Curiosidades Idade Média

“Moreno”: a palavra nasceu como uma grave ofensa

No século 16, ser chamado assim era ser classificado como classe inferior inimiga da fé, com sangue “poluído” e alvo da Inquisição

quinta 3 maio, 2018
Ilustração para Otelo, de Shakespeare
Ilustração para Otelo, de Shakespeare Foto:Wikimedia Commons

"Moreno" vem de "mouro" - nome que os espanhóis e outros europeus davam aos habitantes de todo o norte da África, excluindo o Egito. Reinos islâmicos desses povos dominaram a Península Ibérica entre os séculos 8 e 15, de forma que mouros eram uma visão bastante comum em Portugal e na Espanha medievais.
 
Os habitantes da região eram de ao menos três perfis étnicos: berberes, árabes e negros, ou qualquer mistura entre eles. O nome "mouro", por sua vez, vem de Mauritânia, que era como os antigos romanos e gregos chamavam a região que estava entre a Argélia e o Marrocos, por causa de uma extinta tribo berbere chamada Mauri. Daí deriva também o nome do país atual, que fica ao sul do lugar que os romanos chamavam Mauritânia - e também o nome Mauro, para quem nascia na região. 

A elite cristã de Portugal e da Espanha, que reconquistou a Península Ibérica entre os séculos 9 e 15, descendia dos visigodos, um povo germânico que se estabeleceu na região na época das invasões bárbaras do Império Romano. Assim, uma aparência mais escura, de pele ou cabelo, era relacionada aos mouros.

Mouros  Wikimedia Commons

 As pessoas com essas características foram chamadas de "morenos", cujo sentido era bastante pejorativo em sua origem. Nos séculos 15 e 16, ser considerado descendente de mouros (ou de judeus sefarditas, que também tinham a pele mais escura) fechava quase todas as possibilidades de ascensão social em Portugal e na Espanha - e podia significar até ser perseguido pela Inquisição. 

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Alvo

Os maiores alvos da Inquisição eram os cristãos-novos, aqueles que haviam se convertido do judaísmo ou islã. Em 1492, os judeus e islâmicos receberam a ordem da rainha da Espanha: ou se convertiam, ou se mudavam, ou morriam. Por séculos, perdurou a paranoia, geralmente infundada, de que eles continuaram a praticar suas religiões originais em segredo. E a Inquisição era responsável por estudar esses casos - com os métodos e objetividade que fizeram sua fama. Ser moreno marcava alguém como alvo para esse tipo de investigação.

Esse racismo também aparece na expressão "sangue azul": a pele pálida mostra as veias azuis sobre ela; a morena (ou bronzeada, como a dos trabalhadores braçais), não. Os nobres de ascendência germânica, que passavam seus dias enfurnados nos castelos, tinham assim o "sangue azul". Existiam inclusive "leis de limpeza de sangue" tanto na Espanha quanto em Portugal. Para alguém assumir um cargo público, tinha que provar não ser descendente de cristãos-novos - isto é, um moreno. E, diante disso, as famílias nobres e abastadas se segregavam, jamais aceitando casamentos com morenos.

"Moreno" era um termo tão ofensivo que deu na origem da palavra "pardo". Essa foi a tese defendida por Frederico Leonel da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Segundo ele, quando os índios foram descobertos, os portugueses entraram num dilema com o uso da palavra "moreno".

"Designar o índio como como moreno era o mesmo que mouro", comenta. "Se assim tivesse sido, prontamente os índios estavam condenados. No entanto, a nova terra evocava a visão edênica, o paraíso, e, pese a coloração da pele, tal descrição, de moreno, mostrava-se incompatível, uma vez que notou e citou, os habitantes daqui eram incircuncisos, portanto, embora houvesse uma semelhança na pigmentação, eram completamente opostos aos mouros inimigos da fé. Daí a escolha de pardo, para denotar uma tonalidade de pele diferente à branca, mas nem negro e muito menos menos moreno."

Fábio Marton


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