Curiosidades » Hollywood

Nove e Meia Semanas de Amor: a sádica experiência passiva-agressiva por trás do drama erótico

Longa dirigido por Adin Lyne deixou a atriz Kim Basinger a beira do seu limite físico e emocional

Fabio Previdelli Publicado em 21/03/2020, às 13h00 - Atualizado às 16h00

Kim Basinger em cena de Nove e Meia Semanas de Amor
Kim Basinger em cena de Nove e Meia Semanas de Amor - Divulgação

“A pior experiencia de minha vida”, teria sido essa frase que a atriz Kim Basinger falou para seu agente após sair do teste para entrar no elenco do filme Nove e Meia Semanas de Amor, de 1986.  

Se sentindo humilhada, ela não queria mais se envolver naquela produção e fez o caminho de volta até sua casa sem parar de chorar por um momento enquanto dirigia seu carro.

Porém, para sua surpresa, ao chegar em sua residência, ela se deparou com 24 rosas vermelhas acompanhadas de um bilhete assinado por Adin Lyne, diretor do longa, e por seu parceiro de cena, Mickey Rourke. Ela mal sabia, mas a partir dali se iniciava um intenso e perverso jogo passivo-agressivo que mexeria com seu psicológico dentro e fora de cena. 

Kim Basinger em cena de Nove e Meia Semanas de Amor / Crédito: Divulgação

 

Nessa época, a atriz já era conhecida por ser a bondgirl em 007 – Nunca Mais Outra Vez e por também estampar a capa da playboy de fevereiro de 1983. Nove e Meia Semanas de Amor era baseado na história real da Ingeborg Day. 

Na obra, ela relata como fugiu de sua pacata vida com uma mulher casada e professora em Wisconsin para se aventurar, em Manhattan, com um homem desconhecido que a apresentaria aos prazeres do sexo sadomasoquista. A experiencia, como o próprio nome do filme sugere, durou nove semanas e meia de subalternidade física e emocional. No fim, ela teve que largar tudo isso para se salvar.

Além de Kim, no teste também participaram as atrizes Jacqueline Bisset, Isabella Rosselini e Kathleen Turner. O estúdio até preferia uma protagonista mais conhecida entre o grande público, mas ninguém tinha o que Basinger manifestou: ela foi a única que recusou ser submissa.

O teste da atriz foi na seguinte cena: Mickey — que era o único a receber instruções do diretor — jogaria notas de dinheiro no chão e Kim, que precisaria fingir ser uma prostituta, iria recolhe-las enquanto andava de quatro pelo espaço. Depois disso, ela tiraria toda a roupa e se renderia ao que o ator propusesse. Sobre o ato, ela, que tinha 33 anos quando o filme foi produzido, declarou que tudo "foi muito sexual e muito estranho. [Eu] só queria me levantar e sair correndo".

Mickey Rourke e Kim Basinger em cena de Nove e Meia Semanas de Amor / Crédito: Divulgação

 

Kim deixou o quarto furiosa e foi nesse momento que Lyne ligou para o agente da atriz e o informou que ela havia conseguido o papel. “Acontece que Adrian queria que eu reagisse exatamente como reagi, porque a personagem de Elizabeth era assim. Uma mulher que não entrava no jogo, mas ingênua e transformada depois por um homem no que ele queria dela. Essa é a história verdadeira de Nove e Meia Semanas de Amor”, declarou Basinger em uma entrevista posterior.

Já nas filmagens, o diretor seguiu “quebrando” — expressão que ele mesmo usou — a atriz. As cenas seriam filmadas em ordem cronológica, assim, segundo ele, os protagonistas provariam a mesma degeneração sexual que seus personagens viveram na vida real. Além disso, a dupla também foi impedida de conversar fora do set de filmagem. “Ela precisava ter medo dele. Se saíssem para tomar um café juntos, perderíamos essa tensão”, declarou Adin.

O diretor disse que no teste de elenco de Kim, houve uma hostilidade tão grande eles — além de uma energia sexual tamanha entre os atores —, que ele não queria que a relação entre a dupla se desenvolvesse sem que ele estivesse presente. Kim Basinger deveria viver no limite do terror, como se sua personagem vivesse realmente tudo aquilo o que passou a protagonista da história original.

Toda vez em que uma cena não tivesse o andamento desejado, Lyne decidiu que só passaria recomendações para Rourke. Sobre a prática, técnicos de filmagem discutiam se o sadismo do diretor não estava indo longe demais. Eles, inclusive, reconheceram, posteriormente, que todo jogo de manipulação emocional dava raiva e desespero e que Kim sofria genuinamente para que as câmeras a flagrassem “cruamente”.

Quando última cena do roteiro foi filmada, a personagem da atriz viveria o auge de seu limite físico e emocional. Mas, neste dia, Basinger chegou na gravação mais deslumbrante do que nunca.

Ela teria que ser “quebrada” novamente. Após as orientações passadas pelo diretor, Rourke segurou a atriz pelo braço com tanta força que nem mesmo após gritos, socos e o choro vindo da atriz ele a soltou. Ele só desistiu depois de tomar uma bofetada na cara. Defronte do pânico, Lyne disse: “Vamos filmar a cena agora”.

Após o filme, Kim declarou que não queria se encontrar com mais ninguém que havia participado das gravações. “Se chegasse a encontrar com o cara que me trazia o café, eu o teria matado”.

Em contrapartida, o diretor disse que estava ajudando com toda sua tortura passivo-agressiva. “Não foi agradável, mas foi útil. Kim é um pouco como uma menina. É inocente. Isso é parte de seu atrativo. Ela se tornou sua personagem durante dez semanas, não estava interpretando. Para deixá-la irritada, eu ficava agressivo com ela, e ela ficava agressiva comigo. Mickey também tinha de assustá-la de propósito. Kim não é uma intelectual, não lê livros. Na realidade, não atua, apenas reage, uma qualidade que Marilyn Monroe também tinha”.

Mickey Rourke e Kim Basinger contracenando em Nove e Meia Semanas de Amor / Crédito: Divulgação

 

Mas, no fim, ela acabou concordando com ele. “Seria difícil decidir se voltaria a fazer [o filme], mas, no final, teria que dizer sim. Houve momentos em que quis abandonar tudo, em que me perguntava se [Adrian Lyne] era um homem doente ou se todos estávamos doentes por nos prestar a isso. Mas, no final, enfrentei meu medo e passei por isso”.

"Todas as atrizes deveriam experimentar algo assim, saí mais forte do que em toda a minha vida", concluiu.

Nove e Meia Semanas de Amor passou 18 semanas em processo de montagem — em meio a burburinhos que nenhum estúdio distribuiria uma produção tão sexualmente perturbadora com esta. De fato, era assim que muito que assistiram às exibições testes se sentiam, onde de cada 1.000 espectadores, somente 40 permaneciam até o final da pelicula.

Por fim, a última cena acabou sendo cortada porque, de acordo com Adrian Lyne, o público "odiava Mickey por fazer isso, Kim por deixarem fazer isso com ela, a mim por filmá-la e o filme inteiro".


++ Saiba mais sobre a história do cinema por meio das obras disponíveis na Amazon:

A história do cinema para quem tem pressa: Dos Irmãos Lumière ao Século 21 em 200 Páginas!, Celso Sabadin, Ebook - https://amzn.to/370Fy8R

A Arte do Cinema: uma Introdução, David Bordwell, 2013 - https://amzn.to/2SscgdZ

História do Cinema: Dos Clássicos Mudos ao Cinema Moderno, Mark Cousins, 2013 - https://amzn.to/380qyZP

O livro do cinema, diversos autores, 2016 - https://amzn.to/376HgW0

Tudo sobre cinema, Philip Kemp. 2011 - https://amzn.to/2S4JqBm