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O experimento da Balsa do Sexo — que de sexual não tinha nada

O projeto social tinha como objetivo avaliar os comportamentos violentos que poderiam ser desencadeados em uma situação de clausura, mas a realidade foi muito distante disso

Caio Tortamano Publicado em 27/06/2020, às 10h00

O barco Acali, utilizado no experimento
O barco Acali, utilizado no experimento - Divulgação - Fasad

Um anúncio em alguns jornais internacionais chamava a atenção de jovens aventureiros  de 1973, dizendo o seguinte: “Líder de expedição busca voluntários para cruzar o Atlântico em uma balsa, duração de 3 meses, homens e mulheres, de preferência casados, mas sem participação dos cônjuges, idade 25-40”.

Feito por um antropólogo que estudava comportamentos violentos em seres vivos chamado Santiago Genovés, o grupo escolhido continha quatro homens e seis mulheres. Destes 10, apenas quatro eram solteiros e praticamente todos tinham filhos, com nacionalidades, religiões e crenças todas diferentes.

Genovés acreditava que o barco construído em um modelo egípcio seria o melhor isolante para testar seus pacientes, queria saber como um grupo tão diverso conseguiria conviver em um ambiente confinado. 

A embarcação contava com 12 metros de comprimento e 7 de largura, com apenas um chuveiro e uma privada, todas ao ar livre, tendo que o usuário fazer suas necessidades na frente dos demais tripulantes.

Viagem

Não por acaso, os cargos mais importantes do barco foram dados todos às mulheres. A capitã da embarcação foi uma solteira sueca de 30 anos, Maria Björnstam, que comandou o barco quando ele saiu dia 13 de maio de 1973 de um porto em Las Palmas, nas Ilhas Canárias.

O destino era a terra natal do antropólogo, o México, mais especificamente a ilha Cozumel. O contato com o mundo externo era praticamente nulo, somente com um rádio para se comunicarem poucas vezes na semana com veículos de imprensa.

Já que pouco era dado para os jornalistas, muito era especulado, e as histórias mais mirabolantes começaram a aparecer insinuando que o barco contava com grandes orgias, com artigos publicando fatos pouco conclusivos a esse respeito. Um deles, inclusive, dizia que a capitã sueca trabalhava de biquíni, fazendo a fama do projeto como a balsa do sexo.

Por mais escabrosas que fossem as histórias, de fato alguns tripulantes faziam sexo na jangada, mas isso não chegou a gerar nenhum desconforto ou tensão demasiada entre o pequeno grupo, como era uma das questões de Genovés.

A tripulação do barco / Crédito: Divulgação - Fasad

 

Ele afirmou: "Estudos científicos com macacos mostraram que existe uma conexão entre violência e sexualidade, onde a maioria dos conflitos entre machos é consequência da disponibilidade de fêmeas que estão ovulando". O mexicano optou por selecionar entre os tripulantes um padre católico de Angola chamado Bernardo, para ver como ele reagiria em um ambiente em que o sexo era muito próximo.

Mas nem isso chegou a abalar muito a equipe como um todo. O maior desconforto que sentiram foi ao fim da viagem quando ficaram sabendo das narrativas, de certa forma, maldosas que eram propagadas em terra firme.

Violência

O sexo não era, de longe, o objetivo primordial do experimento. Muitas outras características das relações humanas queriam ser observadas, principalmente a violência e os conflitos que esse tempo em alto mar poderia gerar. Porém, o único momento mais tenso da viagem foi na presença de um tubarão.

Apenas um tripulante apresentou um crescimento em sua irritação, animosidade e certos tons de agressividade: o próprio sociólogo. Como ele conta em seus relatos: "Me dei conta que o único que havia mostrado qualquer tipo de agressividade ou violência na balsa tinha sido eu". Isso se deu muito pela frustração que sentia ao perceber que a experiência não desencadearia nenhum grande ato de violência.

Em um documentário chamado A Balsa, que conta justamente sobre esse experimento com a ajuda de seis dos tripulantes que ainda estão vivos, a engenheira americana Fe Seymour contou que todos estavam pensando a mesma coisa, “seríamos nós capazes de matar alguém desse barco?”.

O comportamento irritadiço do sociólogo o tornou insuportável, autoritário, e alguns participantes confessaram ter pensado em jeitos de matá-lo. A americana ficou chocada quando refletiu e pensou que algum deles realmente poderia ter o ímpeto de assassinar o criador do projeto. "Me dava medo pensar que chegaria ao ponto em que faríamos isso. Fiquei assustada. Como estávamos no mar, não é como quando você está em terra: nada era normal.".

Destino

Porém, nada de pior aconteceu. Todos os conflitos que foram gerados durante os 101 dias que levaram para cruzar o Atlântico foram resolvidos de forma pacífica, pelo diálogo. Assim que chegaram ao México, o grupo passou uma semana isolados para receber atendimento de médicos, psicólogos e psiquiatras, para passar por uma bateria de exames.

A experiência foi mais dolorosa para Genovés, que teve que lidar com duras críticas ao seu projeto feitas pelos navegantes e pela mídia, mas nada disso afetou sua carreira como antropólogo físico. Já para os voluntários, a jornada foi uma grande aventura que serviu para que eles criassem vínculos duradouros para além dos 101 dias.

O diretor do documentário A Balsa, Marcus Lindeen, ressalta que se o mexicano tivesse focado em outros aspectos da viagem, além dos questionários e situações que havia imposto poderia ter aprendido mais sobre as consequências da violência. Isso, pois, cada um deles tinha uma história para contar, muito antes do barco, a capitã Maria e Fe, por exemplo, fugiam, respectivamente, de um marido abusivo e do racismo.


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