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O 'Grande Salto Adiante' idealizado por Mao Tsé-Tung na China

Na teoria, o plano aceleraria o desenvolvimento da indústria e da agricultura. Na prática, as coisas não saíram como o esperado

Alexandre Carvalho Publicado em 04/07/2021, às 10h00 - Atualizado às 19h17

Fotografia de Mao Zedong
Fotografia de Mao Zedong - Domínio Público/ Hou Bo/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

O começo do novo regime, no início dos anos 1950, fixou no imaginário popular o que o mundo entende pelo comunismo mais emblemático. Mao imediatamente pôs em prática um plano de reformas que incluía a coletivização das terras, a nacionalização das empresas estrangeiras e o controle estatal da economia.

Na teoria, o Partido Comunista tinha o objetivo de acabar com a iniciativa privada para que todos tivessem os mesmos benefícios, distribuídos pelo governo. Na prática, não era bem assim. E nem funcionava bem.

Em 1958,Mao Tsé-Tung lançou um plano grandioso para acelerar o desenvolvimento da indústria e da agricultura. E, como tudo o que o Partido Comunista fazia, batizou-o com um nome pomposo: O Grande Salto Adiante — ou simplesmente O Grande Salto.

A China foi dividida em comunas, propriedades com cerca de 5 mil famílias cada, e cada uma delas tinha metas de produção. Por exemplo, as indústrias estatais precisavam de madeira para abastecer suas fornalhas, e houve um estímulo — melhor dizendo, uma pressão — para um desmatamento de proporções chinesas. Tão grande e absurdo que o corte de tantas árvores responde até hoje por parte da poluição que assola o país.

Ainda na área industrial, aconteceu uma forte campanha para que as famílias doassem o que tivessem de metal para ser transformado em aço para as fábricas chinesas — tudo, claro, supostamente em prol da coletividade. Nisso, os chineses foram forçados a ceder ao governo desde joias que estavam em suas famílias havia séculos até peças de uso diário, como utensílios de cozinha, pás, martelos...

Fotografia de Mao Zedong, Deng Xiaoping e Wang Jiaxiang, respectivamente / Crédito: Domínio Público

 

A propaganda do partido dizia que “entregar uma picareta é destruir um imperialista, e esconder um prego é ocultar um contrarrevolucionário”. O resultado foi que ninguém mais tinha objetos metálicos em casa. Mas talvez possuir utensílios de cozinha fosse um luxo mesmo, uma vez que, com O Grande Salto, já não havia o que comer.

Isso porque, no processo de coletivizar as terras, as propriedades rurais enfrentavam metas inexequíveis para fornecer alimentos ao Estado. Ninguém conseguia chegar aos números estratosféricos que o Partido Comunista exigia, e Mao iniciou uma campanha de repressão, acusando os camponeses de boicote e de esconder comida.

Na verdade, se não chegavam mais grãos era porque a fonte tinha secado. Assim O Grande Salto ficou marcado por outro nome chamativo: A Grande Fome. As estimativas de mortos entre 1958 e 1960, principalmente por desnutrição, foi de 15 a 50 milhões de pessoas, dependendo da fonte. Mas não foi só o vazio no estômago que os matou.

Professor da Universidade de Hong Kong, o holandês Frank Dikötter aponta que pelo menos 2,5 milhões de chineses morreram violentamente diante da pressão do governo por mais produtividade.

“As pessoas eram espancadas até a morte por terem roubado um punhado de grãos para se alimentar”, afirma o historiador. “Num vilarejo, um líder local forçou um homem a enterrar vivo seu próprio filho de 12 anos por ter pegado um pouco de grãos. Esse pai morreu de tristeza três semanas depois.”

Fotografia de Mao Zedong durante a proclamação da República Popular China, em 1949 / Crédito: Domínio Público

 

O fato é que, mesmo em suas estimativas mais comedidas, essa fome generalizada é tida como uma das maiores e mais letais tragédias perpetradas pelo próprio homem na história da humanidade. E as causas estão todas relacionadas às desastrosas políticas do partido em sua obsessão por transformar a China em potência da noite para o dia.

Na época, milhões de camponeses, especialistas em obter o melhor da terra, foram deslocados dos campos para as fábricas, de modo a engrossar a produção de aço. Mas o exemplo mais bizarro talvez tenha sido a chamada Campanha das Quatro Pragas.

Com a ideia de proteger os campos de pardais, que sempre comeram sementes das colheitas, o Partido Comunista mobilizou as massas a agir contra esses pássaros. E aí o que se viu foram cenas de puro terror: gente comum, do povo, abatendo os pardais no céu, destruindo ninhos e quebrando ovos; famílias batendo em panelas ou tambores até que as aves, assustadas, sem ter onde pousar, desmaiassem de tanto cansaço.

A iniciativa cumpriu com o objetivo do governo: esses passarinhos quase chegaram à extinção na China. Só que deu ruim. Sem os pardais como predadores, a população de gafanhotos cresceu de forma inédita, exigindo aumento do uso de pesticidas e provocando uma queda significativa na produção de arroz. Menos grãos, mais fome.


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