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A morte que abalou a Democracia: 5 fatos sobre a doença oculta de Tancredo Neves

“No Brasil, não basta vencer a eleição, é preciso ganhar a posse!” Esta era a lição que o presidente eleito aprendera Com Vargas, evitando se internar no hospital com Figueiredo no poder

André Nogueira Publicado em 10/05/2020, às 10h00

Tancredo Neves
Tancredo Neves - Wikimedia Commons

Tancredo Neves foi um dos mais marcantes políticos da história brasileira. Passando pelo governo Vargas, pelo Parlamento após o primeiro golpe contra Jango, foi quadro central do MDB e, finalmente, por eleição indireta durante o processo de abertura da Ditadura Militar, eleito presidente. Aliado ao projeto da Aliança Democrática, ele se relacionou com a dissidência da ARENA e colocou o ex-UDN José Sarney no cargo de vice.

Porém, diante da crise e das incertezas da passagem de João Figueiredo para uma autoridade civil no governo, Tancredo morreu por conta de uma complicação cirúrgica pouco tempo antes de sua posse em 1985, devido a uma infecção generalizada no combate a um possível tumor.

A morte de Tancredo Neves possui um forte elemento conspiratório, sendo que muitos acreditam que ele foi deliberadamente assassinado. Figura polêmica, associado essencialmente à luta pela democracia, mas marcado pela conciliação com medidas golpistas, ele deixou sua marca na História e, principalmente, no povo, que tem em sua figura uma confiança gigantesca.

Conheça 5 fatos importantes sobre a doença que matou Tancredo Neves.

1. Mal de tempos

Velório oficial de Tancredo / Crédito: Wikimedia Commons

 

No dito popular, Tancredo morreu do famoso “nó nas tripas”, ou seja, um mal gerado por obstruções no trato intestinal causado por uma infecção em meio a uma cirurgia no Hospital de Base de Brasília. As suspeitas de assassinato foram muitas, e até de que seu mal fora inventado, porém, isso não poderia ser verdade. Tancredo sofria com efemeridades ligadas aos problemas digestivos há mais tempo.

O presidenciável teria começado a sofrer com dores no abdómen desde junho de 1984, mais de um ano antes da complicação. É relatado que desde essa época, o político sofria com mal-estar e dores na barriga. Seu neto e também político Aécio Neves foi um dos responsáveis por acompanhar o consumo de antibióticos e analgésicos antiinflamatórios, antes do quadro piorar. A crise que o obrigou a ser internado só ocorrera sete meses depois das dores mais agudas.


2. Erros médicos?

Tancredo doente / Crédito: Getty Images

 

Após a internação do eleito presidente na UTI em Brasília, a equipe responsável pela preparação e para a cirurgia de Tancredo cometeu uma série de tropeços e erros. Já no começo, houve uma discussão, que se estendeu além do tempo esperado, para saberem onde seria o local mais apropriado para a realização da cirurgia. Além disso, registra-se que mais de 30 pessoas ocupavam a sala de cirurgia durante o procedimento, fato que pode aumentar o risco de infecção do paciente.

Finalmente, quando foi anunciado o final da cirurgia, declarou-se que ela fora um sucesso, com a divulgação do laudo descrevendo a remoção de um divertículo, coisa que diminuiria a gravidade da situação.

Porém, o dado era mentiroso: na verdade, fora retirado um tumor de seis centímetros do intestino, sem conhecimento da família (que os médicos disseram estarem cientes e de acordo com tudo). Segundo o médico Élcio Miziara, autor da biópsia, o falso laudo foi feito para não causar pânico, mas fato é que tudo deixou o caso ainda mais suspeito.


3. Coração de Estudante

Tancredo Neves / Crédito: Wikimedia Commons

 

Tancredo era muito popular no país e, principalmente, em sua terra natal, Minas Gerais. Seu estado também é berço de uma das conjunturas artísticas mais icônicas do Brasil: o Clube da Esquina e, especialmente, Milton Nascimento. Seu principal parceiro musical, Wagner Tiso, compôs uma música em 1983 chamada Coração de Estudante, originalmente em homenagem a outro mineiro da política: o senador símbolo das Diretas Já!, Teotônio Vilella.

Porém, na voz de Milton, a canção se tornou uma espécie de hino patriótico em homenagem a Tancredo, que declaradamente amava Coração de Estudante. Com o anúncio da doença do político, a música passou a circular pelo país como forma de louvação e pedido de melhora para o presidente eleito. Sua melodia era constantemente reproduzida nas rádios e cantarolada pelas ruas nos anos 1980.


4. Posse em risco

Posse de Sarney / Crédito: Wikimedia Commons

 

Mesmo conhecendo suas efemeridades, Tancredo Neves decidiu, ainda em campanha, não anunciar a doença, nem se permitir entrar na sala de cirurgia. Seu maior medo era que a Linha Dura do regime militar impedisse a passagem do poder a Sarney no caso de alguma complicação que o impedisse de assumir. Segundo ele, a regra para as transições teria sido explicada por Getúlio Vargas a ele: “no Brasil, não basta vencer a eleição, é preciso ganhar a posse!”.

Então, Tancredo decidiu que só anunciaria publicamente sua doença no dia da posse como presidente, marcada para o dia 15 de março daquele ano, quando já estivesse prontamente em Brasília. Sua preocupação em conter uma ruptura política, porém, não se concretizou: mesmo com sua morte, as pressões sobre os militares não permitiram que Sarney fosse golpeado.


5. Foto mórbida

Foto icônica / Crédito: Divulgação

 

Antes da crise que levou o presidente ao hospital, tentou-se impedir a divulgação de que o político estava mal — principalmente para impedir mobilizações e comoção naquele cenário instável. Em 1985, então, o fotojornalista Gersávio Batista, que voara para Brasília para captar imagens do presidente no pós-cirurgia, foi indicado para divulgar imagens que tranquilizassem o país.

Então, cercado de médicos, Tancredo Neves foi retratado com a cabeça meio caída, sentado em sua casa. O intuito era criar um ar de alto-astral, como se ele tivesse se recuperando. Porém, o efeito foi contrário: mórbido e cadavérico, o rosto frio do presidente não enganou ninguém.

A fotografia só impulsionou mais boatos sobre a conspiração, sendo que muitos acreditavam que ele já havia falecido. Ainda não estava morto, mas claramente ele não estava bem: três horas depois, Tancredo estava indo em direção ao hospital, em crise hemorrágica.


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