Tupi de laboratório: As palavras que os índios nunca usaram

Muitos nomes de lugares e pessoas não tem nada de nativos: foram inventados por escritores e professores universitários

sexta 4 maio, 2018
O cacique tupinambá Cunhambebe lutou contra os portugueses e seus aliados tupiniquins, que acabariam se integrando completamente, salvo um pequeno grupo
O cacique tupinambá Cunhambebe lutou contra os portugueses e seus aliados tupiniquins, que acabariam se integrando completamente, salvo um pequeno grupo Foto:André Thevet

Muitas expressões para descrever locais, plantas e animais do Brasil são indígenas e não há mistério nisso: quando os portugueses não tinham palavra para descrever algo, usavam a do índio. Tucano e jacaré, por exemplo, são grafias aportuguesadas do tupi tukana e îakaré. Também adotaram o apelido com que os índios os batizaram, como no caso de kari'oka (carioca, "casa de branco").

Até a independência, o Brasil foi um país mais índio do que português. No interior (incluindo a cidade de São Paulo), falava-se a língua-geral, uma versão do tupi, usada por bandeirantes e tropeiros. O idioma, que só era transmitido oralmente, passou a ser registrado na forma escrita pelos jesuítas. E os falantes de tupi que não eram índios continuaram a dar nomes aos lugares: Curitiba foi batizada em língua geral. Kuri'i é "pinheiro" em guarani, e tiwa significa "muitos" em tupi.

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Até a metade do século 18, o tupi era o idioma mais falado no Brasil. Em 1757, o marquês de Pombal tornou o português obrigatório no Brasil. Os jesuítas foram expulsos do país e o ensino de tupi foi proibido nas escolas.

A lei colou nas capitais, mas pouco afetou as populações do interior. Só com a chegada dos imigrantes europeus, no século 19, o português se tornou a língua oficial e os caipiras abandonaram a língua-geral (caipira vem de ka'apir, "cortador de mato", origem de carpir).

Autores do romantismo, como José de Alencar, escreveram romances idealizando os índios em busca da identidade brasileira. Nomes como Iracema ("doce como mel") e Ubirajara ("senhor do mato") são criações de Alencar, e não nomes indígenas de verdade. O nome Moema ("mentira"), vem do livro Caramuru, de Santa Rita Durão (1781), e nunca foi usado pelos índios.

O tupi de dicionário continuou pelo século 20. Novas cidades ganhavam nome para ter um tom mais "nativo". "Engenheiros fundavam um lugar e ligavam para a USP, consultando os professores de tupi", diz Eduardo Navarro, da USP. Votuporanga ("bons ares", fundada em 1937) e Umuarama ("lugar de fazer amigos", de 1955) nunca foram chamadas assim pelos índios. Nhenhenhém? Não. A expressão vem do tupi. Significa "fala, fala, fala".

Fábio Marton


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