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Já existia falcatrua: entenda como era a vida antes dos bancos

Antigamente, sacerdotes guardavam riquezas nos templos – e os ourives, em seus cofres

Lívia Lombardo Publicado em 24/09/2020, às 08h00

A obra 'Dois Coletores de Impostos', de Marinus van Reymerswale
A obra 'Dois Coletores de Impostos', de Marinus van Reymerswale - Wikimedia Commons

Entre as missões religiosas dos sacerdotes da Antiguidade havia uma um tanto mais, digamos, mundana do que se dedicar ao culto de deuses: guardar em seus templos as riquezas dos fiéis, como joias, metais preciosos e até cereais. E eles, os sacerdotes, não cobravam nada por isso, mas podiam emprestar esses bens a quem precisasse – aí, sim, em troca de algum pagamento.

O templo mais antigo de que se tem notícia usado para esse fim funcionava na Mesopotâmia (atual Iraque) e tem mais de 5 mil anos. O hábito de guardar o ouro com os sacerdotes se expandiu pelo mundo antigo, principalmente entre os egípcios e os babilônios e, mais tarde, entre os gregos e os romanos – a Igreja Católica chegou a criar, no começo do século 17, o chamado Banco do Espírito Santo, para facilitar o pagamento de dízimos e indulgências.

Já durante a Baixa Idade Média, a atividade bancária entre as pessoas foi aperfeiçoada nas cidades-estados da Itália, que tinham intensa atividade comercial. Os responsáveis foram os ourives, artesãos que trabalhavam com ouro, prata e metais preciosos.

Eles já tinham em suas casas guardas e cofres para impedir que suas matérias-primas fossem roubadas. Assim, passaram a guardar também o ouro da população – obviamente, ganhando uma taxa.

Como garantia, os depositantes recebiam um documento no qual o ourives declarava o peso do ouro de cada um. E, quando o sujeito precisava do seu ouro, emitia uma ordem de pagamento ao ourives. É claro que não demorou muito para esse novo “sistema monetário” trazer à tona falcatruas: logo começaram a falsificar as assinaturas dos documentos de crédito.

E, então, para evitar esse tipo de problema, os ourives passaram a dar aos depositantes tantos papéis quantas moedas eles guardassem. Quem recebia os papéis também achava mais seguro usá-los para fazer pagamentos.

Conforme a prática se espalhou, os ourives ficaram com a guarda de todo o ouro da cidade. Os mais espertinhos passaram a emprestar esse ouro a juros, que chegavam a 200% ao ano.

O crescimento do negócio foi tão grande que os ourives não tinham nem mais tempo de exercer seus ofícios, passando a se dedicar exclusivamente a essa atividade financeira – cuja movimentação foi, aos poucos, ganhando espaço também em outros países do continente europeu e, depois, fora dele.

Em tempo: como os ourives exerciam sua nova profissão sentados nos bancos de madeira dos mercados, passaram a ser chamados de banqueiros.