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Paço Imperial recebe exposição de carga histórica que funciona de acordo com as badaladas dos sinos

Desenvolvido pela renomada artista Ursula Tautz, a montagem reúne características imersivas do marcante som

Izabel Duva Rapoport Publicado em 17/10/2021, às 14h00

Fotografia registra parte da exposição
Fotografia registra parte da exposição - Divulgção/ursulatautz.com

Há sinos por toda parte na instalação artística de Ursula Tautz, em cartaz no Paço Imperial, palácio construído entre 1738 e 1743 no Rio de Janeiro.

Sobre uma montanha com 9 toneladas de terra negra e areia dourada, que soterram uma cadeira com braços e alto espaldar, vários sinos quebrados chamam a atenção. “São badalos mudos, parados, que trazem memórias de um tempo congelado, uma tentativa de unir passado e presente”, explica a artista.

No entanto, é possível ouvir de dentro do prédio o badalar dos sinos das diversas igrejas ao redor, que marcam as horas. Estes sons, aliás, estão sincronizados com os três filmes projetados na sala.

Todos tratam de memórias, sejam elas pessoais ou coletivas. “São vários tempos conversando ao mesmo tempo: o tempo do agora, marcado pelas badaladas dos sinos, o tempo passado dos filmes e o tempo histórico do Paço Imperial e das igrejas”.

Um marco sonoro

Objetos solenes, além de marcar as horas, são também símbolos universais, sinais sonoros da humanidade, como bem lembra a historiadora Luciana Muniz Sousa: “Os sinos fazem parte de nossos rituais desde o Egito Antigo. Na Idade Média, a Igreja os fixou em suas torres e em nosso cotidiano, eram marca de poder, controle territorial e celestial, vistos como a manifestação concreta da voz de Deus”, descreve.

Não à toa, o trabalho de Ursula foi pensado especialmente para o lugar, palco de
importantes acontecimentos históricos, como o Dia do Fico, a Abolição da Escravatura e a Proclamação da Independência do Brasil.

“A obra tem relação com o nosso país. O trono soterrado pela terra faz alusão à colonização. E, agora, com a pandemia da covid-19, não foi mais possível desvincular o monte de terra das cenas que vimos todos os dias em consequência das inúmeras mortes causadas pelo vírus”, diz a artista, sem esquecer de mencionar a luta do povo brasileiro, a esperança de quem precisa se renovar a cada dia e a grave desigualdade social que assola nossa história.

“A terra é forte, preta e fértil, enquanto a areia dourada é uma referência às nossas riquezas, revelando a dicotomia do nosso país.”

A exposição “O Som do Tempo ou tudo que se dá a ouvir” estará disponível para visitação no Paço Imperial (Praça XV de Novembro, 4, Centro, Rio de Janeiro) até o dia 21 de novempro de 2021, aberto de terça a sexta, das 12h às 18h, e em sábados e feriados, das 12h às 17h. A entrada é gratuita.