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Além das Sombras do Holocausto: O país que desafiou Adolf Hitler

A Dinamarca foi a única nação ocupada pela Alemanha Nazista que resistiu à deportação de seus habitantes judeus. Entenda!

Silvia Lerner, historiadora, autora de 'Arte em Tempos de Intolerância: Theresienstadt' Publicado em 16/01/2022, às 09h00 - Atualizado em 18/02/2022, às 10h00

Soldados dinamarqueses durante a Operação Weserubung, na Segunda Guerra
Soldados dinamarqueses durante a Operação Weserubung, na Segunda Guerra - Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

“E nquanto o mal e o medo tomaram conta de quase toda a Europa, os dinamarqueses mantiveram sua humanidade e resgataram aqueles em perigo”, descreve a fotógrafa Judy Glickman Lauder em seu livro 'Beyond the Shadows: The Holocaust and the Danish Exception' (ou 'Além das Sombras: o Holocausto e a Exceção Dinamarquesa', em tradução para o português), que reúne retratos de judeus dinamarqueses, sobreviventes da Segunda Guerra Mundial, e de seus salvadores.

Entre 1912 e 1947, a Dinamarca foi governada pelo rei Cristian X (1870-1947), sendo o único país da Europa Ocidental ocupado pela Alemanha nazista capaz de se preocupar e salvar sua população judaica. Não por acaso, foi colocado no túmulo do monarca um bracelete usado pelos membros do Movimento de Resistência Dinamarquês.

Durante o Holocausto, milhões de pessoas permaneceram caladas enquanto viam judeus, outras minorias e tantos outros considerados “inimigos do Reich”, sendo confinados e deportados, excluídos da vida civil onde viveram durante décadas.

Muitos daqueles espectadores diziam para si mesmos que não tinham nada a ver com o que estava acontecendo: outros se sentiam amedrontados para oferecer ajuda. Em vários lugares, abrigar judeus era crime sujeito à pena de morte.

Apesar dos riscos, um pequeno número de indivíduos recusou-se a ficar inerte, sem fazer nada contra as injustiças e horrores praticados pelos alemães e seus colaboradores em vários países. E tiveram coragem para ajudar oferecendo abrigos, rotas de fugas subterrâneas, documentos falsos, alimentos, roupas, dinheiro e às vezes até mesmo armas. Isso aconteceu na Dinamarca.

O rei Cristian X cavalgando em Copenhage, na Dinamarca / Crédito: Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

A invasão

Na Dinamarca, após a Primeira Guerra Mundial, houve um consenso entre os sociais-democratas e os liberais sociais de que a população não precisava ser armada — algo que durou de 1929 até 1937. Porém, segundo o historiador Ian Dear, com a ascensão do nazismo, houve uma mudança de atitude e, a partir de 1937, ocorreu uma modernização nas Forças Armadas do país.

“Em abril de 1940 havia somente 14 mil homens no Exército dinamarquês, 8 mil dos quais estavam sendo treinados intensamente. A Marinha possuía 3 mil homens a serem treinados. A Força Aérea possuía 50 aviões, todos obsoletos", narrou ele.

Antes do início da Segunda Guerra, havia uma população na Dinamarca de 3,85 milhões de habitantes, tendo aproximadamente 7800 judeus. “Entre eles, 6 mil eram dinamarqueses nativos e o restante refugiados, de movimentos juvenis sionistas como Alia Há-Noar”, afirma Martin Gilbert em 'Holocausto'.

Porém, de 1934 a 1938, foram estabelecidas restrições a esses refugiados e a maioria acabou abandonando suas terras em busca de uma vida nova na Palestina. “Os preparativos de Hitler para a conquista da Dinamarca e Noruega foram um dos segredos mais bem guardados da Segunda Guerra. Parece que os dois países foram apanhados desprevenidos, não por não terem sido avisados do que estava por vir, mas por não terem acreditado nas advertências”, explica o autor e historiador William Shirer.

Dez dias antes da operação Weserubung — o golpe que originou a ocupação nazista na Dinamarca —, o coronel Hans Oster, chefe da Abwehr (Serviço de Informação do Exército Alemão), avisou seu amigo próximo, coronel J.G. Sas, adido militar da embaixada holandesa em Berlim, sobre os planos para o Weserubung, tendo Sas informado imediatamente ao adido naval dinamarquês, capitão Kjolsen.

Carro blindado alemão em Jutlândia, na Dinamarca / Crédito: Bundesarchiv, Bild 101I-753-0010-19A / Bieling / CC-BY-SA 3.0 / Creative Commons / Wikimedia Commons

O governo dinamarquês, contudo, não acreditou e, quando em 4 de abril o ministro do país em Berlim mandou Kjolsen às pressas para Copenhagen, para retransmitir pessoalmente a notícia, ainda não a levaram a sério.

Mesmo na noite de 8 de abril, após receber a informação de que um navio-transporte alemão, repleto de soldados, se aproximava do sul da costa da Noruega — perto do norte da Dinamarca, o rei dinamarquês seguiu não acreditando.

Alguns dias antes, Hitler, em uma reunião com o militar alemão Hermann Goring, expediu uma ordem formal para que começassem a Operação Weserubung no dia 9 de abril, às 4:15 horas. E também ordenou, segundo Shirer, que “se devia impedir, a todo custo, a fuga dos reis da Dinamarca e da Noruega de seus países por ocasião da ocupação”. Dito e feito.

Na data e horário marcados foi deflagrada a operação Weserubung, o ataque alemão sobre a Dinamarca e a Noruega a pedido do Führer, com planejamento do general alemão Nikolas von Falkenhorst. No chamado “Dia Weser”, como ficou conhecido o dia em que a Alemanha invadiu a Dinamarca e a Noruega, supostamente para protegê-las de um “possível” ataque da França e da Inglaterra, logo chegou um pedido de que aceitassem sem resistência “a proteção do Reich”.

A Dinamarca resistiu algumas horas à ofensiva alemã, tendo morrido 26 soldados dinamarqueses e 20 alemães. Por fim, 456 judeus foram levados para Theresienstadt, o campo de concentração da cidade de Terezín (hoje, parte da República Tcheca).

Estes, sobreviveram ao Holocausto porque, em parte, os oficiais dinamarqueses pressionaram os alemães com preocupações sobre o bem-estar dos deportados — e, com isso, provaram que o apoio em massa aos judeus e a resistência às políticas nazistas poderiam salvar vidas.

Tanques alemães em Aabenraa, na Dinamarca / Crédito: Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

O basta

Em 2 de outubro de 1943, a Suécia ofereceu asilo para os judeus dinamarqueses. Os membros da resistência dinamarquesa, em conjunto com a população local, organizaram espontaneamente uma iniciativa nacional para transportar clandestinamente os judeus até o litoral, de onde pescadores dinamarqueses os transportariam para a Suécia.

Em quase um mês, os dinamarqueses levaram mais de 7.200 judeus e cerca de 680 não-judeus pela pequena faixa de água que separa a Dinamarca da Suécia, ajudando-os a chegarem às praias, onde os pescadores os transportavam em suas lanchas ou barcos pesqueiros para a Suécia, com o apoio do Rei Cristian X e das autoridades das igrejas dinamarquesas. Porém, 456 judeus do país foram levados para Theresienstadt.

Mais tarde, em 23 de junho de 1944, uma delegação dinamarquesa, junto com a Cruz Vermelha Internacional, visitou Theresienstadt para fazer uma inspeção de como viviam os judeus neste espaço concentracionário. Para iludir a visita e a opinião mundial sobre o tratamento aos prisioneiros, os nazistas embelezaram o gueto e criaram a impressão de que era “uma área de assentamento judaico”.

Ao contrário das demais vítimas daquele campo, os 456 dinamarqueses que ali se encontravam não foram deportados para Auschwitz, caminho natural dos prisioneiros de Theresienstadt, e podiam receber pacotes de mantimentos. A insistência do rei para que a Cruz Vermelha visitasse o local era rara, já que os governos europeus não se interessavam em saber como seus cidadãos judeus eram tratados.

Desses prisioneiros dinamarqueses, 413 deixaram Theresienstadt, via Suécia, sendo entregues aos cuidados da Cruz Vermelha sueca como resultado das negociações entre representantes do governo sueco e oficiais nazistas. Os “ônibus brancos”, assim chamados porque foram pintados dessa cor para não serem confundidos com veículos militares alemães, em cooperação com a Cruz Vermelha dinamarquesa, retiraram os sobreviventes de Theresienstadt em 15 de abril de 1945, com total apoio do rei.

Segundo a 'Enciclopedia del Holocausto', “os nazistas não tentaram tornar obrigatório o uso do distintivo identificador de judeu (a estrela amarela) por causa da forte oposição dos dinamarqueses às obrigações antijudaicas”. Mas menciona que o rei Cristian X usou-o como gesto de solidariedade aos prisioneiros de outros países.

Um claro exemplo de respeito ao judaísmo; e de coragem, valentia e compromisso com os moradores judeus de seu país. A Dinamarca foi a única nação ocupada que resistiu ativamente à tentativa do regime nazista de deportar seus cidadãos judeus. E o salvamento se torna ainda mais especial porque se revelou um esforço nacional.

Fotografia do rei Cristian X, da Dinamarca / Crédito: Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

A memória

Fundado em 1953, o Museu Yad Vashem, em Jerusalém, é o memorial oficial de Israel para eternizar a memória das vítimas do Holocausto e documentar a história do povo judeu neste episódio para que ela sempre seja lembrada pelas gerações futuras.

Como parte desta tarefa, o lugar instituiu o título Justos entre as Nações, para reconhecer os nãos judeus que salvaram pessoas perseguidas pelo regime nazista, concedendo-o à Dinamarca e ao Movimento de Resistência Dinamarquês.

Até o final de 2017, cerca de 27 mil nomes, entre homens e mulheres de todas as classes sociais, formações e religiões, e de mais de 50 países, foram reconhecidos como Justos entre as Nações. Com relação ao caráter excepcional dos dinamarqueses neste período, ao serem questionados sobre por que agiram salvando os judeus, colocando em risco sua própria vida, responderam que “nada fizeram além de tratá-los como vizinhos. E que ninguém pode deixar o inimigo maltratar, deportar ou matar seus vizinhos”.

Após a guerra, ao retornarem para suas vidas, os judeus da Dinamarca descobriram que haviam sido feitos inventários de suas casas e negócios e que suas propriedades haviam sido protegidas; que seus lares, animais, jardins e pertences haviam sido preservados pelos vizinhos, sendo raros os casos em que isso não aconteceu.

As igrejas haviam guardado os objetos de culto judaico, devolvendo-os para a comunidade assim que possível. Uma forma popular a que os dinamarqueses recorriam para mostrar o seu patriotismo e resistência silenciosa à ocupação alemã era usar um pequeno botão quadrado com a bandeira do país e a insígnia do rei.

Este símbolo chamava-se Kongemærket (pin do emblema do rei). “Mesmo no inferno, mesmo no inferno denominado Holocausto, houve gentileza, houve bondade, e ainda houve amor e compaixão”, disse o então diretor da Liga Antidifamação, Abraham Foxman, salvo quando criança.


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