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O holocausto contribuiu para a criação de Israel?

Fundado em 1948, o Estado de Israel tem raízes profundas — e controversas

Ramon Botifa e Joseane Pereira Publicado em 14/05/2020, às 08h00

Bandeira de Israel
Bandeira de Israel - Pixabay

Se existe uma lição filosófica inconfundível na criação do Estado de Israel, é esta: o significado de um fato histórico depende do olho de quem o vê. Para boa parte do mundo a fundação de Israel foi um feito heróico, uma proeza épica, a culminância de um sonho milenar. Para os árabes palestinos, no entanto, foi uma catástrofe. Até hoje, eles relembram o ano de 1948 como El-Nakba — a desgraça.

O sonho do retorno à Terra Santa ganhou ares de necessidade política na segunda metade do século 19, quando o antissemitismo crescia e perseguições multiplicavam-se pela Europa. Por volta de 1890, um grupo de intelectuais europeus de origem hebraica decidiu que seu povo só poderia sobreviver se pudesse governar a si mesmo - ou seja, criando um país.

O movimento ganhou o nome de sionismo (em homenagem a Sião, um dos antigos nomes de Jerusalém) e teve sua figura de proa no judeu austro-húngaro Theodor Herzl (1860-1904), que propôs a criação de um país soberano, governado e habitado por judeus, na antiga Terra Santa — que os árabes chamavam de Palestina.

Estado de Israel / Crédito: Divulgação

 

No final do século 19, havia cerca de 20 mil judeus na Palestina, cujos ancestrais haviam conseguido driblar a expulsão romana e conviver com os árabes ao longo de séculos. Após a ascensão do regime nazista em 1933, perseguindo judeus não só em casa, mas em todos os territórios conquistados, o número aumentaria vertiginosamente. Mais de meio milhão de judeus desembarcaram na região, vindos principalmente da Europa — muitos deles fugindo dos nazistas.

Em 1947, a ONU anunciou que a melhor maneira de decidir o impasse entre árabes e judeus era dividir a antiga província otomana em dois pedaços, a partir do Plano de Partilha: 55% da região ficaria com os judeus, e 45% com os árabes. Os conflitos decorrentes disso perduram até hoje.

Holocausto: causa ou consequência?

Existem diferentes pontos de vista para responder se o holocausto contribuiu o não para a criação do estado de Israel. Há quem garanta que sim, sem ressalvas. Outros relativizam a importância. E existe, também, uma leva de pensadores e estudiosos que veem no Holocausto motivo de atraso para a independência do povo Judeu.

Nessa lista encontra-se o coordenador do primeiro museu do Holocausto do Brasil, inaugurado em 2011, em Curitiba, Carlos Reiss. Segundo ele, análises que indicam ser o Holocausto o ponto nevrálgico da criação de Israel, como uma espécie de reparação do mundo pelas ações nazistas, não procedem.

“É preciso entender que a criação de Israel não nasceu com o Holocausto. O desejo é anterior e envolve questões religiosas, políticas e sociais. Desde o fim do século 19, sionistas se organizaram para retomar a Terra de Israel, influenciados pela onda de nacionalismos europeus. Durante os anos 1930, tensões e debates ocorreram com o objetivo de resolver o conflito. Em 1939 a solução parecia estar próxima, mas aí estourou a Guerra e tudo foi adiado.”

É inegável que o Holocausto, dentro do contexto de perseguição mobilizado na Alemanha Nazista, tenha fomentado a ida de milhares de judeus para o local. Entretanto essa luta tem origens mais antigas, e apenas a compreensão destas permite uma visão completa sobre a fundação do Estado de Israel.


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