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Maria Auxiliadora: a santa do narcotráfico

Traficantes colombianos faziam promessas para um bom negócio

Ramon Botifa Publicado em 14/06/2019, às 08h00

Pablo Escobar acreditava na intercessão em favor de seus negócios
Pablo Escobar acreditava na intercessão em favor de seus negócios - Redação AH

Durante muitos anos, o padre Ramón Arcila foi o pároco do Santuário de Maria Auxiliadora (María Auxilio de los Cristianos, em espanhol), em Sabaneta – cidadezinha da região metropolitana de Medellín, segunda maior cidade da Colômbia, depois de Bogotá.

Era idolatrado pelos seus paroquianos, aos quais, acreditava-se, havia curado de cânceres, gagueira, paralisias e problemas econômicos. Sua fama aumentou ainda mais quando, durante uma missa, o rosto da santa surgiu no altar diante do testemunho de todos os fiéis presentes no santuário.

Devotos fiéis

Mesmo no auge de sua popularidade, Ramón Arcila não pôde conter o espanto quando começou a receber estranhos pedidos dirigidos a ele e, principalmente, a Nossa Senhora Auxiliadora.

“Os traficantes pediam, por exemplo, que o carregamento de cocaína chegasse bem aos Estados Unidos, e os pistoleiros, que tivessem boa pontaria e coragem”, conta o jornalista colombiano Alonso Salazar, autor de uma biografia sobre Pablo Escobar, o chefão do Cartel de Medellín, para o qual a maioria dos traficantes e pistoleiros trabalhavam.

Logo Nossa Senhora Auxiliadora se transformou na Virgem dos Sicários, ou padroeira dos assassinos. Estes iam até ela e, esperançosos, imploravam e faziam promessas pelo sucesso de seus negócios. Caso fracassassem, pediam que ela lhes garantisse uma morte rápida e indolor.

O próprio Pablo Escobar e sua família frequentavam a igreja. Quando tinham sucesso, o que significava o assassinato de alguém ou a venda bem-sucedida de drogas, voltavam à igreja, acendiam velas em agradecimento, confessavam, comungavam e, principalmente, doavam dízimos à paróquia.

Embora a Colômbia, e em especial a região de Medellín, tenha forte tradição católica, naturalmente não eram apenas os sicários que sustentavam a fé em Nossa Senhora Auxiliadora. Mas, conforme diz Alonso Salazar, eles tiveram papel importante no aumento da religiosidade local. “Os narcotraficantes foram os evangelizadores de Medellín nos anos 1980”, afirmou em entrevista a revista La Semana, de Bogotá.

E o que fez a população buscar socorro em Nossa Senhora Auxiliadora foi o horror de ver a morte violenta, na década de 1980, de 300 mil jovens da região.