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'Leprosários': Muitas vezes, pacientes com hanseníase passavam a vida toda internados

Até a década de 1980, portadores da enfermidade eram bastante discriminados no Brasil. Confira uma linha do tempo do período!

Diego Antonelli Publicado em 01/08/2021, às 08h00

Imagem meramente ilustrativa de dispensário de pacientes com lepra em Guiné-Bissau
Imagem meramente ilustrativa de dispensário de pacientes com lepra em Guiné-Bissau - Domínio público/ Acervo Arquivo Nacional

Chamada por muito tempo de ‘lepra’, a hanseníase assola o mundo há pelo menos 4 mil anos, conforme atestam papiros da era de Ramsés II, faraó que governou o Egito entre 1279 e 1213 a.C.. Já em terras brasileiras, as primeiras notificações da doença vieram com os colonizadores portugueses de 1600, no Rio de Janeiro. Em seguida, outros focos foram identificados pelo litoral em todo o país.

Desde os primórdios até meados da década de 1980, então, os muitos portadores da moléstia que viviam por aqui foram tratados de maneira discriminada, sendo, muitas vezes, internados compulsoriamente.

Grande parte deles, aliás, passou toda a vida em leprosários para que não contaminassem o meio social e, raramente, voltaram a ver familiares e entes queridos. “Nesses locais, os pacientes construíam novos vínculos, se casavam e até tinham filhos”, conta a dermatologista Laila de Laguiche, da ONG Instituto Aliança contra a Hanseníase.

Porém esses bebês eram retirados do convívio dos pais para não contrair a doença. “Acabavam se tornando órfãos de pais vivos”, comenta a especialista. Hoje não existem mais leprosários no país — a maioria deu lugar às atuais sedes de hospitais gerais — e muitos pacientes criaram núcleos habitacionais ao redor.

Muitos das pessoas que tinham lepra eram obrigados a viver em barracas armadas em beiras de estradas / Crédito: Acervo do Instituto Lauro de Souza Lima

 

1640

Cria-se uma das iniciativas pioneiras de isolamento dos portadores de hanseníase. É o “Campo dos Lázaros”, em Salvador, na capital da Bahia. O local, sem estrutura, era obra da Igreja Católica e se caracterizava como um espaço que recebia os então “morphéticos”. Era mantido por meio da caridade.


1714

Inaugura-se o primeiro asilo para leprosos no Brasil. A instituição ficava na capital pernambucana e foi criada pelo padre Antônio Manoel. Em 1789, o local passa a ser o Hospital dos Lázaros do Recife e funciona até 1940.


1741

Cria-se o Hospital dos Lázaros do Rio de Janeiro. Até 1897 havia abrigado 2.090 leprosos vindos de todo o Brasil. Já em 1787 é fundado o Hospital São Cristóvão dos Lázaros da Bahia, em Salvador, que recebeu até o ano de 1890 mais de 1.400 pessoas com a doença.


1802

É iniciada a instalação de um terreno na região da Luz, em São Paulo, para abrigar o Hospital dos Lázaros, com o objetivo de realizar o tratamento de pessoas com lepra e acolher doentes que perambulavam pela cidade.


1883

Neste ano, 12 cidades brasileiras já mantinham asilos ou hospitais para leprosos. São elas, seguindo a ordem cronológica da fundação desses locais: Salvador/BA (1640/1787), Recife (PE) (1714/1798), Rio de Janeiro/RJ (1741/1763), Santa Bárbara/MG (1771), São Paulo/SP (1802), Itu/SP (1806), Belém/PA (1815), Cuiabá/MT (1816), São Luís/MA (1833), Campinas/SP (1863), Piracicaba/SP (1880) e Sabará/SP (1883).

No período de 1924 a 1962, o Brasil utilizou a internação compulsória de pacientes com hanseníase como forma de controle da doença / Crédito: Acervo do Instituto Lauro de Souza Lima

1923

Decreto permite — legalmente — o isolamento compulsório no país, estabelecendo a criação de leprosários ou colônias agrícolas com o intuito de isolar os pacientes com a chamada ‘lepra’.


1949

O isolamento forçado dos hansenianos em leprosários vira lei federal, que vigora, na prática, até 1986. A legislação permite, inclusive, separar os filhos dos pacientes. Ainda bebês, as crianças são enviadas em pequenos cestos para educandários e preventórios, lugares semelhantes às creches que conhecemos hoje.


1962

É aprovado pelo Governo Fedeal o Decreto nº 968, que abole a internação compulsória.


1970

O tratamento quimioterápico ambulatorial e a desospitalização dos pacientes são feitos com mais vigor nessa década. Em 1976, a portaria nº 165 do Ministério da Saúde aponta que as internações, quando necessárias, deveriam ser feitas em hospitais gerais.


1986

A doença é temada 8ª Conferência Nacional de Saúde e, com isso, os leprosários foram se transformando em hospitais gerais ou dermatológicos. Em 1990, chega ao Brasil o tratamento que combina a manipulação simultânea de medicamentos específicos.


2007

É promulgada a lei federal que garante pensão especial aos brasileiros com hanseníase que foram submetidos à internação compulsória até 31 de dezembro de 1986.


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