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O caso Césio-137: 5 fatos cruciais sobre o pior acidente nuclear do Brasil

O desastre, que só fica atrás de Chenobyl e Kyshtym, infectou milhares de pessoas em Goiânia no fim de 1987

Fabio Previdelli Publicado em 13/05/2020, às 17h00

Imagem ilustrativa do Césio-137
Imagem ilustrativa do Césio-137 - Divulgação Youtube

Em 13 de setembro de 1987, dois catadores de lixo de Goiânia iniciaram, sem saber, um dos piores acidentes radioativos do mundo: o caso Césio 137, que só fica atrás — em número de vítimas fatais — para os eventos ocorridos na usina de Chernobyl, em 1986, e em Kyshtym, na União Soviética, em 1957.

Segundo técnicos da Comissão Nacional de Engenharia Nuclear (CNEN), mais de 112.8 mil pessoas foram monitoradas (sendo que, 129 foram gravemente contaminadas) e, mais de seis mil toneladas de material contaminado foram encaminhados para um depósito especial.

Agentes retirando material radioativo / Crédito: Divulgação

 

Dados oficiais apontaram que quatro pessoas morreram devido à exposição ao elemento radioativo, entretanto, segundo dados da Associação de Vítimas do Césio-137, esse número é maior e chega a 80 óbitos.

Mas como tudo isso começou? Entenda o acidente envolvendo o Césio-137 a partir de cinco pontos principais:

1. Qual a origem do Césio-137 de Goiânia?

"O brilho da morte", como o elemento foi chamado por Devair Alves Ferreira, primeira pessoa a entrar em contato direto com a substância, foi encontrado pelos catadores de lixo Roberto dos Santos e Wagner Mota, que removeram partes de um aparelho usado no tratamento de câncer que era utilizado no Instituto Goiano de Radioterapia, que estava abandonado.


2. Venda ao Ferro-Velho

Segundo os próprios trabalhadores, eles tinham como objetivo arrombar a máquina e venderem o metal do equipamento para um ferro-velho local. E, assim, o aparato foi adquirido por Devair Alves Ferreira.

A cápsula de onde saiu o Césio-137 / Crédito: Comissão Nacional de Engenharia Nuclear

 

Devair abriu a máquina e entrou em contato direto com quase 20 gramas do Césio-137. O dono do ferro-velho descobriu que o material emitia uma luz azulada em ambientes escuros e decidiu levar o pó para casa.


3. O início das contaminações

Curiosos pelo tal “brilho da morte”, Ferreira recebeu a visita de parentes, vizinhos e amigos que queriam ver a misteriosa luz azul. Posteriormente, as pessoas que entraram em contato com o material radioativo começaram a apresentar tonturas, náuseas, vômitos e diarreia.

No dia 19 daquele mês, seu irmão, Ivo, levou a substância para casa e uma porção de Césio-137 foi ingerido por sua filha Leide das Neves, de apenas 6 anos. Na semana seguinte, Odesson Ferreira, outro irmão de Devair, também entrou em contato com o material. O motorista de ônibus contaminou centenas de passageiros — a frente de seu veículo foi considerada uma alta fonte de propagação do produto.


4. A descoberta que o Césio-137 é uma substância radioativa

Semanas após a descoberta do pó dentro de um equipamento médico, os hospitais da região entraram em alerta pelo grande número de pessoas doentes que apresentam os mesmos sintomas.

Vítimas sendo examinadas / Crédito: Divulgação

 

Então, a esposa de Devair, Maria Gabriela, suspeitou que a onda de internações tinha alguma ligação com o material encontrado e levou a cápsula para inspeção da Vigilância Sanitária. Assim, o físico Walter Mendes foi chamado e descobriu que o conteúdo encontrado era uma substância radioativa.


5. Descarte em rio e descontaminação da cidade

Felizmente o físico chegou a tempo de impedir uma tragédia maior, afinal, os bombeiros planejavam jogar a cápsula dentro do rio Meio Ponte, principal fonte de abastecimento da cidade — o que poderia acarretar em um número de contaminados ainda maior.

Em 30 de setembro, técnicos da CNEN chegaram ao munícipio e, com a ajuda da polícia militar, iniciaram o processo de descontaminação da cidade. O material contaminado — que incluía roupas, utensílios, plantas, animais, restos de solo, matérias de construção e, até mesmo, a frente do veículo de Odesson — foi guardado em um depósito construído na cidade de Abadia de Goiânia, a 24 quilômetros da capital.

O enterro de Leide das Neves / Crédito: Divulgação

 

Centenas de pessoas que apresentavam os sintomas do contato com o césio foram colocadas de quarentena no estádio Olímpico, onde passaram por uma triagem para identificar o grau de contaminação.

Em 1996, a Justiça condenou, por homicídio culposo, sócios e um funcionário do hospital abandonado a três anos e dois meses de prisão. Mas as penas foram trocadas por prestação de serviços. Hoje, uma lei estadual garante as vítimas – que ainda correm risco de desenvolver câncer, o pagamento de uma pensão e assistência médica.


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