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Ok, boomer: conheça a geração fruto da explosão demográfica pós-Segunda Guerra

Um dos memes mais populares é também a geração que só enfraqueceria na virada dos anos 60

Felipe van Deursen e Izabel Duva Rapoport Publicado em 14/06/2020, às 09h00

Imagem de Rudy Anderson por Pixabay
Imagem de Rudy Anderson por Pixabay - Divulgação

Imagine a situação: você está há tanto tempo lutando contra o inimigo, em países estranhos, que nem se lembra do gosto da comida de casa. Seu dia a dia é composto de corpos mutilados e mortos, sangue e poeira. Tudo com o que você sonha é voltar para o conforto e a segurança do seu lar.

A luta termina e, no fim, você faz parte do grupo vitorioso: é recebido em seu país como herói. O que acontece nove meses depois? Você é pai. Foi isso o que se passou com milhares de casais americanos com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Um ano depois começava uma explosão demográfica que só enfraqueceria com a chegada dos anos 60.

Era o chamado baby boom. Na década de 40, nasceram nos Estados Unidos 32 milhões de bebês, 33% a mais que na década anterior. Em 1954, foram mais de 4 milhões de partos americanos, quase 11 mil por dia. E agora os mais velhos dessa turma já passaram dos 70.

A geração baby boomer, como ficou conhecida, mudou os costumes do mundo – embora tenha virado piada entre os jovens atuais. Formada pelos filhos que mais se diferenciavam dos próprios pais até então, a baby boomer virou adulta no mais duradouro período de prosperidade do país, distante dos traumas sofridos pela geração anterior, que cresceu durante a Grande Depressão.

Pelos 15 anos seguintes ao confronto mundial, a onda de otimismo dominou não só os Estados Unidos mas também muitos dos países aliados, como Canadá e Reino Unido. No Brasil, a euforia se deu nos anos de Juscelino Kubitschek, entre 1956 e 1960. A economia andava a toda e o desemprego era baixo.

“O que aconteceu após a Segunda Guerra Mundial foi uma conjunção de fatores: otimismo juvenil, bens materiais em abundância, vitória em uma guerra, medo de perder em outra”, escreveu o historiador Howard Smead em Don’t Trust Anyone Over Thirty: The First Four Decades of the Baby Boom (“Não Confie em Ninguém com Mais de 30: As Quatro Primeiras Décadas do Baby Boom”, inédito no Brasil).

“Você quer culpar alguém pelo baby boom? Culpe Hitler: suas atividades na Europa distorceram o ciclo familiar nos EUA”, disse ele.

Uma revolução não tão liberal

Em 1965, quatro de cada dez cidadãos americanos tinham menos de 20 anos. Um ano antes, havia estourado a Guerra do Vietnã. Em 1969, o Festival de Woodstock entorpeceu o mundo com sua mensagem roqueira de paz e amor. Na primavera anterior, universitários de Paris mobilizaram a França contra o regime de Charles de Gaulle (os baby boomers europeus são conhecidos como “a geração de 68”) e o feminismo ganhou força e mais voz.

Ou seja, as grandes manifestações da década, talvez do século, foram protagonizadas por jovens que nasceram no pós-guerra. Hippies e feministas são filhos do baby boom. Mas a geração que revolucionou os costumes não era lá tão liberal. Nos EUA, na primeira vez em que votaram, elegeram duas vezes o republicano Richard Nixon. E o democrata Bill Clinton, o primeiro presidente baby boomer, não era bem-visto por seus contemporâneos.

Ok, boomer

O conservadorismo dos baby boomers, aliás, virou piada na internet entre os jovens de hoje em dia – mais especificamente os que formam a chamada geração Z ou millennials (os nascidos entre 1996 e 2015).

Para contrariar comentários publicados nas redes sociais por pessoas mais velhas, resistentes às mudanças ou ao estilo de vida das novas gerações (ou então as opiniões publicadas por internautas mais novos que agem como os nascidos entre 1946 e 1964), a juventude atual criou o meme ou a frase viral “Ok, boomer”: uma expressão online que traz à tona um conflito geracional.

A frase surgiu como desdém a um vídeo compartilhado no TikTok em 2019 que reforçava a ideia de que as novas gerações têm “síndrome de Peter Pan”, ou seja, que não querem crescer, que vivem num mundo próprio e limitado e que são dependentes de tecnologia e celular.

Se, de um lado, porém, está o argumento de que os jovens vivem de utopias, do outro, há a acusação de que os adultos não acreditam, não compreendem e não investem na juventude de hoje em dia.