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O canto das musas: a poesia de Hesíodo

Apesar de Hesíodo não ser considerado profeta, a teogonia se tornou uma base da consciência religiosa

Coluna: Danilo Bernardino Publicado em 14/03/2021, às 09h00

Representação de Hesíodo
Representação de Hesíodo - Wikimedia Commons

"Primeiro nasceu o Caos." É com essas palavras que Hesíodo, orientado por nove deusas irmãs, as chamadas musas, começa o hino dedicado a instruir a todos sobre a origem dos deuses e toda a organização do Cosmos (teogonia), o que faria dele o pai grego da poesia didática, ou instrutiva.

Heródoto em seu livro dois deixa evidente a influência decisiva de Hesíodo sobre o pensamento grego, afinal, antes dele os gregos não ou pouco conheceriam os deuses, seus nomes e suas histórias.

Apesar de Hesíodo não ser considerado profeta e seu texto não ter um caráter dogmático, a teogonia se tornou uma base da consciência religiosa helênica. Pouco se sabe sobre o poeta, sobre seus objetivos e suas referências, sabe-se apenas o que se pode extrair de seus dois trabalhos sobreviventes: Teogonia – A Origem dos Deuses e Os Trabalhos e os Dias.

Pode-se dizer com alguma segurança que teria nascido (séc. 8 a.C.) e vivido toda a sua vida na Beócia (região situada na Grécia central), que teria um irmão chamado Perses (com quem teria entrado em conflito como exposto em Os Trabalhos e os Dias) e que não gostava de viagens marítimas, o que teria feito apenas uma vez para participar de um concurso de poesia na ilha grega de Eubeia.

Hesíodo teria vivido na mesma época de outro grande poeta grego, este mais conhecido por suas narrativas envolventes e menos sistemáticas, Homero, durante o chamado período arcaico grego.

Nesse distante período, antecessor ao famoso período clássico, fundamentos importantes da vida helênica ainda ganhavam forma: o alfabeto grego ainda não se constituíra por completo, não havia circulação de moedas e as famosas poleis ainda não haviam tomado as suas feições mais conhecidas.

Nesse cenário, é essencial recordar a presença da tradição oral em um mundo grego ainda sem escrita que se utilizou da memória para a transmissão do conhecimento e das práticas por séculos.

Assim, na poesia de Hesíodo marcas dessa oralidade são perceptíveis a partir de frases que se combinam e sequências narrativas que se associam, isto é, técnicas que auxiliavam a memorização daqueles que transmitiam histórias através da palavra falada, os chamados aedos ou rapsodos, como Hesíodo.

Em Teogonia, Hesíodo diz ter sido interpelado pelas musas quando pastoreava as suas ovelhas aos pés do monte Hélicon e delas recebido uma revelação acerca da natureza dos deuses.

As musas, segundo a tradição hesiódica, são fruto da relação entre Zeus e Mnemosine (Memória) durante nove noites. As nove irmãs com suas belas vozes e dança entretêm os deuses com suas histórias, dando voz assim à memória, sua progenitora, como fariam os aedos no plano mortal.

Segundo as musas, no início havia apenas os deuses primordiais, o Caos (o próprio vazio), a Terra (a base de tudo que há), e o Tártaro (um abismo infinito que teria a mesma distância da terra que a terra tem em relação ao céu).

Além destes, interessante notar que Hesíodo acrescenta mais um elemento entre os seres fundamentais, aparentemente menos monumental, mas sem o qual não poderia haver a geração da vida, isto é, o desejo astuto, perverso e inconsequente que se configura em suas façanhas como o motor do mundo mediante a promoção de uniões e transformações de tudo que existe, Eros, o próprio amor.


++ Danilo Bernardino é mestre em História pela Universidade de Brasília e professor de História da secretaria de educação do Distrito Federal.


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