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O sacerdote e o nazista: Herbert Kappler encontrou um obstáculo em Roma

Apesar da guerra, da rivalidade entre eles e de tudo o que passaram, no final, o perdão venceu

Coluna - Ricardo Lobato, sociólogo, mestre em economia pela Unb e Oficial da Reserva do Exército Brasileiro Publicado em 03/04/2021, às 09h00

Herbert Kappler em registro da guerra
Herbert Kappler em registro da guerra - Wikimedia Commons

O dia 8 de setembro de 1943 era para ter sido uma data feliz para os italianos. Depois de quase quatro anos de uma guerra para a qual não estavam preparados, e como consequência da invasão Aliada, o rei Vítor Emmanuel III removeu Mussolini do cargo de primeiro-ministro e o governo assinou o armistício. O país estava parcialmente arrasado.

A economia estava em frangalhos, o povo passava fome e os horrores da ditadura fascista começavam a vir à tona. Todavia, no lugar de um respiro de alívio, veio uma nova onda de terror.

Temendo que o flanco sul do III Reich ficasse exposto, Hitler ordenou a seus generais que ocupassem militarmente a Itália. Em vez da tão sonhada libertação, os italianos ainda veriam mais dois longos anos de conflito.

Com a ocupação alemã, um oficial em particular adquiriu notório poder. O tenente-coronel Herbert Kappler, membro das temidas SS, foi designado chefe de todas as unidades de polícia e de inteligência alemãs em Roma.

Sua tarefa consistia em “manter a ordem” na Cidade Eterna. Em outras palavras, coibir toda atividade de resistência italiana, manter cativos os prisioneiros Aliados e, principalmente, supervisionar a deportação dos judeus italianos para os campos de concentração.

Apesar de ter o controle militar absoluto da cidade, Kappler encontrou um oponente à altura, o Monsenhor Hugh O'Flaherty, um sacerdote católico servindo no Vaticano.

O’Flaherty ingressara no seminário em sua Irlanda natal e terminara seus estudos no Vaticano, onde acabou ficando. Ao se deparar com os horrores perpetrados pelos nazistas, montou uma rede de assistência com um objetivo primordial: salvar o máximo possível de vidas.

Não importava se eram católicos ou judeus, italianos ou Aliados; quem recorria a ele recebia proteção. Logo começou um jogo de gato e rato entre o sacerdote e o nazista. A rede de O’Flaherty era composta de religiosos, diplomatas servindo na Santa Sé, militares Aliados que haviam escapado dos campos de prisioneiros e civis italianos.

Mantinham esconderijos em Roma e nos arredores, nas igrejas da cidade e até dentro do Vaticano. Ao contrário dos partisans, não se engajavam nos combates contra os nazistas. Seu objetivo era proteger os perseguidos, não lutar.

A Gestapo, comandada por Kappler, descobriu que o chefe da rede era um padre. Isso fez com que as autoridades alemãs tomassem medidas drásticas, pintando uma linha branca na entrada da Praça de São Pedro, a fronteira formal entre o Vaticano e Roma. Se O’Flaherty cruzasse a linha, os soldados tinham ordens de abrir fogo.

Nada que o detivesse. Saía pelas portas laterais fantasiado, fugia de patrulhas, mas continuava seu trabalho. A rivalidade entre os dois se tornava mais acirrada, com métodos cada vez mais sofisticados das duas partes.

Apesar da rivalidade, quando os Aliados chegaram a Roma, O’Flaherty providenciou para que a família de Kappler deixasse a Itália em segurança. A solidariedade não tinha nome.

O nazista foi condenado à prisão perpétua por seus crimes de guerra; enquanto cumpria pena, apenas um visitante vinha vê-lo: o sacerdote. Kappler se converteu ao catolicismo em 1959 e foi batizado por O’Flaherty. Apesar da guerra, de tudo o que passaram, no final, o perdão venceu.


Ricardo lobato é sociólogo e mestre em economia pela Unb, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro e analista-Chefe de Política e Estratégia da EQUILIBRIUM – Consultoria, Assessoria e Pesquisa.


**A seção 'Coluna' não representa, necessariamente, a opinião da Revista Aventuras na História.