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As luxuosas — e abusivas — visitas reais durante a era de Elizabeth I

No verão, a rainha e sua corte se hospedavam em diversas casas rurais e os anfitriões eram obrigados a suprirem as necessidades monárquicas — mesmo que isso os levassem à falência

Fabio Previdelli Publicado em 18/03/2020, às 16h30

Retrato da monarca Elizabeth I, da Inglaterra
Retrato da monarca Elizabeth I, da Inglaterra - Wikimedia Commons

Todo verão, a rainha Elizabeth I e sua maciça Corte realizavam um longo retiro, que durava meses, levando uma imensa caravana com um trem quilométrico, carruagens e mais de mil cavalos. Para essas elaboradas férias, nenhuma pousada seria adequada para a Rainha Virgem. Em vez disso, ela permanecia em propriedades rurais, o que era uma grande honra para as pessoas que a recebiam.

Mas para alguns cortesãos, o custo de uma visita real era simplesmente muito alto. Em 1602, Sir Henry Lee ficou horrorizado ao saber que a rainha Elizabeth planejava ficar com ele em durante seu retiro.

De acordo com Adrian Tinniswood, autor de Behind the Throne: A Domestic History of the British Royal Househol (Por trás do trono: uma história doméstica da família real britânica, em tradução literal), Lee escreveu uma carta urgente ao conselheiro da rainha, Robert Cecil. Elizabeth simplesmente não poderia visitá-lo, ele declarou enfaticamente: eu ficaria quebrado se ela viesse.

Pintura que retrata Elizabeth I / Crédito: Getty Images

 

Parte do problema é que os Tudor não viajavam sozinhos — eles sempre eram acompanhados por pessoas do governo. O Conselho Privado, que dirigia o país com o monarca, por exemplo, participava do retiro — assim como seus servos e os servos de servos.

Cervejeiros, músicos, bobos da corte e médicos da monarquia eram considerados essenciais e também precisavam de um lugar para ficar. Isso significava que os anfitriões tinham que encontrar moradia, comida e entretenimento para mais de 300 pessoas, geralmente com apenas alguns dias de antecedência.

"A organização de viagens para um grupo desse tamanho exigia um planejamento cuidadoso", explica Tinniswood. "Esse era o trabalho do lorde camarista, que elaborava uma lista inicial de pessoas e lugares a serem visitados na rota — com datas aproximadas para cada uma das paradas." Ele também noticiava aos anfitriões e organizava os locais para descanso, com os mapas de dormir distribuídos para que ninguém estivesse alojado abaixo ou acima de sua classificação hierárquica”.

Se não houvesse alojamento suficiente na propriedade, edifícios temporários eram erguidos e celeiros eram convertidos — tudo isso às custas do anfitrião. A quantidade de carne e hidromel necessária era impressionante, e os animais eram comprados ou confiscados a quilômetros de distância.

A comida era preparada pelos próprios cozinheiros da monarca, mas tinha que ser aquecida com grandes quantidades de combustível, geralmente em cozinhas temporárias. O anfitrião também ficava incumbido de alimentar os cavalos da corte.

De acordo com Tinniswood, a estadia de três dias da rainha Elizabeth na propriedade de Sir Thomas Egerton em Harefield em 1602 quase o quebrou. Suas despesas incluíram 24 lagostas, 624 galinhas, 48.000 tijolos e novos fornos para alimentar a grande festa. “Tudo chegava a custar cerca de 10 milhões de dólares [algo na casa dos R$ 50 milhões] na cotação atual”.

Apesar de todos esses inconvenientes, os benefícios políticos e sociais de passar uma noite com a realeza poderiam ser incalculáveis. Em 1535, Henrique VIII e Ana Bolena ficaram na casa de Sir John e de Margaret Seymour em Wulfhall.

Gravura de Henrique VIII / Crédito: Getty Images

 

O monarca ficou notavelmente alegre durante a estadia, caçando vigorosamente na densa Floresta de Savernake, enquanto Bolena meditava para tentar aliviar o mau humor. Ana tinha motivos para ficar chateada: a filha de Seymour, Jane, estava rapidamente se tornando a favorita de seu marido — e logo a substituiria na realeza.

Enquanto os anfitriões de seu pai se certificavam de fornecer ao rei caçadas abundantes, justas e outros meios de entretenimentos, nada parecia corresponder aos esforços que os súditos da rainha Elizabeth tinham para divertir sua ilustre visitante. Os cortesãos ricos tentaram se superar como anfitriões da Virgem Rainha e tiveram muitas oportunidades para isso. Somente no seu primeiro retiro no verão, em 1575, Elizabeth visitou 41 de seus súditos.

Quando a monarca chegou ao castelo de Kenilworth em 1575, ela foi recebida com um concurso dramático que incluía alguns efeitos especiais muito avançados. Durante os dias de permanência da rainha, a casa do conde oferecia espetáculos com fogos de artifício, caça de veados e até mesmo a apresentação de um acrobata italiano excepcionalmente ágil.

Entretanto, às vezes, as tentativas dos anfitriões de agradar seus convidados reais podiam dar terrivelmente errado. Uma simulação de batalha travada pelo conde de Warwick durante a estadia da rainha no castelo de Warwick terminou com balas de canhão caindo em uma vila próxima, o que incendiou várias casas por lá.

Por fim, também esperava-se que os anfitriões de Elizabeth não apenas gastassem generosamente em suas acomodações e entretenimento na corte, como também deviam dar à rainha presentes para agradecê-la pela honra de sua estadia.


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