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A morte do Palestra e o nascimento do Palmeiras

Em meio aos conflitos da Segunda Guerra Mundial, a pressão popular fez com que diversas instituições mudassem de nome

José Renato Santiago Publicado em 27/06/2021, às 11h00

Fotografia de torcedores do Palmeiras em pré-jogo
Fotografia de torcedores do Palmeiras em pré-jogo - paulisson miura/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

Durante os primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, oficialmente iniciada em 1° de setembro de 1939, o Brasil, governado pelo presidente Getúlio Vargas, assumiu uma postura neutra. O país manteve-se firme nesse propósito até 22 de março de 1941, quando, próximo à costa egípcia, o navio Taubaté foi atacado por aviões da Luftwaffe, a força aérea da Alemanha Nazista, provocando a morte do primeiro brasileiro na guerra e deixando feridos outros 12 tripulantes.

A tomada de decisão só se confirmou praticamente um ano depois, em 28 de janeiro de 1942, quando o governo brasileiro rompeu relações diplomáticas com os países do Eixo. A partir de então, os ataques às embarcações brasileiras passaram a ser frequentes.

A vingança veio em 11 de março de 1942, quando Vargas assinou o Decreto-Lei nº 4.166, que em seu artigo 1º decretava que “os bens e direitos dos súditos alemães, japoneses e italianos, pessoas físicas ou jurídicas, respondem pelo prejuízo que, para os bens e direitos do Estado Brasileiro, e para a vida, os bens e os direitos das pessoas físicas ou jurídicas brasileiras, domiciliadas ou residentes no Brasil, resultaram, ou resultarem, de atos de agressão praticados pela Alemanha, pelo Japão ou pela Itália”.

Era uma ideia popular. A revolta por conta dos ataques sofridos teve impacto junto às instituições originárias de países do Eixo. No âmbito do futebol, passou a haver intenso clamor popular contrário a essas entidades e uma forte pressão oficial para que mudassem seus nomes. Em Belo Horizonte, a Sociedade Esportiva Palestra Itália foi rebatizada como Cruzeiro Esporte Clube.

Fotografia do time do Palestra Itália em meados de 1916 / Crédito: Domínio Público

 

Já em São Paulo, o Sport Club Germânia, fundado pelo alemão Hans Nobiling, passou a se chamar Esporte Clube Pinheiros. Engana-se, no entanto, quem pensa que esta ação, de natureza xenofóbica, tenha se restringido aos países inimigos na guerra. O São Paulo Athletic Club, de origem britânica, se aportuguesou para Clube Atlético São Paulo.

Em Santos, o Hespanha Foot Ball Club mudou sua denominação para Jabaquara Atlético Clube. A mudança mais marcante atingiu um homônimo ao clube mineiro, a Sociedade Esportiva Palestra Itália. Dias depois do decreto, a equipe de origem italiana tirou o vermelho de seu distintivo, tornando-se plenamente alviverde, bem como a letra I, de Itália, e passou a se chamar Sociedade Esportiva Palestra de São Paulo.

As mudanças não foram suficientes. Palestra, entenderam, seria um termo italiano — um clamoroso equívoco, uma vez que é uma palavra de origem grega, cujo significado é “praça esportiva”. A pressão para nova mudança de nome persistiu e continuou forte por conta da influência do diretor de esportes da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, Sílvio de Magalhães Padilha.

Ele contatou um sergipano, torcedor do Vasco, o capitão do Exército Adalberto Mendes, para interceder junto aos dirigentes palestrinos, sob pena de perda do patrimônio. Mendes acabou nomeado como um dos vice-presidentes do clube e virou uma espécie de guardião do Palestra. Após novo ataque aos navios brasileiros, em 15 de agosto, Getúlio Vargas assinou no dia 31 do mesmo mês o Decreto 10.358, através do qual o país declarava estado de guerra aos países do Eixo.

Fotografia do time do Palmeiras em 1960 / Crédito: Domínio público/ Acervo Arquivo Nacional

 

A mudança entrou num caminho irreversível. Em 14 de setembro daquele ano, durante reunião da diretoria palestrina, muitos nomes foram cogitados, dentre eles, “América”, “Brasil”, e outros tais como “Paulista” e “Piratininga” — que permitissem manter, ao menos o P de Palestra. Já era madrugada, quando Mário Minervino bradou: “Não nos querem Palestra, pois seremos Palmeiras e nascemos para ser campeões”.

Eis que surgiu a Sociedade Esportiva Palmeiras, mantendo o P inicial do antigo nome e homenageando, de certa forma, uma equipe alvinegra já extinta, a Associação Atlética das Palmeiras, com a qual sempre manteve um bom relacionamento. Há relatos que justificam a adoção do nome por ela ser de uma árvore tipicamente brasileira.

A primeira partida do clube com o novo nome aconteceu em 20 de setembro de 1942, no estádio do Pacaembu, em jogo decisivo pelo Campeonato Paulista, frente ao São Paulo. Os atletas alviverdes entraram em campo carregando a bandeira brasileira, tendo à sua frente o capitão Adalberto Mendes. Para um público superior a 45 mil pessoas, o Palmeiras teve uma atuação exuberante, e, ao vencer o tricolor por 3 a 1, conquistou seu nono título paulista, o primeiro com sua nova identidade.

A trajetória sob o novo nome entrou para a História como Arrancada Heroica, que hoje batiza uma passarela próxima ao Parque Antártica. Nas palavras do então técnico Armando Del Debbio: “O Palestra morre líder. O Palmeiras nasce campeão”.


Por José Renato Santiago, Doutor e mestre pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo com pós-graduação pela ESPM. Autor de livros sobre a história do futebol, gestão do conhecimento e capital intelectual.


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