Quando a União Soviética tentou criar o 'chimpanzomem'

Com o aval de Stalin, biológo soviético tentou cruzar humanos e grandes primatas

Redação AH Publicado em 08/11/2017, às 10h31 - Atualizado às 14h47

Um distinto cavalheiro não humano
Um distinto cavalheiro não humano - Pixabay

Ninguém podia dizer que lhe faltava autoridade: com seus experimentos na década de 1910, Ilya Ivanovich Ivanov basicamente inventou a inseminação artificial. E, já então, ele havia ousado revelar seu sonho: criar um híbrido de chimpanzé (ou outro grande primata) e humano.

A ideia não é cientificamente implausível. A distância genética entre nós e o chimpanzé é similar à de um cavalo para um jumento, e esses se reproduzem facilmente. 

Obviamente, poder ser feito não quer dizer que deveria ser feito. O híbrido seria um pesadelo ético. E é então que entra alguém não exatamente famoso pela ética: Josef Stalin. Documentos descobertos só em 2005 revelavam que ele acreditava ser possível criar um superexército de homens-macacos. Eles seriam "armas vivas". "Eu quero um novo ser humano invencível, insensível à dor, resistente e indiferente à qualidade da comida que ingere", encomendou o ditador ao cientista. E havia mais um motivo: a União Soviética estava em guerra aberta com a religião, e um híbrido entre nós e o chimpanzé provaria que somos parentes, descendentes de um mesmo ancestral. 

Por que Stalin achava que um chimapanzomem seria tão poderoso, só perguntando ao seu fantasma. Mas Ivanov recebeu uma bolsa equivalente a U$ 200 mil para testar suas ideias em Guiné, na África Ocidental. Ele tentou inseminar três fêmeas com sêmen humano, mas falhou. Então procurou inseminar humanas em um hospital, sem seu consentimento, e foi gentilmente convidado a se mandar de volta para a União Soviética.

O cientista não voltou de mãos abanando. Ele levou chimpanzés vivos de volta para seu laboratório soviético. Por incrível que pareça, conseguiu cinco voluntárias, mas os macacos morreram antes de o experimento prosseguir. 

Em 1930, o cientista caiu em desgraça com o regime soviético. Stalin havia se encantado com as teorias do jovem agrônomo Trofim Lysenko, que rejeitava a genética e a seleção natural, defendendo um novo tipo de lamarckismo (isto é, que é possível se passar à geração seguinte características adquiridas por esforço). 

A diferença de opinião científica recebeu o mesmo tratamento que a diferença de opinião política. Em dezembro de 1930 o velho cientista foi preso e exilado para o Cazaquistão. Morreria de derrame pouco mais de um ano depois.

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