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Música e resistência: As batalhas cantadas por Elza Soares

Em anos de carreira, a cantora, que faleceu nesta quinta-feira, 20, defendeu as mulheres, a negritude e a comunidade LGBTQIA+

Pamela Malva Publicado em 20/01/2022, às 19h30

Fotografia de Elza Soares
Fotografia de Elza Soares - Divulgação/ @elzasoaresoficial

“Cadê meu celular?/ Eu vou ligar pro 180/ Vou entregar teu nome/ Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim.” Na canção ‘Maria de Vila Matilde’, lançada em 2015, Elza Soares deu voz às mulheres que sofrem diáriamente com a violência doméstica.

Tendo ela mesma sido vítima de uma relação violenta com o jogador Garrincha, a grande cantora — que tragicamente faleceu nesta quinta-feira, 20, aos 91 anos — fazia questão de defender e abordar temas sobre as mulheres em suas obras.

Mais ainda, apesar da Ditadura Militar e do racismo, a icônica artista continuou fazendo músicas sobre as mazelas da sociedade, com letras que não apenas falam sobre, como ainda enaltecem pautas de negritude e da comunidade LGBTQIA+.

Punhos erguidos

Em meados de 2016, no ano seguinte ao lançamento do álbum ‘A Mulher do Fim do Mundo’, Elza falou sobre as músicas presentes na obra, em entrevista à Revista Quem — além da potente ‘Maria de Vila Matilde’, o disco ainda conta com a faixa ‘Benedita’.

Ao falar das canções, então, a artista, que sempre disse ser defensora “das mulheres, dos gays e da negritude”, afirmou que ‘Maria de Vila Matilde’ é a que mais lhe representa. “É uma letra muito forte. Ela me deixa tombada. É a minha história”, explicou.

Ainda mais, questionada sobre o tema abordado na canção — que narra uma mulher denunciando seu agressor ao serviço Ligue 180 — Elza afirmou que a faixa “dá um grito de liberdade” para todas que se encontram em uma relação violenta.

“A mulher tem que denunciar. Não existe mais isso de apanhar calada, pelo amor de Deus!”, explicou a cantora, então aos 78 anos. “A denúncia está aí, o 180 está aí, a boca está aí para gritar. Vamos gritar nas horas ruins e gemer só na hora boa!”

As mulheres têm que denunciar. Esses dados são tristes. Fico muito chocada ao saber que, em 2016, ainda há esse tipo de agressão. Não é brincadeira. E a maior parte é sofrida pela mulher negra”, lamentou, ainda durante a entrevista.

Preconceito e resistência

‘Benedita’ é outra faixa que Elza fez questão de acrescentar no disco de 2015. Com participação de Celso Sim, a canção aborda as vivências de uma mulher transexual: “Ele que surge naquela esquina/ É bem mais que uma menina/ Benedita é sua alcunha”.

“‘Benedita’ reafirma que a mulher, inclusive a transexual, está aí para ser respeitada. Basta de homofobia, de transfobia”, narrou Elza, ao ser questionada sobre a faixa. “Pelo amor de Deus, isso precisa parar! Eu tenho um trabalho muito forte a favor das mulheres, da negritude e dos LGBTQ. A música dá mais esse grito para as mulheres.”

Mais tarde, em 2018, Elza ainda lançou seu 33º álbum, ‘Deus é Mulher’, com canções como ‘Exu nas Escolas’ e ‘Deus Há de Ser’. Por fim, no ano seguinte, a cantora lançou aquele que seria seu último disco, ‘Planeta Fome’ — cujo título foi inspirado em uma interação com Ary Barroso, em 1953 — com as faixas ‘Brasis’ e ‘País dos Sonhos’.

Em 2016, questionada sobre os obstáculos que enfrentou em sua carreira, Elza afirmou que já não sentia mais qualquer rejeição. “Acho digno como me tratam. Sempre lutei para isso. E como mulher negra, me sinto muito bem com o que conquistei. Ainda falta muito, mas estou feliz. Temos muito chão para correr, mas estamos no caminho certo…”