Em 1233, o papa decretou que gatos eram parte de rituais satânicos — dando início a um massacre de séculos

Na Europa, por quase 600 anos, todo o tipo de atrocidade seria cometida aos risos contra o animal 'símbolo' de Satã

sexta 23 fevereiro, 2018
Na imagem, uma fera impiedosa
Na imagem, uma fera impiedosa Foto:Redação AH

O Papa Gregório IX (1145-1241) será sempre lembrado em grande parte por lançar a Inquisição Papal, que daria origem a várias outras, com seus infames e letais efeitos. Quando, em 1227, subiu ao trono papal como sucessor de Honório III, havia perdido a paciência com as políticas conciliadoras de seu antecessor, que julgava responsáveis pela sobrevivência de diversas heresias - em particular o catarismo, que só teve fim em seu mandato, com o encerramento da Cruzada Albigenense que vinha desde 1209.

O papa instituiu os Decretales, que punia todos que fossem acusados de heresia. E não seriam humanos a ser vítimas da perseguição. Em 1232, o pontífice deu início a um massacre de gatos que duraria seis séculos.

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Então, ele emitiu a bula papal Vox in Rama que discutia o uso de gatos pretos por uma suposta seita herege da Alemanha, os luciferianos, que achavam que o Diabo havia sido expulso do Paraíso injustamente. Assim era descrito seu ritual.:

Os hereges fazem reuniões secretas. Quando um postulante deseja se tornar um membro da congregação, ele é levado para o centro do local. O diabo aparece sob a forma de um sapo, ganso, pato ou como um gato preto, com a cauda ereta. Ele desce em forma de estátua andando para trás para conhecer seus adoradores. O postulante então beija a sua boca ou traseiro.  

Após várias orgias pós-jantar (às vezes homossexuais de natureza), um homem num canto escuro da sala sai com a genitália ereta, brilhando como o sol. Sua parte inferior é desgrenhada como um gato.

Gregório lançou assim uma inquisição contra os luciferianos e, quem sabe sem intenção, também contra os gatos pretos. Animais que na Antiguidade egípcia chegaram a ser vistos como literais divindades (a deusa Bastet) eram agora diabólicos. E o povo entendeu o recado: não demorou muito para que um extermínio em massa dos bichanos — de preferência pretos, mas nem de longe só eles — fosse iniciado. 

Por toda a europa, católicos e, depois, protestantes passaram a fazer "brincadeiras" com gatos. A imaginação era o limite para criar mais uma forma absolutamente brutal de despachar os animais "demoníacos". Gatos eram enfiados em sacos ou cestos, presos em estacas, e queimados vivos ou tratados como pinhatas vivas, apanhando por todos os lados.

Ainda hoje, em Ypres, na Bélgica, no segundo domingo de maio celebra-se o Kattenstoet, "festival dos gatos". É uma parada temática, com carros e pessoas vestidas de felinos. Mas, até 1817, era bem diferente: o festival consistia em atirar um gato em chamas da torre da igreja.

KARMA?

Ninguém esperava a inquisição, diz o meme. Mas, menos ainda, ninguém esperava como isso influenciaria na Peste Negra. Sem gatos suficientes para matar os ratos que carregavam as pulgas causadoras da epidemia, um em cada três europeus acabou morrendo entre 1348 e 1350.

A lição não foi aprendida. Os felinos foram abatidos sem piedade (e a peste voltou a ter epidemias locais) até o início do século 19, perseguidos como ratos, em massacres ou brincadeiras crueis. 

Segundo o historiador Donald Engels na obra Classical Cats: The Rise and Fall of the Sacred Cat ("Gatos Clássicos: A Ascensão e a Queda do Gato Sagrado", em tradução livre), a pequena quantidade de gatos pretos que existem na Europa Ocidental ainda hoje é consequência e evidência dos nefastos efeitos da bula papal de Gregório IX.  

A sanha antigato dos europeus começou a morrer junto com a crença em bruxas, na Era das Luzes, o século 18. No 19, surgiriam as socieades protetoras de animais e criadores profissionais, que dariam origem às raças modernas.

Thiago Lincolins


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