descoberta em 1886, e comparamos com o do 'homem desconhecido E', e os resultados revelaram que o primeiro era pai do segundo", afirma o arqueólogo.

Existe ainda outra fonte histórica para tal afirmação — que colabora para a investigação acerca dos motivos da morte da múmia que grita.

Os egiptólogos encontraram um manuscrito, que nomearam de Papiro Judicial de Turim, que documenta os julgamentos que ocorreram após um crime brutal cometido pelo príncipe egípcio. Ele teria tentado — e provavelmente conseguido — assassinar seu próprio pai, Ramsés III. De acordo com Hawass, “os papiros que relatavam a conspiração, chamada Conspiração do Harém, se assinalava que Pentaur havia sido condenado à forca e foi surpreendido quando ia executar o complô".

Traduzido, o inscrito diz que o príncipe Pentaur "foi trazido porque ele estava em conluio com Tiye, sua mãe, quando ela planejou o assunto com as mulheres do harém". Pentaur "foi colocado diante dos mordomos para ser examinado; eles o consideraram culpado; o deixaram onde estava; ele tirou a própria vida".

A múmia de Ramsés III, que governou de 1186 a 1155 aC / Crédito: Getty Images

 

A múmia do importante faraó também colabora para a tese. Até o descobrimento do corpo de Ramsés III, no século 19, a morte do rei permaneceu inconclusiva. Sem recursos tecnológicos na época para analisar profundamente a causa, seu corpo embalsamado foi mantido conservado, de maneira que pudesse ser estudado assim que possível. Com recursos tecnológicos válidos para a pesquisa, o cadáver voltou a análise somente no século 21.

A primeira conclusão foi obtida com uma análise minuciosa feita manualmente, que pôde identificar cortes em pontos de sua garganta. Uma tomografia computadorizada resultou em uma análise que pôde ser concluída somente em 2012: Ramsés III foi assassinado. Com uma publicação no periódico de medicina British Medical Journal, os estudos chegaram à conclusão de que um profundo ferimento no pescoço havia sido causado devido a alguma facada ou golpe com alguma lâmina contra o faraó. Possivelmente no complô de Pentaur.

No entanto, permanece o mistério das peculiares expressões da múmia que grita. Seu rosto com expressões de horror, uma boca aberta e músculos faciais tensos, ainda não pôde ser explicado pelos pesquisadores. Ele teria morrido e seu cadáver manteve seu semblante assustado depois de cometer suicídio, ou isso foi feito com seu corpo após a sua morte? As pesquisas sobre o assunto continuam a ser realizadas e essa incógnita permanece intrigando tanto o mundo cientifico quanto curiosos sobre o tema.


++AH - Um debate eterno: Afinal, de que raça eram os egípcios?


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