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Pânico e gritos de agonia: quando japoneses da Segunda Guerra foram atacados por crocodilos

Na madrugada de 19 de fevereiro de 1945, um pelotão de britânicos, em patrulha pelas margens pantanosas da ilha de Ramree, se deparou com um episódio macabro

M. R. Terci Publicado em 26/07/2020, às 09h00

Imagem ilustrativa do episódio
Imagem ilustrativa do episódio - Wikimedia Commons

A Segunda Guerra foi um conflito absoluto, não somente pela extensão do campo de batalha que extrapolou as fronteiras europeias, norte da África, da Ásia e Havaí, mas também pelo emprego de meios de destruição em massa e por seu desfecho: a capitulação total dos vencidos, consumando mudanças drásticas na geopolítica global. Literalmente, a Segunda Guerra Mundial deixou o mundo em ruínas.

Mas, debaixo dos escombros, existem fatos curiosos,histórias singulares, personagens improváveis e feitos inacreditáveis esperando para serem trasladados à superfície. Venham comigo, pelos caminhos mais escuros da história, revolver o passado à procura de tragédias inverossímeis, episódios hórridos e sangrentos promovidos por mandíbulas assustadoras.

Embate fatal

Fevereiro de 1945. O palco de nosso embate é a ilha Ramree, na Birmânia, atual Mianmar. Com o objetivo de desalojar as Forças Imperiais Japonesas que haviam se instalado na ilha em 1942, a Marinha Real Britânica, a Royal Air Force e a 36ª Brigada de Infantaria Indiana, mobilizaram suas tropas.

Após intensos bombardeios e embates encarniçados na costa, as forças aliadas conseguiram tomar as posições ocupadas e o remanescente da tropa, cerca de mil combatentes japoneses, foi empurrado para o interior da ilha.

Dispostos a não se entregarem, a estratégia japonesa, nesse interim, era constituir uma linha de defesa, reagrupar e, com a chegada de novo batalhão, reconquistar a base. Mas, flanqueados pela infantaria e sob constantes investidas da Royal Air Force, não sobrou alternativa aos soldados, senão recuar para o interior pantanoso de Ramree, em direção ao denso manguezal que cobria mais de 16 quilômetros de território.

A hostilidade daquela ilha tropical era imensa. Aqueles que não ficaram pelo caminho, atingidos pelos eventuais ataques aéreos, pereceram nos limites do pântano face às doenças tropicais carregadas por enxames de mosquitos e picadas de gigantescos insetos peçonhentos e cobras venenosas.

Faltava água potável e com suprimentos limitadíssimos, a fome se fazia presente há vários dias. Certamente, os sobreviventes a estes percalços desejaram, pois, ter perecido nas primeiras horas.

Mas as semanas que se seguiram foram ainda mais infernais para os soldados japoneses. Alguns deles acreditavam que inadvertidamente haviam adentrado o Yomi, o mundo dos mortos na mitologia japonesa, guardado por imensas bestas e de onde ninguém escapa.

O que se seguiria, certamente, poderia ser comparado a isso. O pelotão, que corajosamente havia escolhido não se render aos britânicos, caminhava diretamente para um destino horripilante.

Na madrugada de 19 de fevereiro, uma patrulha britânica em ronda pelas margens pantanosas, ouviu vociferações de pânico, terríveis gritos de agonia e disparos ininterruptos armas de fogo vindos da imensidão escura e sinistra do manguezal. Posteriormente, o naturalista Bruce Stanley Wright, um dos soldados em serviço naquela noite, incluiria relatos assustadores da carnificina em seu livro "Wildlife Sketches, Near and Far”.

“Aquela noite foi horrível para as tropas que estavam posicionadas na borda do pântano e ouviram tudo. Alguns homens tiveram de ser dispensados da patrulha por não suportar os gritos que vinham lá de dentro. Os crocodilos atraídos pelo som da batalha e pelo cheiro de sangue convergiram aos milhares para o interior da ilha usando os mananciais rasos para se esconder e atacar de surpresa.”

Inimigo animal

Atacados por crocodilos de água salgada, o maior espécime réptil existente no planeta, os japoneses tentavam voltar na direção da base perdida, mas logo encontraram uma massa intransponível daqueles monstros nos charcos alagados – alguns com mais de 5 metros de comprimento.

A fuzilaria não dissuadia os crocodilos. O cheiro de pólvora se espalhando pelo ar e todo aquele sangue diluído no pântano parecia convocar mais demônios para o banquete. No livro de Wright, consta uma tenebrosa peculiaridade desses répteis, “o crocodilo de água salgada continua atacando mesmo que tenha obtido carne suficiente para se fartar”.

Quando o dia amanheceu, abutres circulavam o local onde os cadáveres destroçados de centenas de soldados japoneses boiavam nas águas rasas e estagnadas. Alguns relatos, incluindo o de Wright mencionam que apenas 20 soldados japoneses sobreviveram para alcançar a margem do pântano e se entregarem aos britânicos.

Tal são esses relatos que, em 1968, o episódio chegou a ser considerado pelo Guiness Book of Records como “O Maior número de vítimas humanas num mesmo ataque de animais”.

Contudo, em 2016, a National Geographic descobriu algumas novas evidências sobre o ocorrido, que levantaram dúvidas sobre a extensão das mortes, levando a direção do Guinness Book a reabrir o registro para investigação.

E embora o registro não tenha sido listado no Guinness nos anos seguintes como o de maior número de vítimas, o relato passou a constar do editorial “Nazi Weird War Two”, onde os eventos angustiantes do ataque são apresentados ao lado de outros recordes relacionados a crocodilos.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.


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